Crónicas do Fidalgo

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Blanche Calloway: mulher de talentos que desafiaram as normas

Ultimamente tenho-me deixado embalar pela voz e ritmos de Blanche Calloway, líder de banda, cantora e compositora de jazz.

Com uma carreira que se estendeu por mais de 50 anos, Calloway foi a primeira mulher a liderar uma orquestra só de homens e actuou ao lado de músicos como Chick Webb, Cozy Cole e o seu irmão mais novo, Cab Calloway. O seu estilo de actuações era descrito, muitas vezes, como exuberante e foi uma grande influência no estilo de performances do seu irmão.

Cab Calloway, irmão de Blanche

Cab Calloway, irmão de Blanche

Calloway nasceu em Rochester, Nova Iorque, em 1902, filha de um advogado e de uma professora de música. Mais tarde mudou-se com a família para Baltimore, onde eram vistos como pertencendo à classe média - até alta, na zona da cidade onde viviam.

Foi a paixão da mãe de Calloway pela música que acabou por contagiá-la, a si e aos irmãos. A influência de Florence Mills e Ida Cox acabou por alimentar o sonho de Blanche, de seguir uma carreira musical.

Sonho concretizado. Mas como todas as rosas têm os seus espinhos, não é difícil perceber que, na década de 20 do século passado, Blanche lançou-se numa época de segregação racial e numa indústria musical dominada por homens.

Como artista afro-americana, teve de actuar frequentemente para públicos segregados. Numa tour que fez em 1936, utilizou uma casa de banho de senhoras, numa bomba de gasolina em Yazoo, Mississippi. Como consequência, a polícia foi chamada ao local, um dos membros da sua banda foi agredido com uma arma e tanto ele como Blanche Calloway foram detidos por conduta desordeira e multados em $7.50. Enquanto os dois estavam na prisão, outro dos membros da banda roubou o dinheiro do grupo e abandonou-os. Os músicos acabaram por se afastar e Calloway teve de vender o seu Cadillac amarelo para poder deixar o Estado.

Como música, Calloway era vista como excepcional. Mas foram-lhe dadas poucas oportunidades além de ser cantora ou bailarina, devido ao peso dos papéis de género da altura. Na verdade, o seu estilo exuberante e as suas letras, por vezes, provocantes desafiavam o estereótipo do que uma artista devia ser, na altura. A meio da década de 30 Blanche já sentia dificuldades em conseguir marcar actuações, ao passo que a popularidade do seu irmão crescia.

Depois de anos a lutar para alcançar o sucesso, acabou por declarar falência e acabar com a sua orquestra em 1938. Em 1940 ainda formou uma banda exclusivamente feminina - aproveitando a popularidade de bandas de mulheres durante a Segunda Guerra Mundial - que foi, no entanto, de curta duração. Não conseguiam agendar espectáculos.

Calloway continuou a cantar ocasionalmente. Acabou por mudar-se com o marido para Filadélfia, em meados dos anos 40. Tornou-se uma socialite, com um papel no partido Democrático. Acabou por se separar do marido depois de descobrir que era bígamo.

No início da década de 50 Calloway mudou-se para Washington D.C., onde chegou a gerir um clube nocturno, o Crystal Caverns. Contratou Ruth Brown para actuar no clube e acabou por se tornar sua manager. Brown deu-lhe os devidos créditos quando assinou pela Atlantic Records.

Seguiu-se um papel como DJ na rádio WMBM de Miami, onde acabou por se tornar directora de programação da estação. Já no estado da Flórida tornou-se a primeira mulher afro-americana a trabalhar num posto de voto e a primeira mulher afro-americana a votar no Estado, em 1958.

Tornou-se um membro activo da NAACP - National Association for the Advancement of Colored People, ou Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e do Congresso para a Igualdade Racial.

Em 1968 fundou a Afram House, uma empresa de cosméticos por catálogo para afro-americanos. De volta a Baltimore, casou-se com o seu namorado de liceu. Morreu em 1978, aos 76 anos, vítima de cancro da mama.

"I Got What It Takes", cantou ela. E tinha. Definitivamente, tinha.