Crónicas do Fidalgo

Pessoas

"No princípio estavam as motas" por Sérgio Pereira

É impossível determinar o dia em que tudo começou, mas na minha primeira lembrança de obsessão pelas duas rodas motorizadas tinha 9 anos. Foi quando tive a oportunidade de agarrar o acelerador da scooter da minha tia, em andamento, em pé no avental, sem capacete, o meu irmão à pendura, na estrada mais movimentada da aldeia onde passávamos os fins-de-semana.

Aos 13 comprei uma Casal Boss às escondidas dos meus pais, a prestações, a um senhor que tomava conta de uma vacaria lá na aldeia. Só tinha metade do valor e não fazia ideia de como iria respeitar a segunda metade do acordo, mas trouxe a mota para casa e acho que ainda tenho o livrete de emissão municipal em meu nome! O resto é história. Ou melhor: estórias. Tenho muitas, como toda a gente as tem, mas o que cedo aprendi é que, se for demasiado consensual, provavelmente não é para mim. Chamemos-lhe uma constante necessidade de chamar à atenção, provavelmente despoletada por uma juventude suburbana mergulhada na indiferença e impessoalidade.

Podia contar-vos de como aos vinte e poucos anos deixei o conforto do serviço militar contratado e me lancei para a América Latina, sozinho, por três meses. Ou de como, três anos mais tarde, me despedi de um emprego “invejável” para ir dar a volta à Europa numa mota com a minha idade, que me custou 350 euros e que alterei em casa. Hoje em dia quase toda a gente sabe o que é uma Z1000, mas antes da era da internet, numa aldeia do centro de Portugal (onde já vivia a tempo inteiro), era apenas uma mota velha de que nunca ninguém tinha ouvido falar, que só pegava quando queria (o que, felizmente, era quase todos os dias)!

Dezenas de roadside repairs e centenas de litros de óleo depois, essa mota só voltou a casa ao fim de um ano e meio.

Também podia falar-vos dos primórdios da Rocksolid Motorcycles, quando me mudei de Inglaterra em plena crise económica, sozinho, sem trabalho e sem um tostão, depois de descarregar um semi-reboque cheio de máquinas e peças velhas num armazém sem luz. O meu irmão Hugo juntou-se passado um ano. Sem ele, a Rocksolid Motorcycles nunca seria o que é.

Toda a minha vida - desde os 14 anos - foi ditada e moldada por essa obsessão pelas motas e até há pouco tempo não me imaginava a fazer mais nada profissionalmente.

Nunca fui uma pessoa com talento para nada. Queria andar de mota e queria ser diferente da maioria. Como não tinha forma de comprar algo que me destacasse dos demais, fui usando o que tinha e construindo o meu castelo. O José (Fidalgo) pediu-me para escrever um texto sobre a minha transição das motas para o mobiliário, mas sem esta introdução este texto ficaria descontextualizado.

Posso começar por explicar como, depois de mais de 10 anos a acumular ferramentas e a participar na construção de verdadeiras armadilhas motorizadas, vi o meu mundo - ilusório - ser invadido pelo que na altura encarei como outsiders. Corria o boom das Café Racers e, de repente, já toda a gente era bike builder!

O alternativo e hardcore era agora mainstream e o que me tinha custado a maior parte da minha vida a conquistar era agora facilmente clonado com meia dúzia de fotos, um boné e um colete cheio de patches comprados online.

Isso e a realização de que, após uma década de sucessos mediáticos em publicações marginais e estrondosos falhanços económicos, a probabilidade de prosperidade financeira jamais viria do mundo motorizado. Talvez isso ou o facto de já não me identificar inteiramente com a cena, mas a minha curta vida adulta tinha sido sempre feita de rupturas e já estava habituado a fazer asneira .

Parto então novamente em busca do meu quinhão de fame and fortune, de quebrar com a convenção e de romper as minhas próprias barreiras de sensibilidade estética e capacidade técnica. De deixar para trás a minha zona de conforto - como dizem os pseudo-gurus do desenvolvimento pessoal - ,romper com novos públicos, novas linguagens, novas instalações, novos clientes, novas dores de cabeça, tendo os meios técnicos existentes como ponto de partida.

Tecnicamente, no que dizia respeito ao aço, tinha tudo sob controlo. Fazia rotineiramente estruturas capazes de suster 350kgs a 200km\h, vulgo o chassis de uma Harley Davidson. Nesta fase já tinha feito mais de 100, seria seguramente competente para fazer uma mesa capaz de suportar meia dúzia de pratos e travessas na ceia de Natal. O fundamental para mim era - e é - criar, passar da ideia, aprender o processo, ver o resultado, analisar os defeitos e depois partilhá-lo. Dizem que os nossos pensamentos estão organizados por padrões que se repetem mais ou menos diariamente. O meu é este: dream, make, share, get payed,repeat.

Infelizmente fora da urbe Lisboeta ainda é muito difícil sobreviver de meios alternativos. Não há artesãos abastados. De uma forma geral ainda vivemos num pais onde o salário é algo muito sofrido pela maioria da população, por isso, o meu cliente raramente é o average Joe.

É difícil explicar o que faço a pessoas com mais de 40 anos, aqui na aldeia. Tem de ser com fotografias. Talvez por isso sempre trabalhei à porta fechada! Estou algures entre o serralheiro de portões e o carpinteiro de cozinhas e roupeiros e às vezes tenho de ser um bocadinho de ambos! Aborrece-me explicar às pessoas porque é que as minhas peças custam mais do dobro das da loja, que são feitas à mão, desenhadas de raíz bla,bla bla....

Mas se fosse fácil provavelmente mudava de rumo. Se tenho vontade de ser normal, todos os dias? É um constante conflito. Vejo os meus amigos a irem de férias, a comprar uma casa, ter um carro bonito e roupas novas com frequência, a vida organizada, poupanças no banco, estabilidade... Tenho alguma inveja, da mesma forma que provavelmente muitos terão da minha estranha forma de vida, no arame.

O que faço não é nada de novo nem de excepcional: junto ferro e madeira numa fusão simbiótica para criar peças e ambientes provavelmente masculinos, talvez um pouco retro. É beleza forjada, para mim é intemporal, podia ter sido feito há 50 anos ou daqui a 50 anos. Não uso compósitos, a durabilidade das minhas peças tem de ser ilimitada, sonho que um dia se transformem em "unobtanium"*. Tudo pode ser reparado com meios tradicionais, é uma das minhas auto-imposições mais antigas, vem do tempo das motas. O que crio são elementos de produção unitária e quase 100% idealizadas, planeadas e executadas por mim, na minha oficina com as minhas máquinas completamente obsoletas que fui resgatando de falências industriais e outros fins mais ou menos desagradáveis. Algumas são já quase como que pequenos altares no meu sítio de culto, velhos amigos que ainda não acabei de conhecer. Tento usar produtos locais e, tanto quanto possível, reciclar. E não vendo nada que não seja produzido por mim!

Não tenho um showroom nem uma loja online, os meus clientes têm mesmo de falar comigo! Não há processamento automático nem mensagens gravadas. Já não me desloco com frequência porque isso me tira tempo de oficina, esse tempo é fundamental para assegurar a qualidade do que faço. Tento reduzir as distracções. Ainda não tenho um estilo ou identidade devidamente amadurecidas, ou talvez me falte a confiança para afirmá-lo. Tento ser o mais de real deal que consigo, mas falho com frequência. Não sou nenhum supra-sumo mas tenho muito orgulho no esforço que ponho nas minhas peças. Todas levam um bocado de mim.

A maneira como sirvo os meus clientes é outra das minhas pedras fundamentais: faço os possíveis para que se sintam valorizados e apreciados, tento ver as coisas da perspectiva do cliente. Quando sinto que isso não é possível prefiro não fazer o trabalho. Falta-me a veia de marketer ou os dotes de fotógrafo. Talvez não acredite assim tanto nessa maneira de estar ou talvez seja apenas preguiça. Vou esticando as minhas ambições com cada peça, sempre evoluí assim, um dia de cada vez, chasing excellence.

*Unobtainium é, no campo da literatura, um termo frequentemente usado para descrever qualquer material que possui propriedades extraordinárias, únicas ou impossíveis de se obter no mundo real e, que são, assim,"inobtíveis".


Por: Sérgio Eduardo Silva Pereira