Crónicas do Fidalgo

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A tua crónica: "O Mistério" por Jorge Fernando

Por que mistério o mistério nos atrai? Por desafio? Curiosidade?
Como falar da infância do fado, e mesmo até recuar ao seu misterioso nascimento? Sobre isso escreveram -se intelectualidades e intuições, misturadas por vezes.
“O fado nasceu um dia/ quando o vento mal bulia/ e o céu, o mar prolongava/ na amurada dum veleiro/ no peito dum marinheiro/ que estando triste, cantava.”
Em “fado português “, Régio levanta um enorme véu. As caravelas.
Saíam de Alfama sem saber se voltariam, e os que ficavam, na angústia dos regressos, esperados tantas vezes em vão. E à noite, pe
p'las tascas da cidade, a plebe, os malditos, entoavam essas angústias, somadas às das suas próprias vidas, como pregões ecoando nos corações que se afinavam nas mesmas dores, enquanto se afinavam as seis cordas duplas da guitarra. E juntos se tornavam fado, e juntos se tornavam Portugal, no descrever do carácter dum povo, que tendo a Europa plas costas, e o infinito e desconhecido para lá do oceano à sua frente, “estando tristes, cantavam “.
E do pregão das noites consumidas p'los escuros interiores de fumos e álcool, passou à rua. Viravam-se os anos, e o fado crescia. Passou a relatar o quotidiano. As alegrias e sobretudo as tristezas. No fado só há lugar para os opostos. Um “intervalo próprio“ como o retratou Pessoa, enquanto os demais intelectuais da época o abominavam. Qualquer acontecimento inesperado e trágico dava lugar a um fado. Assim se levava a notícia. De boca a boca. Cantado. Deu origem aos folhetos vendidos na cidade, com as letras escritas, sob um pregão que dizia “assim se canta, assim se escreve ”.
Foi apregoado durante décadas, sendo a própria voz do povo. Por vezes “ subiam ao fado” alguns aristocratas. De tão raro, logo se escrevia um fado contando os amores e desamores por algumas fadistas. Tinha portanto, sem que à época se percebesse, o precioso papel de “informar”. Daí ter sido usado como arma política contra o regime vigente. Depois chega Amália. E ao cumprir-se a nobreza p'la qual nasceu, faz com que o fado se cumpra, na nobreza de se tornar a expressão da alma colectiva dum povo. De novo as conquistas. Mas agora, através duma voz que em si trouxe as cores cujo matiz em brilhante tela se espelhou Portugal. E assim de novo foi longe, e assim de novo fomos longe.
Hoje o fado é o que é!
Sem dúvidas, sem questões, sem mistérios. Apenas um em mim persiste: fado, pra onde vais?

ID

Jorge Fernando, Lisboa, 1957.

Músico, fadista e produtor.
É autor de canções como "Boa noite solidão", "Búzios", "Quem vai ao fado" ou "Chuva".
Com 16 anos deixou a sua carreira de futebolista, onde chegou a internacional júnior, para se dedicar ao fado.
Tocou com os dois expoentes máximos do fado, Amália e Fernando Maurício.
A 18 de Fevereiro de 2016 foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com a Comenda do Ordem do Infante D. Henrique.