Crónicas do Fidalgo

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O furacão La Lupe

Cantava guarachas, boleros e soul latina como ninguém. Falo-vos da cubana Lupe Victoria Yolí Raymond, mais conhecida por La Lupe. Quem me alertou para a sua história que tem tanto de incrível como de inesperada e amarga no seu twist final foi a Joana Barrios, na rubrica diária do LuxFrágil na rádio SBSR.FM, #LuxDoDia.

Conhecida pelas suas performances enérgicas e, por vezes, controversas, La Lupe lançou o seu primeiro álbum no início dos anos 60. “Con el Diabo en el Cuerpo” era o nome do trabalho lançado sob alçada da Discuba, a subsidiária cubana da editora RCA Victor.

A sua primeira aparição em televisão foi numa estação porto-riquenha que causou algum frenesim, pela sua performance vibrante que, aparentemente, chocou alguns telespectadores. “Chocou porquê?”, perguntam vocês.

Eis a descrição de um espectáculo típico de La Lupe, em Havana, pelas palavras do escritor Guillermo Cabrera Infante: “A mulher batia nela própria e arranhava-se, depois mordia-se, as mãos, os braços. Descontente com este “exorcismo musical”, atirava-se contra a parede de fundo, batendo-lhe com os punhos e com um ou dois movimentos de cabeça. Soltava, literal e metaforicamente, o seu cabelo escuro. Depois de bater nos adereços, atacava o piano e o pianista com uma nova fúria. Tudo isto, miraculosamente, sem parar de cantar e sem perder os ritmos daquele calipso quente que ela transformava num zona musical tórrida.”

O website Stop Smiling define mesmo as actuações de La Lupe como arriscadas, sexuais, como o público cubano nunca tinha visto. Nem o público nova-iorquino, onde começou a actuar depois do exílio de Castro, em 1962.

Ainda hoje os vídeos das melhores performances daquela que é apelidada como a “Rainha da Soul Latina” podem chocar pela sua crueza, pela sua agressividade excessiva e transgressão sexual. As suas actuações eram, de facto, extremamente sexuais, cheias de gemidos orgásmicos enquanto levantava a saia e tocava nos seios. Tão crus, honestos e violentos que não chegavam a ser sensuais. E, ainda assim, não conseguimos deixar de nos sentir presos e envolvidos por estes seus ímpetos. La Lupe alcançou um magnetismo por chamar à atenção para a semiótica da sexualidade e da construção de género.

Nasceu no bairro de San Pedrito, em Santiago de Cuba, filha de um trabalhador da distilaria da Bacardi. O pai teve, aliás, grande influência nos seus primeiros anos de vida.

Em 1955 mudou-se com a família para Havana e entrou na Universidade de Havana com o intuito de se tornar professora. Era admiradora de Celia Cruz e, tal como ela, formou-se em Educação antes de ingressar numa carreira profissional como cantora.

Em 1958 casou-se e formou um trio musical com o seu marido, Eulogio "Yoyo" Reyes, e outra cantora. Chamavam-se os “Los Tropicuba”. O grupo chegou ao fim em 1960, assim como seu casamento. Lançou-se a solo num clube nocturno em Havana, La Red (ou A Rede, em português), que tinha uma clientela distinta. Contam-se nomes como Jean-Paul Sartre, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, Marlon Brando e Simone de Beauvoir.Em 1962, ano do seu exílio, contactou Celia Cruz - que tanto admirava - para lhe pedir apoio. Foi aí que Celia a recomendou a Mongo Santamaría, em Nova Iorque. Aí começou a actuar num cabaret, La Berraca. Entretanto lançou mais de 10 álbuns em cinco anos. Voltou a casar-se com um músico de Salsa, Willie García, com quem teve uma filha. Voltou a divorciar-se.

Exuberantes e apaixonadas: eram assim as actuações de La Lupe, que cobriam vários géneros musicais como bolero, merengue, bomba, boogaloo…
Durante grande parte da década de 60 foi a cantora latina mais aclamada, graças à sua aliança com Tito Puente.

Até que as suas vibrantes actuações começaram a ficar progressivamente mais inconsistentes. Começaram a surgir rumores de problemas com drogas. A sua vida, segundo amigos próximos, era um “verdadeiro terramoto”.
No final dos anos 60 a sua carreira começou a entrar em declínio, em parte devido à chegada de Celia Cruz a Nova Iorque, que acabou por levá-la para os “bastidores” da cena musical.

Praticante de Santería, continuou devota à sua religião. Já na década de 70 a sua editora de então, Fania Records, decidiu terminar o contrato com Lupe, devido à quebra das vendas dos seus álbuns. Reformou-se nos anos 80, altura em que ficou na pobreza. Um incêndio acabou por torná-la sem-abrigo. Morreu de um ataque cardíaco aos 52 anos.

Como já cantava Cartola, “O Mundo é um Moinho”.