Crónicas do Fidalgo

Pessoas

Sai uma dose de diversidade para… todas as mesas!

Quando pensamos numa mulher asiática, o que imaginamos?
Tez clara, estrutura pequena, olhos rasgados ou amendoados, cabelo escuro, liso, brilhante… Estes são os traços que, provavelmente, nos ocorrem mais rapidamente.

Mas a Ásia é composta por mais de 40 países com fisionomias completamente distintas. É natural que nem as mulheres nem os homens se encaixem numa “gaveta” única, no que diz respeito ao aspecto físico.

E quem diz Ásia diz, naturalmente, qualquer outro continente.

Mas neste caso em particular falo-vos de Michelle Elman, uma coach especializada em confiança corporal que trabalha no Reino Unido que, enquanto mulher asiática que se identifica como “plus-size”, se sentiu excluída da indústria da moda.

A autora do livro “Am I Ugly” (ou “Serei feia”, em português), decidiu dar início à mudança que tardou ver acontecer. Juntou-se a seis outras mulheres asiáticas, de diferentes tamanhos e tons de pele, e organizaram uma sessão fotográfica digna de capa de revista renomada.

O seu objectivo? Quebrar estereótipos de mulheres asiáticas na “comunidade plus-size” do Reino Unido e no mundo da moda, de uma forma geral.

Elman juntou-se à fotógrafa Linda Blacker para concretizar o projecto e publicou as fotografias na sua conta de Instagram, @scarrednotscared, onde ateou de imediato a chama da conversa, nas redes sociais, sobre a inclusão das mulheres asiáticas nos media, na publicidade e na moda.
“Tendo trabalhado como coach de confiança corporal, notei que há tanto foco na diversidade de tamanhos que a diversidade de raças é deixada para trás, muitas vezes”, defende Michelle Elman, que continua: “Até em anúncios de publicidade que são exaltados como sendo inclusivos e diversos, figuram frequentemente apenas uma pessoa de cor, em representação de vários continentes.”

“Particularmente dentro da categoria plus-size, a falta de representação asiática é notória e eu acredito que isto se deve ao facto de o estereótipo de mulher asiático ser o de uma mulher pequena. E, claro, se essas são as únicas asiáticas que vemos, o estereótipo é perpetuado e a pressão para as mulheres asiáticas se conformarem a esse ideal de beleza é maior.”

Há já vários anos que Elman fala deste tema online, mas foi em Março deste ano que decidiu tomar uma atitude consciente para promover o progresso da indústria. Foi então que iniciou conversações com as marcas com que costuma trabalhar, enquanto influenciadora. “Infelizmente”, conta, “apesar de muita concordância à superfície de que se trata, de facto, de um problema, acabou por se ver pouca mudança. Foi então que decidi promovê-la pelas minhas próprias mãos.”

O resultado está à vista e ganhou uma repercussão que Elman não esperava.

Muito do feedback que lhe chegou veio da parte de mulheres que, também elas, tinham histórias de como se sentiram humilhadas ou foram ensinadas que ser asiática significava ter um determinado tamanho.

Outra das problemáticas que se pretendeu destacar com esta sessão fotográfica foi o facto de a falta de representatividade asiática significar também que a Ásia é “aglomerada” em apenas uma categoria, quando na verdade todos os países do continente têm a sua própria cultura.

“Seria muito invulgar que uma pessoa alemã fosse convidada para representar o povo francês mas, ainda assim, é pedido aos asiáticos que o façam a toda a hora, falando em nome de um continente inteiro.”
No fundo, a autora do projecto quer mostrar que ser asiático não significa ter apenas uma única forma física. “As pessoas querem sentir-se incluídas e, em última análise, as marcas têm a responsabilidade de reconhecer que os seus clientes se querem sentir vistos.” E remata: “O positivismo corporal é para todos os corpos marginalizados e temos de garantir que, quando falamos em ser inclusivos, estamos a ser interseccionais ao longo das capacidades, da idade, do género e da sexualidade.”
A provar que a mudança está a acontecer neste preciso momento, em que vos escrevo e que vocês me lêem, está também a agência de modelos americana IMG, que criou o primeiro departamento dedicado a modelos plus-sise do sexo masculino.

Esta tendência de modelos com formas voluptuosas já tem vindo a ganhar terreno no meio feminino, mas parece que chegou a vez de os homens grandes, robustos, terem representação garantida nas revistas e desfiles de moda. “Brawn” é o nome da divisão criada especificamente para homens que se encaixam nas medidas “grandes” da moda.

O modelo mais conhecido da Brawn, neste momento, é Zach Miko, que já afirmou em entrevista ao The Guardian que “os homens queriam ver modelos com aspecto normal” a utilizar as peças de roupa das marcas. Parece que as medidas demasiado rígidas e restritivas no mundo da moda têm os dias contados.

A verdade é que aceitamos o outro tão rapidamente quanto o julgamos. Exigimos diversidade e, secretamente, desejamos aqueles abdominais definidos, aquelas pernas finas, o peito empinado e saliente, os bíceps volumosos… A verdade é que todos os corpos são reais. Mas existem vários tipos de corpos, muito diferentes daqueles que estamos habituados a ver, em grande número, nas revistas, na televisão, no cinema, e é bom que tenhamos todos consciência disso. É importante sentirmo-nos representados. Sabermos que existem mais como nós, independentemente da forma do nosso corpo, da cor da nossa pele, do nosso tipo de cabelo, da tonalidade dos olhos…

Porque, no fundo, representatividade traz auto-estima!