Crónicas do Fidalgo

Pessoas

Somos homens - e mulheres - p'ra isso?

Até ao final de Agosto, se passarem por Setúbal, é provável que se cruzem com mupis da série “Sou homem p´ra isso!”.

Uma campanha que pretende “desconstruir estereótipos de género e lutar pela igualdade, contra a masculinidade tóxica". É por isso que, nas imagens da iniciativa, podemos ver uma motard mulher com um homem de pendura, um educador de infância no meio de crianças, um pai com um bebé num marsupial, um mecânico de automóveis com um poster de um bebé na parede ou um grupo de adeptos de futebol em que um faz tricot.

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A iniciativa tem assinatura da Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social (SEIES), uma cooperativa da área da cidadania que, como explica Vasco Caleira da SEIES, “trabalha nas áreas da igualdade de género, prevenção da violência doméstica e juventude."

"Apareceu-nos um homem com este mote na cabeça, "sou homem para isso" -- e com a ideia de colocar homens em situações consideradas como tipicamente femininas", adianta ao Diário de Notícias.

E agora convido-vos a pensar: o que é ser homem e o que é ser mulher? A resposta não será, com certeza, minimamente linear e, no fundo, devemos poder ser o que bem quisermos...

Nos mupis da campanha são representadas pessoas reais. Não houve mão de profissionais de publicidade na iniciativa, que decorreu antes da reflexão e discussão de um grupo de cinco homens. " Temos consciência de que sem o trabalho que as feministas fizeram nunca os homens iriam reflectir sobre isto - era muito confortável continuar tudo igual", adiantam.

Chegaram então à conclusão de que não queriam desenvolver uma campanha só com homens que desempenhassem papéis tipicamente femininos em casa. Quiseram ir mais fundo, mais longe e "promover a liberdade individual", conta Vasco Caleira.

A SEIES explica que a campanha "Sou Homem para Isso" pretende combater "estereótipos associados ao género masculino. As imagens acompanhadas pela frase "Sou homem pra isso!" são uma clara afirmação de que a condição de homem é muito mais do que o padrão de género enraizado. A escolha das fotografias foi pensada para desconstruir duas áreas profundamente afectadas pela masculinidade tóxica que, directa e indirectamente, afectam homens, mulheres, crianças e famílias."

E há duas áreas a que a campanha está a dar especial atenção. Na de "Cuidado e Parentalidade" pretende-se "combater o estereótipo de que os homens são menos capazes de cuidar e promover a sua responsabilidade e envolvimento neste âmbito". Já no que toca à "Liberdade Individual" visa-se a descontrução dos "papéis sociais de género de forma a aumentar a liberdade individual, livre de preconceitos e de padrões predefinidos sobre o que é ser homem."

Quantos de nós já não ouvimos - ou usámos, quase mimeticamente - expressões como "Faz-te um homenzinho!" ou "Porta-te como uma senhora!"?

"Deitemos fora as caixinhas onde colocamos a forma como uns e outras se devem comportar", adianta a SEIES.
"Ser homem não é só uma coisa. Ser mulher também não. Somos pessoas. E pessoas que têm o direito de ser livres, de actuar em liberdade, sem prisões. Sem caixas. Os homens não são todos iguais. Estes somos nós, somos de Setúbal, e voluntariamente damos a cara por uma mudança que queremos ver acontecer."

É importante que todos usemos os "óculos da igualdade"

A expressão é da SEIES, que acredita que este caminho, o da igualdade, tem de ser feito em conjunto, por homens e mulheres. "Se não queremos mais ser vistos como violentos e maus, como autoritários e intransigentes no trabalho, como preguiçosos e inaptos em casa, temos então de transformar a forma como incentivamos meninos e rapazes a responder com violência a situações de confronto, como reforçamos a necessidade de serem dominadores numa relação. Questionemos então o porquê de continuamente sermos forçados a olhar para todas as raparigas que passam e a fazer uma graçola ou enviar um piropo a roçar a brejeirice. Isso faz de nós mais homens?"

Paralelamente, adianta Vasco Caleiro ao DN, vão decorrer acções nas escolas da cidade, a partir de Setembro, com base na ideia da campanha. Porque o objectivo é “criar um programa de capacitação, com alguma continuidade no tempo.”