Crónicas do Fidalgo

Pessoas

Mitos sobre refugiados: Vamos informar-nos?

Um pouco por todo o lado lemos e ouvimos discursos contra os refugiados, muitas vezes alimentados por desconhecimento e desinformação.

Na correria do dia-a-dia e na avalanche de informação com que somos confrontados frequentemente, acabamos por não ter uma noção real de um problema que, mesmo não sendo directamente nosso, não deixa de o ser. É de pessoas que estamos a falar.

Ecoam expressões, muitas vezes, gratuitas e perigosas como “invasão da Europa”, “roubo de empregos”, “aproveitamento dos benefícios do Estado”… A Amnistia Internacional convida-nos a todos a pôr fim a estes e outros tantos mitos, para que quando quisermos falar sobre este tema, possamos fazê-lo de forma fundamentada.


Mito 1:
OS REFUGIADOS ESTÃO TODOS A FUGIR PARA A EUROPA!

FACTO: 80% dos refugiados foge para países vizinhos, próximos dos seus. Seguem os territórios que mais refugiados acolhem: Turquia (3,7 milhões), Paquistão (1,4 milhões), Uganda (1,2 milhões), Sudão e Alemanha (cada um com 1,1 milhões de refugiados acolhidos, respectivamente).

Os países tidos como desenvolvidos recebem apenas 16% dos refugiados.

Amnistia Internacional

Mito 2:
ESTE TEMA NÃO É URGENTE! JÁ NÃO HÁ CRISE!

FACTO: Antes pelo contrário. A população refugiada protegida pelo ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados practicamente duplicou desde 2012. Os números têm apresentado uma tendência de crescimento.

Senão, vejamos. Em 2018 foram registados:

70,8 milhões de deslocados;
25,9 milhões de refugiados (incluindo 5,5 milhões de palestinianos refugiados);
20,4 milhões de refugiados sob a proteção do ACNUR;
3,5 milhões de requerentes de asilo;
41,3 milhões de deslocados internos;
2,9 milhões de pessoas retornados aos seus países de origem;
138.600 crianças sem acompanhamento ou separadas das suas famílias;
Quase metade dos refugiados são menores de 18 anos;
37 mil novos deslocados a cada dia de 2018;
67% dos refugiados são originários de 5 países:
6,7 milhões da Síria;
2,7 milhões do Afeganistão;
2,3 milhões do Sudão do Sul;
1,1 milhão do Myanmar;
Quase 1 milhão da Somália.

Mito 3:
JÁ HÁ MUITOS EM PORTUGAL!

FACTO: Portugal acolheu, de Dezembro de 2015 a Março de 2018, 1552 refugiados, no âmbito do programa de recolocação e reinstalação do governo que terminou em Março de 2018. Os refugiados foram distribuídos por 99 municípios. No entanto, há registos de que 768 abandonaram o país, sendo que apenas 79 voltaram a Portugal. Isto significa que 45% dos refugiados acolhidos já não se encontram no nosso país.


Mito 4:
ELES QUEREM OS NOSSOS SUBSÍDIOS E EMPREGOS!


FACTO: Imagem-se a viver com 150 euros por mês. É esta a quantia que cada refugiado adulto recebe. Os refugiados ao abrigo do programa de recolocação e reinstalação têm apoio de instituições que recebem, na sua maioria, financiamento europeu, como esclarecer a Amnistia Internacional. Este programa de apoio do governo tem a duração de 18 meses. Depois desse prazo, os refugiados devem tornar-se autónomos e independentes de qualquer apoio governamental, o que se verificou em 42% dos casos, no ano passado. No final de 2018 a percentagem de refugiados integrados em formação profissional, ensino superior ou emprego era de 48%.
Além disso, estudos indicam que existem benefícios económicos para os países de acolhimento. Na prática é verificado um aumento das receitas fiscais líquidas, principalmente quando os refugiados decidem ficar a residir no território de acolhimento, o que compensa os gastos públicos que foram aplicados no ano da sua chegada.

Mito 5:
A EUROPA DEVE REFORÇAR AS SUAS FRONTEIRAS PARA EVITAR A IMIGRAÇÃO E AS MORTES!

FACTO: Não há provas de que a diminuição de meios de busca e salvamento e a construção de muros impedem a entrada de pessoas nos países. As operações de busca e salvamento no mar não atraem pessoas. Na verdade, chegaram mais pessoas à Europa e foram registadas mais mortes quando os programas de busca e salvamento tinham menos meios à sua disposição, tal como académicos europeus documentaram.

Mito 6:
OS REFUGIADOS ESCOLHEM, CONSCIENTE OU INCONSCIENTEMENTE, FAZER VIAGENS PERIGOSAS

Antes de passarmos aos factos e perante este argumento, só me lembro de uma frase que ficou cravada na minha cabeça: nenhuma mãe decide lançar um filho ao mar alto para o salvar, a não ser que o que está em terra tenha maiores probabilidades de o matar.

Já pensaram que podiam ser vocês a ter como única possibilidade de salvação a incerteza das águas? Agora sim, vamos aos factos.

FACTO: Os refugiados fogem de guerras. Do terror e de misérias que muitos de nós - e felizmente - nunca vão conhecer. Ninguém coloca a sua vida e a vida da sua família em risco se não tivessem como única hipótese fugir. Especialmente sabendo que a viagem se vai desenhar com os seguintes traços:

Travessias marítimas ou terrestres extremamente difíceis com risco de morte;
Espancamentos, maus tratos, violações e assassinatos perpetrados por traficantes (a quem têm de pagar somas avultadas) e por algumas autoridades;
Permanências longas (muitas das vezes duram anos) em campos sobrelotados, sem condições de acolhimento dignas (abrigos em tendas durante o Inverno, escassas condições de saneamento, de acesso a alimentação e cuidados de saúde, agressões e violações);
Condições de acolhimento e integração nem sempre adequadas, com pouco dinheiro para usarem no quotidiano, barreiras linguísticas e culturais, burocracias a nível da documentação, falta de reconhecimento das qualificações (o que dificulta o emprego);
Discriminação e xenofobia em alguns países de acolhimento que degeneram em ameaças e ofensas (muitas das vezes graves) físicas e psicológicas.
Estes e outros desafios acabam por levar ore refugiados e requerentes de asilo a sair dos países de acolhimento. A Amnistia Internacional adianta que em 2018, 559 pessoas perderam a vida no Mediterrâneo ou estavam desaparecidas.

Mito 7:
SE APOIAR A INTEGRAÇÃO DE REFUGIADOS, AS PESSOAS NECESSITADAS DE PORTUGAL FICAM SEM AJUDA!

FACTO:
Trata-se de solidariedade. Não de competição. Muitas das associações que se prontificaram a apoiar a chegada de refugiados são as mesmas que já ajudam outros grupos vulneráveis da nossa sociedade. Os fundos canalizados para a ajuda aos refugiados não são divididos com outros, não substituem outros valores destinados a outras necessidades. Na realidade, as principais fontes de financiamento são a União Europeia.

Mito 8:
NÃO POSSO FAZER NADA!

FACTO:
Podem. A Amnistia tem várias iniciativas que pretendem fazer a diferença, como o Manifesto "Eu Acolho".
Têm ainda a acção Love not Walls, através da qual pretendem ultrapassar o número de quilómetros do muro que está a ser construído entre os EUA e o México.

"Salvar vidas não é crime"

O português Miguel Duarte tinha 24 anos quando decidiu sair do seu país para ajudar refugiados. Agora, pode vir a enfrentar até 20 anos de prisão "por ter salvo vidas".

"Ao fim de um ano", conta Miguel, "já tinha ajudado a salvar 14 mil pessoas".

A polícia italiana constituiu Miguel e nove dos seus colegas como arguidos, por suspeitas de ajuda à imigração ilegal.

Miguel Duarte pode enfrentar até 20 anos de prisão por "ter salvo vidas".

Miguel Duarte pode enfrentar até 20 anos de prisão por "ter salvo vidas".

“Estas pessoas não vêm por escolha própria. Uma mãe nunca deveria ter de pôr os seus filhos num barco em mar alto, com tão poucas probabilidades de sobreviver”, desabafa num vídeo partilhado recentemente no YouTube pela organização Humans Before Borders.

O processo legal não vai ser fácil nem barato. Foi por isso que o colectivo Humans Before Borders deu início a uma campanha de crowdfunding, que tinha uma meta inicial de cinco mil euros. Um valor que, ainda assim, não seria suficiente para cobrir as despesas dos dez activistas, estimadas em 500 mil euros.

A campanha de crowfunding termina a 12 de Julho. A 28 de Junho já angariava mais de €51.900. Apesar das consequências que poderá vir a ter de enfrentar, Miguel não tem dúvidas: retirar pessoas da água é o que está correcto.

Vocês fariam o mesmo?