Crónicas do Fidalgo

Pessoas

A tua crónica: "Ele. Para Sempre." por Filomena Nascimento

Permitam-me uma introdução: "A Tua Crónica" de hoje é muito especial. Foi escrita por uma pessoa que me é muito querida. Aceitou o meu convite e decidiu dedicar este espaço a uma pessoa que lhe diz muito também. Ora leiam:


Ele. Para sempre

Vivo colada a um bloco de notas. Frases minhas que nascem de um momento qualquer, frases que apanho dos outros, textos que me inspiram, momentos que me assaltam o pensamento e passo para o papel, desabafos dos amigos que merecem reflexão. 
Eu, assumidamente, sobrevalorizo as palavras. Facto que já dura desde os cinco anos, momento em que comecei a ler e a escrever. Tem uma dimensão forte e séria como se de um contrato assinado se tratasse. Mesmo consciente de que a vida é tudo o que acontece. É mesmo. Silêncios incluídos.

Um dia, li uma frase que passou de imediato para as minhas folhas de anotações. Aceito-a, vivo-a, o tempo provou-me que estou certa. “Não acredito na ditadura do sangue”. Eu não acredito. Não é o que nos corre nas veias que dita o amor. Ele é investimento, dedicação, superação, construção, vontade, aposta, conquista. É isto tudo e muito mais. Uma magia, também. Sem o vermelho que sai quando a pele se rasga. A minha mãe - que teve dores de parto a valer - é uma boa amiga. Conquista que se deu ao longo dos anos. Foi o que conseguimos e não foi fácil. Não temos o chamado relacionamento típico entre dois seres que já estiveram ligados por um cordão umbilical.

As pessoas mais importantes da minha vida não têm nenhum dos meus apelidos. Menos uma. E esta nossa união não aconteceu através do grau de parentesco, apesar de me ter dado o nome. Mesmo as nossas semelhanças internas nada têm a ver com isso. Deve-se ao convívio que soubemos aproveitar para aprender e transformar tudo na melhor versão que podíamos ser. Juntos e individualmente. É assustador. Nós nunca sabemos o impacto que alguém, ao entrar na nossa vida, pode ter. Para sempre.

Ele tinha os olhos mais azul profundo que conheci. Ele tinha o olhar mais parecido com o meu (o meu com o dele, cada vez mais. E assusta). Ele tinha mãos-piano e, hoje, quando olho para as minhas, vejo-as transformarem-se nas dele. Tudo a ver com a observação e imitação dos rituais que acompanhei. 
Ele tinha um ar melancólico. Eu sou melancólica. Ele escrevia e falava pelos cotovelos. Tinha uma caligrafia incrível. Não foi a tempo de publicar um livro e eu fiz-lhe a vontade (que também era a minha). Ele adorava música, sol, praia, literatura e caminhadas. Contagiou-me. 
Ele era muito exigente (só comigo), tanto, que eu não achava normal. Mas nunca quis desiludi-lo, mesmo hoje. Eu sou muito exigente (comigo e com os outros) e acho natural. 
Fez-me prometer ser a mulher que sonhou para mim. Vou ser a mulher que ele pediu (até porque também quero). Uma mulher-menina que tem responsabilidades, mas que não perdeu, ao mesmo tempo, o lado princesa com direito ao rosa cintilante. 
Ele deitava-se tarde, dormia muitas horas, tinha uma calma irritante, sobretudo nas adversidades. Adorava cantar e desafinava como nunca ouvi. Ele tinha defeitos, naturalmente. Suavizei-os. Coisa rara. Tenho a mania da perfeição e acho que muito se deve ao facto de ter crescido com ele a desenhar-me assim.

Pedi-lhe vezes sem conta que acordasse e, fez sete anos, não acordou. 
Tenho dias em que agarro no telefone para lhe falar. Se eu fechar os olhos, ainda sinto o abraço, o cheiro e a voz. 
Nunca nenhum homem irá idolatrar-me assim (reclamei esse exagero. Aquele que hoje venho aqui dizer que sinto falta. Tanta).
Ele É o meu pai e eu continuo a SER a filha dele. E não foi o sangue que o ditou.

*Esta crónica foi escrita ao abrigo do antigo acordo ortográfico

ID
Filomena Nascimento, Fi para os amigos
Licenciou-se em Ciências da Comunicação. Foi jornalista em televisão e imprensa. Passou pela Assessoria com maior impacto no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Escreveu um livro (“Mindful Eating”). Dá palestras focadas na motivação e bem-estar. 
Hoje, é Consultora de Comunicação. Adora. Continua a escrever.