Crónicas do Fidalgo

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A tua crónica: "O Diacho" por Jel

O seu nome era Hugo. Não me lembro do apelido pois já foi há muitos anos que o conheci. Eu tinha 12 ou 13 quando fomos da mesma turma no oitavo ano, mas lembro-me perfeitamente da sua alcunha: era o Diacho.

Uma alcunha bem escolhida e que lhe assentava como uma luva! Era baixinho, moreno, com buço, muito vivaço, resposta sempre na ponta da língua e jogava muito bem à bola. Era uma mistura de Messi com o Cantinflas, o que por vezes atrapalhava nos jogos do recreio pois ele tinha por hábito, após fintar um adversário, voltar atrás para o fintar outra vez e outra vez e outra vez até ter toda a malta que estava a ver o jogo a rir! É que se na bola ele era muito bom, a fazer rir ele era mágico!


Tinha um talento nato para o gozo, era um provocador implacável, sempre com uma piada na ponta da língua fosse qual fosse a situação, era muito inteligente e corajoso, sempre a transbordar de ideias para tropelias e partidas, com uma capacidade de raciocínio e improvisação tão rápida que era impossível não gargalhar quando ele começava a "dar baile" aos professores. Esses eram as suas vítimas favoritas pois representavam a autoridade e o Diacho desprezava a autoridade.

Lembro-me uma vez, com uma professora que tinha um tique nervoso nos olhos, o Diacho - quando o seu nome foi chamado no início da aula para verificar a presença - se virar para ela e, do alto dos seus 13 anos, começar a dizer-lhe: "Ó'stora não me esteja a piscar os olhos que eu já sou comprometido"! Toda a gente a rir, a professora de boca aberta entre o espanto e a raiva a mandá-lo para a rua e ele a continuar o gozo, a saltar por cima das mesas! "Não me pisque os olhos, já disse que tenho namorada"! A contínua a entrar na sala, as duas atrás dele e ele constantemente a fugir e a fintá-las com "Olés", toda a aula em alvoroço e só com a ajuda de um professor da sala ao lado o conseguiram agarrar e tirar da sala de aula! Lembro-me tão bem! O Diacho agarrado pelos dois professores a espernear enquanto continuava a gritar: "já lhe disse que tenho namorada, não me esteja a engatar."

Lembro-me de uma outra vez em que levou para a escola um alicate e passou todo o tempo de uma aula, sorrateiramente e em silêncio, a desaparafusar a mesa toda até que, quase no fim da aula, se levantou e perante a estupefação do professor deu um pontapé na mesa que se desmontou toda, provocando a gargalhada geral. Era um predestinado para a comédia.

Escusado será dizer que me tornei um discípulo do Diacho, foi ele que me iniciou aos cigarros e ao bagaço, foi ele que me ensinou a roubar em supermercados e mercearias, foi ele, sem dúvida, a pessoa com quem mais me ri em toda a vida. Nesse ano o Diacho chumbou e eu passei à rasca.

Entretanto saí daquela escola e só uns anos mais tarde, por volta dos meus 18 ou 19, voltei a encontrar o Diacho. Mas ele estava diferente, a vivacidade tinha desaparecido com o uso da heroína. Era uma sombra pálida do Diacho que recordava. Estive com ele por breves momentos nessa altura mas aquela mudança deixou-me triste. Passado algum tempo soube que tinha morrido de overdose, com 20 ou 21 anos. Só nessa altura descobri, em conversa com um seu vizinho, que a sua vida familiar era muito difícil, envolvia violência doméstica e alcoolismo. Ele nunca mencionou este assunto durante o tempo que passámos juntos.
Muitas vezes penso nele, no Diacho, com 13 anos, o malabarista da bola e o rei do riso, pequenino e matreiro, com uma vida cheia de sofrimento que ele tão bem escondia no espanto dos nossos olhos e no som das nossas gargalhadas.

ID
Nuno Duarte "Jel"

Comediante, Músico e Realizador conhecido por programas como "Vai Tudo Abaixo" e "Homens da Luta", com que chegou a ganhar o Festival da Canção. Mais recentemente tem realizado documentários para canais como a SIC e RTP2.