Crónicas do Fidalgo

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A tua crónica: "Crónica de Natal" por José Fidalgo

Sou um português católico, pertenço ao Ocidente e sou um ser levado pela indústria de Marketing à volta do Pai Natal. "Americanismos" que vêm da Polónia e que a Coca-Cola, em conjunto com o cinema, vieram popularizar toda esta encenação e todo o consumismo que resultou desse fenómeno. Se bem que, no início, ainda tinha o menino Jesus como a grande referência do Natal. Bem… andavam lado a lado: o Pai Natal e o Menino Jesus.

E vamos começar por aqui, por estas duas figuras, pilares da nossa formação como seres humanos. Sim porque, quer queiramos, quer não, elas são.

Confesso que em criança acreditei no Pai Natal. Mas depois, por iniciativa própria, resolvi investigar e rapidamente descobri a verdade, tal como falo no parágrafo anterior. Mesmo assim continuei a acreditar em toda aquela magia porque era uma criança e como crianças que somos, vivemos disso mesmo, da imaginação, da magia, do fantástico, do faz de conta, etc. E quando se fala em prendas, por mais que seja uma mera encenação, somos facilmente enganados, LOL….

Mas no centro disto tudo, está aquilo que me fazia vibrar de alegria quando começamos a falar nesta altura. O convívio da família toda que se juntava em casa da minha tia em Sesimbra para desfrutarmos, durante uma semana, de toda esta tradição. Disto é que eu gostava! De me fazer à estrada com a minha família, com as malas feitas e a indumentária nova para usar só no dia de Natal. De carro ou autocarro, lá íamos nós ver a família. A confusão das mulheres na cozinha que não deixavam entrar ninguém, a não ser eu, a minha irmã e os meus primos que, volta e meia, lá sacávamos os doces ou rapávamos o tacho da aletria sem ninguém ver (ou com o consentimento de uma das grandes guardiãs daquele território).

Aqui está parte da grande família! A família dos anos 80 e 90, dos que já não consigo colocar na mesma foto: a minha avó e o meu grande Tio Jorge. Um homem que sempre teve uma atitude positiva perante a vida. Um homem que não precisava de mais do que o que tinha. Família, amigos e muita risada. Muita. Saudades, tio.

Aqui está parte da grande família! A família dos anos 80 e 90, dos que já não consigo colocar na mesma foto: a minha avó e o meu grande Tio Jorge. Um homem que sempre teve uma atitude positiva perante a vida. Um homem que não precisava de mais do que o que tinha. Família, amigos e muita risada. Muita. Saudades, tio.

As conversas dos meus tios e primos mais velhos sobre futebol, a actualidade que aos longo destes anos moldou a nossa Nação. A entrada de Portugal na União Europeia, a vitória do Porto na Taça dos Campeões europeus, os campeonatos ganhos pelo Benfica. GLORIOSO SLB!!!!!!!!! Os Jogos Olímpicos de 84 em Los Angeles. A queda do Muro de Berlim. António Variações que, apesar de ter falecido em 84, por tudo o que fez, foi marcante o suficiente para ser motivo de conversas ou relembrado nos anos seguintes. A sua música ainda estava bem presente na memória de todos nós. Mesmo eu com 5 anos em 84, cresci com ele e o seu pijama com ursinhos e coelhinhos. O incêndio no Chiado em 1988 e muito mais…. muito mais. As grandes almoçaradas e jantaradas onde os miúdos estavam numa mesa à parte, as anedotas do meu tio Jorge, os discursos moralistas do meu tio Palma... Isto, para mim, é o que representava o Natal.

O meu grande tio Jorge.

O meu grande tio Jorge.

Em relação ao Menino Jesus, até hoje continuo a acreditar na sua existência, mas como o grande Messias que foi.
E aqui, existe o paralelo moral entre ambos. O espirito de família, de partilha, de convívio, etc.

A partir dos meus 16 anos e com a morte da minha avó, tudo deixou de fazer sentido. Não sei porquê, mas senti isso. Também coincidiu - ou não - com os casamentos dos primos mais velhos e a separação natural para os convívios com outras famílias. Sempre se celebrou o Natal mas em núcleos mais pequenos. Nunca mais senti o mesmo espirito e adrenalina desde que a minha avó faleceu. Talvez por ter sido a minha única avó. A única que conheci.

Hoje em dia, passo uma mensagem de Natal diferente aos meus filhos e sobrinho.
Mas eles também passaram pelos mesmos dilemas em que, não acreditando no Pai Natal, algo os invocava para essa crença. É o espirito de família. E isso tem que ser cultivado todos os dias.

Eu tento fazer a minha parte com os meus. E vocês?