Crónicas do Fidalgo

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A tua crónica: "Bob Dylan" por Manuel Pureza

Não sou apologista de previsões apocalípticas ou até mesmo de análises cépticas ou pessimistas sobre o futuro do cinema.

Vivemos um período de mudanças rápidas e profundas em diversas áreas do nosso quotidiano e sentimos essas alterações sob a forma de alguns ganhos e algumas perdas (aparentes?).

A evolução - basta que recuemos 50 anos para sabermos do que estamos a falar - levou os espectadores a, cada vez mais, eliminarem o cinema como experiência social e de conjunto, fora de casa, numa sala de cinema, para transformarem essa mesma experiência num acontecimento mais próximo, confortável e solitário das suas salas em casa. Isso é mau e representa o fim do cinema? Estamos a condenar o cinema a ser tão descartável como outra coisa qualquer?

Vivemos um tempo de perguntas e receios.

Em boa verdade, o cinema sobrevive. Que o diga o produtor português, Paulo Branco, quando, numa intervenção nos Encontros do Cinema Português do ano passado, dizia perante a eterna falsa questão do cinema de autor contra o cinema comercial, que o cinema são o conjunto de imagens e sons projectados em qualquer tela, independentemente dos objectivos a que se propõe um filme. Paulo Branco matava assim a estúpida discussão que nos tem agrilhoado e dividido enquanto agentes da produção cinematográfica em Portugal, e que bom que o tenha feito. O cinema são imagens e sons, ponto final.

Extrapolando a sua intervenção, poderíamos concluir que o cinema é cinema, independentemente dos ecrãs onde surgem essas mesmas imagens. Hoje em dia, sobretudo em Portugal (vejam-se as estatísticas disto mesmo), a quantidade de casas que possuem um ecrã de televisão maior do que o modelo anterior lançado no mercado é vertiginoso. À semelhança do status que garantem um telemóvel ou um carro, o sistema de som e imagem que possuímos nas nossas casas é, de há uns anos para cá, um elemento fulcral na comparação entre sucessos pessoais. Sim, vivemos também tempos de novas vaidades, herança genética dos nossos antepassados recolectores que faziam dos melhores troféus na caça, forma de comparar maior ou menor valência para o grupo. Foram-se os antigos animais caçados, surgiram novos troféus de outras “caças”.

Na verdade, o que cada vez mais está presente nas casas de cada um de nós, são pequenas salas de cinema que cumprem a função para a qual estamos todos a caminhar silenciosamente, sermos meros seres consumidores, confinados a um espaço onde estejamos confortáveis e onde nos continue a ser dada a ilusão de que somos nós que optamos e decidimos em relação ao que nos faz felizes. Já não precisamos de sair de casa para ir à sala de cinema. A sala de cinema nasceu na nossa sala da televisão. O que é que se perde com isto? A experiência social do serão de cinema, numa sala própria para o efeito, por um lado. Essa partilha com desconhecidos de um mesmo “espectáculo” faz/fazia da ida ao cinema, uma actividade de grupo, com o potencial de cruzarmos opiniões, de, para os mais místicos, sentirmos a energia do filme nas reacções dos outros, de fazer do cinema uma arte que tem o seu “templo” próprio como têm a pintura e a escultura nos museus ou noutros espaços próprios para serem vistas.

O cinema, na sua forma de sétima arte, vive tempos de alguma(s) crise(s) de identidade, precisamente porque não consegue avaliar se essa perda dos seus “templos” terá feito mais por si do que o contrário. Uma forma de arte que consegue quebrar as barreiras físicas dos espaços que existiam para a sua manifestação e transformar as casas de cada um dos espectadores nesses mesmos espaços, ganha ou perde? O cinema que é feito para ser exibido exclusivamente nas salas de casa e não nas grandes salas de cinema, é menos cinema? Falamos numa altura em que os irmãos Coen produziram para a Netflix o seu The Ballad of Buster Scruggs, filme que ganhou em Veneza o galardão de melhor argumento de cinema. Reconhecimento deste gabarito parece, aparentemente, responder às nossas questões, mas haverá sempre quem teime que o cinema só deve acontecer em local próprio. Haverá sempre perdas irreparáveis ao separar os filmes das grandes telas, sem dúvida. As maiores serão talvez as das formas de negócio como os distribuidores ou os exibidores que se vêem ameaçados por este galopar do futuro - farão sentido dentro de alguns anos?

São tempos de mudança, feitos de resistências, cepticismos e dúvidas, mas o cinema continuará, desde que haja imagens e sons que componham histórias e que sejam projectados num ecrã.

Joaquim Paulino

ID
Manuel Pureza, Coimbra, 1984.

Realizador de televisão e cinema, conta com algumas curtas metragens premiadas nacional e internacionalmente, bem como alguns videoclips para algumas das mais importantes bandas nacionais.

Vencedor do Motelx em 2012 e nomeado para dois International Emmy Awards.

Faz parte do colectivo Meia Laranja e é produtor na Coyote Vadio.