Crónicas do Fidalgo

Pessoas

A tua crónica: "As voltas que a vida troca" por Filomena Nascimento

Há quase cinco anos, nascias da barriga da tua mãe. Foram nove meses que não chegaram para aceitar a ideia de que vinhas ocupar um espaço na vida dela maior do que o meu. Eu era única e, a tua entrada no mundo, fazia com que deixasse de ser singular. Achava.

Tive medo que preenchesses o meu lugar, que eu deixasse de ser um dos pilares da mãe, que nós deixássemos de ser nós porque vinhas ao mundo. Os planos mudariam de direcção: férias, jantares, praia sem horas para sair do mar, dias de Inverno em casa a ver filmes, rir e dizer parvoíces. "Uma mulher quando é mãe deixa de ser quem foi?", perguntava-me.



Vieste. Na maternidade, mal consegui olhar para ti. Talvez pela excitação de tantas visitas. O normal entra e sai. A confusão mental da novidade. 
Não sei, até hoje, se esta foi a desculpa que inventei para não pensar que estava a ser péssima amiga. A mente humana é capaz de manipular mundos. 



No primeiro ano, choravas à primeira aproximação de um humano. Coisa estranha. Armada em bicho-do-mato como eu! A tua mãe dizia que eras muito sensível à beleza humana e ríamos da tua e da nossa tontice. 
Só podias ver duas pessoas: eu e ela. Coisa estranha, repito-me. Tu tocavas na minha cara e sorrias. O sorriso fácil que ainda hoje tens. Aquele a que tentava resistir. 
Depois, aos seis meses, a vida fez com que ficasses nos meus braços sem plano B. O que tem de ser tem muita força, não é? Nunca negaria um pedido da tua mãe. Tu sabes.

Durante dois anos, crescemos juntas (não foste só tu), todos os dias um bocadinho mais e mais. E o que tu não sabes é que aprendi mais do que te ensinei. O que tu não sabes é que era a partir de ti que vinha a força para me levantar todos os dias e resistir a um momento particular da minha vida. O que tu não sabes é que o teu cheiro me apazigua(va), que quando já não tinha mais força nem paciência (tu eras e continuas tramada!), olhavas para mim (sempre trocámos emoções desta maneira) e as energias renovavam-se como que por magia. Se me contassem, não acreditava. Mas aconteceu. Eu vivi, segundo por segundo, esta história. Sabes?

Tu não sabes que, em certa, medida me salvaste. Tu não sabes que, mesmo hoje, quando tomo uma decisão, penso muitas vezes que quero ver-te crescer a sentir orgulho em mim. Tu, que ficaste ao meu colo tantas vezes enquanto escrevia um livro. Tu, que continuas a obedecer ao meu olhar firme (fachada!). Tu, que começaste a gostar de alface e maçãs só para me imitar.

Foste (e és) um dos maiores desafios da minha vida, quem me emociona como ninguém. Aquela emoção feliz. Juro-te que se me contassem que nós íamos acontecer eu não acreditava. Aconteceu. E a tua mãe, com a maior generosidade do mundo, deixa que também sejas um bocadinho minha filha (“a nossa bebé”). Pôs-te nos meus braços de olhos fechados e confiou. Tudo isto parece milagre. É. 

Sabes? O que tu também desconheces é que foi contigo que conheci o amor-puro. Aquele que não sabia existir. Nunca foi paixão. Ela acontece num primeiro olhar ou toque e vai embora quando quer. Tu conquistaste-me passo-a-passo, com a tua delicadeza, sem eu dar por isso e não mais acabar. 
Obrigada por permitires que esta magia exista. Obrigada por tudo o que não sabes. 



ID
 Filomena Nascimento
Mulher que não passa de uma miúda desajeitada. Observadora inusitada e sem fronteiras. Pensadora bagunçada. Pirosa assumida. E daí, talvez não.

P.S.: A Filomena Nascimento já nos tinha escrito um emocionante texto, que podem ler - ou recordar - aqui.