Crónicas do Fidalgo

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Pepe Mujica: A riqueza de uma bagagem leve

Vive numa pequena aldeia deslocada do grande centro da cidade. A sua companhia são os afazeres na sua quinta de floricultura. Usa um tractor que pega com “jeitinho” para facilitar a tarefa. É assim que José Mujica – Pepe para os amigos, conhecidos e desconhecidos – presidente do Uruguai até 2015, passa os dias.

Uma figura reconhecida pela personalidade vincada, carismática e considerada uma “estrela hollywoodesca” entre os uruguaios.

Traçou o seu caminho acompanhado por ideais comuns. A ambição pela conquista de valores como a liberdade, igualdade e uma democracia que realmente permitisse a todos a equidade eram o objectivo. Pepe dedicou a sua vida a atingi-los e isso fez com que se distinguisse dos demais presidentes.

Um lutador social dos anos 50 que ambicionava reformar o mundo, mas com a humildade que herdou tenta apenas consertar a realidade que o rodeia. Por isso, pertenceu ao MLN – Movimento Libertação Nacional – e a grupos guerrilheiros contra a opressão. Uma força que lhe valeu 14 anos de prisão confinado a um poço totalmente isolado do resto mundo. Por muito contraditório que pareça, a melhor maneira que encontrou para não enlouquecer foi criar amizade com rãs e observar o comportamento das formigas. Concluiu que estas gritam quando os humanos se chegam perto.

Em 2010 foi eleito presidente do Uruguai. O seu salário era o equivalente a cerca de €5000. Deste valor, considera que apenas precisa de 10% para viver. O restante decidiu doar a instituições de caridade. Por isso, foi considerado o “Presidente mais pobre do mundo” em manchetes de vários jornais. “Eu não sou um apologista da pobreza. Eu sou um apologista da sobriedade”, refere Mujica no filme documental "Human". Não esquece que a economia precisa de crescer mas considera que a maioria das nossas compras são supérfluas e que aquilo que estamos realmente a gastar é tempo de vida. Porque “quando tu compras alguma coisa, não compras com dinheiro. Compras com tempo de vida que gastaste para ganhar esse dinheiro”, esclarece. O ex-Presidente acrescenta ainda que nos prendemos de tal forma ao que compramos e ao dinheiro que ambicionamos ganhar que perdemos a liberdade. Liberdade de pensar fora de barreiras e de saber apreciar a simplicidade. Nunca teve um avião presidencial e muito menos o ambicionava. Com esse dinheiro, comprou um helicóptero que permitisse uma chegada rápida a qualquer ponto do Uruguai e salvar futuras vítimas que precisem de serviços médicos de emergência. Porque afinal, segundo Mujica, um presidente não tem de ter mais que os outros. Desta forma, recupera-se o verdadeiro sentido republicano que se perdeu ao longo dos anos pelas políticas praticadas.

Reprodução YouTube

Mas que pobreza é esta que enriquece a alma e que propicia o desenvolvimento de uma pátria? É a riqueza de uma bagagem leve mas repleta de conteúdo.
Esta é a história de luta pela democracia que dá origem ao filme «Uma noite de 12 anos» que estreou no passado mês de Setembro e que está disponível na Netflix. O filme retrata a sobrevivência de quatro presos políticos, entre eles José Mujica, a 12 anos de tortura na solitária. Um sofrimento em nome de um bem maior que todos agradecem mas para que poucos foram capazes contribuir.

Vejam aqui o trailer de "Uma noite de 12 anos"