Crónicas do Fidalgo

Pessoas

Basta!!!

Andei às voltas com o título desta crónica e só uma palavra gritava na minha cabeça: "Basta!!!"

Ainda agora o ano começou e, desde o início de Janeiro, já 11 mulheres foram assassinadas em Portugal, às mãos de companheiros, ex-companheiros e familiares.

2019 começa manchado de sangue. Mas em entrevista ao Público, Sofia Neves, investigadora do CIEG, ISCSP/UL, docente do Instituto Universitário da Maia e presidente da Associação Plano i, destaca um ponto fundamental: “A cobertura noticiosa é importante para que a opinião pública seja informada e possa ter uma atitude preventiva, mas tem de obedecer a alguns critérios”, conta.

Critérios esses que passam por “uma linguagem que seja objectiva, que não seja culpabilizadora da vítima, que não propague um sentimento de impunidade”.“Temos visto uma certa romantização, o que acaba por não contribuir para que se esclareça o que está na origem desta violência, que é a desigualdade na relação de poder entre vítima e agressor”, continua, na mesma entrevista.

De facto, são vários os estudos que demonstram que o foco excessivo no que corre mal cria uma sensação de impunidade nos agressores e de impotências nas vítimas. É por isso que, para Sofia Neves, é importante falar no que está a falhar, mas também destacar as alternativas, as respostas que existem, o que está a funcionar. Desta forma, as vítimas podem sentir que têm forma de quebrar o ciclo de violência. Existe uma rede de serviços pelo país fora com esta função.

Há vítimas de violência doméstica e de género que se calam, pelos mais diversos motivos. Há outras que levantam a sua voz. Ou melhor: que lançam gritos de alerta apenas pela força das imagens. Foi o que fez a húngara Viktória Markai, sete vezes campeã de ultramaratona que, depois de ter sido agredida sexualmente, criou a campanha "Run Away!"

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O visual consegue um impacto que as palavras não conseguem, e as fotografias de Viktória comprovam isso mesmo.
Estávamos a 14 de outubro de 2018, quando Viktória saiu para mais uma das suas corridas no local do costume, movimentado, onde passavam pessoas e carros. Viktória corria pela vizinhança. Um homem perseguiu-a e atacou-a brutalmente na cabeça, depois, abusou sexualmente dela. Ninguém parou para a socorrer, a não ser o seu marido, que após sair para procurá-la, a encontrou e evitou que Viktória continuasse a ser agredida: “Eu corri para a beira da estrada para pedir ajuda. Havia um carro, mas passou directamente por mim”, revela. O agressor foi preso e Viktória hospitalizada. Segundo a mesma, o agressor passava por ela todos os dias, cumprimentando-a.

Após sair do hospital, Viktória decidiu que não queria lidar com o que lhe tinha acontecido do modo mais convencional. Decidiu não se refugiar e mostrar as marcas da agressão numa campanha a favor da segurança das mulheres, intitulada “Run Away”. Segundo Viktória, “talvez as mensagens da campanha ajudem os outros a contar as suas próprias histórias, ou conseguir a força necessária para provocar a mudança. (…) Falar desempenha um papel central na nossa existência como seres humanos. Permite-me dar informações sobre mim mesma, ou pedir ajuda. Permite-me dizer em voz alta. Isso permite-me dar credibilidade ao pensamento. Expressar o meu interesse na situação dos meus companheiros seres humanos. Vítimas não se calem. É o que eu estou a fazer. Mais e mais alto!”.

Viktória desfez-se das roupas que vestia nesse dia. Fez questão de que ficassem no lixo do hospital, para que apenas tivesse de lidar pela última vez com elas ali. Foi um “pequeno passo para lidar com o trauma (…) nunca mais usei aqueles sapatos desde aquele dia.” Decidiu, desde aí, encarar o sucedido de olhos abertos e apela a que todos façam o mesmo: “Vou ficar de olho no meu meio e recusar viver com os olhos fechados”.