Crónicas do Fidalgo

Pessoas

A tua crónica: “Pai, estás sempre ao telemóvel!” por Miguel Costa

O título deste artigo podia ser outro. Na realidade, estive indeciso até ao fim entre este que acabei por escolher, e o seguinte:”Olá, o meu nome é Miguel e sou um adicto”, ou “Olá, o meu nome é Miguel e tenho um vício”. Mas a frase que tenho ouvido mais da boca das minhas filhas, é mesmo a que acabei por escolher para o título.

O telemóvel assumiu nos últimos anos uma série de funções importantes para o nosso dia a dia, além da sua função embrionária. Sim, de telefone, simples, para chamadas. Mas o nosso telemóvel é hoje um autêntico computador portátil, cheio de aplicações mais ou menos necessárias, câmeras fotográficas XPTO! Câmeras, sim, porque a norma é termos telemóveis com não menos que 3 ou 4 câmeras, para que possamos publicar nas nossas redes sociais todos os momentos belos da nossa vida. Sim, os belos, como se a nossa vida fosse de sonho. Mas não é.

Temos aplicações para tudo: para embelezarmos as nossas fotos, para gerirmos o nosso orçamento, para vermos resultados desportivos, para apostas desportivas, para acedermos a milhões de músicas, filmes e séries; para cozinharmos, para gerirmos as nossas contas bancárias, jogos, grupos de conversação, aplicações de engate, etc. É um Mundo. Um mundo virtual que nos desliga do real. Que funciona como escritório para mim. É para isso que uso o telemóvel, principalmente. Para trabalhar. É. Não, não é. Mas também é. Estão confusos? Esperem, eu explico.

O meu telemóvel é o meu escritório. Com o aumento do tamanho dos ecrãs e da sua resolução, e no sentido de diminuir a minha pegada ecológica, estudo os meus guiões no telemóvel, quase sempre. Pedi às produções com quem tenho trabalhado para deixarem de imprimir os meus guiões, pelo nosso Planeta. Uso também para ver e responder a e-mails. Uso para tirar fotos e fazer vídeos, de cariz profissional, para postar nas redes sociais. Sim, porque as redes sociais ganharam um peso gigantesco em quase todos os mercados de trabalho. As marcas direcionam uma fatia cada vez maior do seu orçamento para marketing e publicidade, para as redes sociais. O número de seguidores é cada vez mais um critério de seleção para muitos trabalhos, incluindo o meu. Tenho a minha opinião sobre o assunto, mas não vou dá-la aqui, hoje, porque não é o objectivo deste artigo, mas vou deixar um apontamento sobre o assunto: para mim nada substitui a capacidade de trabalho, a ética profissional e também o talento.

Mas deixem-me voltar ao mote deste meu artigo. De forma pura e dura. Estou viciado nas redes sociais. No desempenho das minhas publicações, nos grupos de conversação que se acumulam, no que os outros andam a fazer (sejam amigos ou referências) e no que algumas marcas comunicam. Sejam produtos ou experiências. Sim, hoje em dia vendem-se cada vez mais experiências. É um vício, não é só trabalho, e elimina grande parte do convívio social, familiar. Até às refeições! Seja porque é uma boa hora para fazer um post com impacto, ou para divulgar um patrocínio ou parceria. E com isto perdemos tanta coisa boa à nossa volta. No meu caso perco a família, o que tenho de melhor e mais importante. Perco oportunidades de educar e de construir em família. Perco oportunidades de ajudar as minhas filhas, de brincar, de simplesmente vê-las crescer. A minha filha mais velha, que já está no primeiro ano e já tem trabalhos de casa, e que precisa às vezes de ajuda ou apenas de companhia enquanto faz os TPC’s. Perco oportunidades de pôr a conversa em dia com a minha mulher, perco o tempo para vermos um bom filme, para também ler um bom livro, ou para simplesmente estar em família. E com amigos! Jantares e conversas interrompidas pelo vício já inconsciente de ver o que se passa nas redes sociais. Para quê? Se ali, no jantar, a conversa está tão boa! Se já não estamos juntos há meses e podemos aproveitar tão bem o tempo para matarmos saudades!

Um amigo meu contou-me que ele e uns amigos decidiram por os telemóveis numa pilha, em cima da mesa. O primeiro que tocasse no telefone pagava a conta do jantar. Uma amiga minha decidiu que depois das 19 horas não vê e-mails, porque o que havia de importante para aquele dia devia ser comunicado antes, ou então não é assim tão importante para esse mesmo dia e pode esperar pelo dia seguinte. O mesmo para mensagens e redes sociais.

Não se iludam, é mesmo um vício e bastante prejudicial, daqueles que deixa mossa. Não quero ouvir mais aquela frase que me parte o coração, da boca das minhas filhas. A frase que serve de título para este artigo. Se deixei de fumar de um dia para o outro, também vou conseguir largar este vício. E a causa é a maior, e mais importante: os amores da minha vida.

ID

Miguel Costa tem 41 anos, pai de duas filhas que ama, tem a sorte de ter descoberto o ofício que o fazia mesmo feliz, sendo actor há mais de 20 anos. Aprendeu (continua a aprender) e Trabalhou (trabalha e espera continuar a trabalhar) em teatro, cinema e televisão com mestres como: João Mota, Miguel Loureiro, Luis Castro, Jonas Bloch, Carlos Thiré, Antonio Terra, Joaquim Leitão, Sérgio Graciano, Manuel Pureza, Hugo Xavier, Patrícia Sequeira, André Murraças, Carlos Paulo, Adriano Luz, e José Fidalgo 😉 Tem um projecto digital sobre desporto, "O Mini Atleta" que pode ser visto nas redes sociais do actor e no YouTube.