Crónicas do Fidalgo

Pessoas

Já ouviram falar em "Pais Curling?"

Desde que fui pai que ganhei um novo olhar sobre estar “arte” de criar e educar pessoas, na esperança de que façam deste um mundo melhor. Mas é inevitável que o nosso instinto de protecção por vezes se assoberbe e tome conta da nossa razão.

Por isso é que um artigo do Observador me prendeu. Fala de “Pais Curling” ou “Parentalidade Tóxica”.

Já ouviram falar no “Curling”, o desporto olímpico em que é lançada uma pedra e a restante equipa usa vassouras, de forma frenética, para limpar o caminho que a pedra vai seguir até chegar ao alvo, de forma a que nada interfira com a direcção do granito?

Pois é. Segundo John Marsden, director e fundador de várias escolas e especialista em educação, parece que há pais que educam os filhos assim. Como se isto de educar os filhos fosse uma competição de Curling. Os pais protegem os filhos em demasia, mesmo quando eles fazem coisas erradas, e isto está a dar origem a uma “pandemia” de “parentalidade tóxica”.

Em entrevista ao “The Guardian”, Marsden confessa-se cada vez mais preocupado com este problema, que parece ser “generalizado”. Os pais - tal como no Curling - tentam de forma obsessiva eliminar qualquer obstáculo com que os filhos se possam cruzar. Isto acaba por privar as crianças de experiências de aprendizagem e desenvolvimento naturais e recomendáveis. É a errar que aprendemos. Os nossos filhos e nós.

Este tipo de “parentalidade tóxica” contempla os pais que são excessivamente protectores. Pais que não equacionam a possibilidade de os filhos fazerem alguma coisa de mal. Pais que são verdadeiros advogados de defesa dos filhos, mesmo quando claramente estes não agiram bem em determinada situação. As crianças acabam por crescer com uma ideia errada de como devem aprender com o sucesso e com o insucesso.

Quando fala desta “pandemia”, John Marsden refere-se, sobretudo, “à classe média”.

“Não estou a defender que estes pais tenham intenção de, deliberadamente, agir de forma destrutiva em relação aos filhos. Mas o seu senso comum e os seus instintos parecem estar a ser perturbados por outras considerações”, explica.

Esta atitude pode ser fruto de “danos emocionais” provocados por “ansiedade [por parte dos pais, na educação dos filhos] que, muitas vezes, se assemelha a pânico”.

Uma das (muitas) consequências? Está a tornar-se cada vez mais difícil gerir uma escola. Marsden sabe do que fala, está na direcção de duas. E quem tiver amigos ou familiares como profissionais de educação, também já deverá ter ouvido uma ou outra história…!

Marsden, autor da série de livros best-seller “Tomorrow, When the World Began” (ou “Amanhã, Quando o Mundo Começou”, em português), adianta que é difícil lidar com crianças que apresentam uma saúde emocional questionável, mas também com os pais, que são defensores inabaláveis dos filhos!

“The Art of Growing Up” (ou “A Arte de Crescer”) é o novo livro de John Marsden. Nele, defendo que muitos de nós estão a “falhar” como pais e mães porque, num mundo cada vez mais perigoso, o enfoque excessivo nesses perigos está a fazer com que, paradoxalmente, as nossas crianças e jovens estejam menos preparados para reagir, para enfrentar adversidades.

A verdade é que somos um work in progress. Que nunca estamos terminados. E que só caindo aprendemos a levantar-nos. Como pai, levo um dia de cada vez. Dou o meu melhor e sei que se às vezes tenho de “pôr o coração ao alto”, noutras tenho de pôr os meus pés - e os dos meus filhos - bem assentes na terra.. E confesso que me sinto sempre fascinado por ver os meus pequenos crescer.