Crónicas do Fidalgo

Pessoas

A Tua Crónica: "Tudo o que vem à rede" por João Reis

Sejamos honestos, hoje em dia temos muita dificuldade em filtrar a informação. Filtrar no sentido literal do termo, neste caso, reter as impurezas e a matéria que não interessa. Focarmo-nos no essencial é a chave, ainda que aqui o grau de subjectividade seja determinante para avaliarmos os resultados e as escolhas, isto é, o essencial tem imensas variáveis, dependendo claramente de factores sociais, culturais e até geracionais.

A verdade é que o fenómeno das redes, ao multiplicar as possibilidades de comunicação e interação veio baralhar os dados e produzir ruído, veio contribuir significativamente para o aumento da desinformação e das fake news. É uma ameaça séria e perigosa que se instala a partir dos nossos medos e se propaga em segundos por biliões de pessoas, que alimenta o ódio, a mentira e o desprezo pelos valores humanos e pela democracia. Sabiam que em determinados países os designados “trolls", são enormes legiões de pessoas empregadas pelos governos para criar milhares de contas falsas e espalhar desinformação? Pois, este é o lado negro da força, dessa coisa invisível e imaterial que é a rede, a net, e todas as plataformas que por ali circulam à procura de passageiros, alguns bastante mais desprevenidos do que outros. Por outro lado, aproveitar a possibilidade de cruzar fronteiras intransponíveis, denunciando actos que atentam contra a dignidade humana e a exploração dos mais vulneráveis, de incentivar o respeito pela diferença e a afirmação da liberdade, pode ser assim uma espécie de bóia de salvação para justificar a nossa dependência e encontrarmos formas de fazer valer a nossa voz e a nossa empatia. Chego aqui, por este longo atalho sobre o essencial, as fake news e a rede, para me apoderar de uma outra descoberta. A de que nesse efeito subliminar que as redes produzem, de que toda a informação está ao nosso alcance e de que por isso as nossas reservas são inesgotáveis, nos esquecemos frequentemente de fazer uma avaliação dos nossos conhecimentos e dos nossos interesses.

Dr. Denis Mukwege

Dr. Denis Mukwege

Recentemente tive oportunidade de conhecer o Dr. Denis Mukwege, prémio Nobel da Paz em 2018 (juntamente com Nadia Murad), num jantar solidário para a angariação de fundos para a sua Fundação. Tinha visto City of Joy, filme documentário impressionante (ainda disponível na Netflix) sobre o seu trabalho enquanto médico-cirurgião e activista na defesa dos direitos das mulheres vítimas de crimes de guerra de natureza sexual. O que vi deixou-me sem palavras e sem fôlego e foi o principal motor para aceitar o convite e aumentar a minha expectativa relativamente à confirmação das suas qualidades e da sua grandeza. Mais tarde, durante o jantar, fez um discurso extraordinário direito ao coração dos homens, num sentido quase profético até, testemunhando a ameaça permanente que é viver na República Popular do Congo (RPC), falando da violação sistemática dos direitos humanos e alertando-nos para o facto de que se nada se fizer nos próximos tempos o país não terá futuro. Tudo o que eu sabia sobre a RPC, os crimes de guerra, a exploração indiscriminada dos recursos naturais, o aproveitamento miserável encetado por dezenas de países e companhias internacionais a operar no território para benefício próprio, de repente materializava-se de forma impressionante. É verdade que estes exemplos, de países arruinados pela guerra e pela discriminação, são infelizmente muitos e alguns deles a viver em estado de terror há décadas, mas a nossa percepção sobre estas matérias cai frequentemente naquele arquivo que diz: tomámos conhecimento, estamos alertados, é uma matéria sensível mas não podemos fazer nada. É mentira! E deixa-nos confortáveis em relação à nossa indiferença.

Não falamos todos a mesma língua, não partilhamos todos dos mesmos interesses e convicções, mas neste sonambulismo hedonista a que nos sujeitamos diariamente, iludindo-nos de que afinal até estamos bem informados e de que os nossos interesses se cruzam frequentes vezes para falarmos em nome dos que não têm voz, devíamos inspirar-nos regularmente nestes homens e mulheres que, sacrificando a sua vida pessoal, a sua segurança e o seu futuro, ajudam a tirar do escuro e da ignorância generalizada, questões, informação e conhecimentos que deviam fazer parte do nosso património e ecoar de forma permanente na agenda das nossas prioridades.

ID João Reis

Sou actor desde 1989 e na verdade tenho quase sempre a sensação de que estou a começar. A partir de uma determinada altura (não sei precisar quando) passei a relativizar tudo e portanto a experiência coloca-me sempre numa posição de voltar à casa de partida. Também acho que nos devia ser permitido falhar mais vezes para poder gozar com mais apreço e liberdade o que nos corre verdadeiramente bem. Já fiz muitas coisas mas poucas para o que ainda poderia ter feito. No teatro cresci por dentro e para fora. Entre Lisboa e Porto vivi alguns dos melhores momentos da minha vida em cena. Histórias e peças, enigmas e personagens que jamais esquecerei. No cinema e na televisão às vezes sim outras vezes não, mas trouxe grandes amigos e aprendi muito com eles mesmo nos piores dias e nas piores cenas. A pior cena que me pode acontecer é andar a correr atrás do tempo para poder estar com os meus filhos. Isso e não conseguir acompanhar os seus passos largos a caminho do futuro. O futuro também está em olharmos mais para o(s) outro(s) e colecionarmos experiências que nos tirem do lugar comum. Do resto, do que há-de vir, não posso agora decidir mas acredito num ditado que até podia ser chinês: quem espera sempre alcança. Em Pequim ou em Bragança.