Crónicas do Fidalgo

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"Uma Montanha para Escalar" - Quando uma história é uma lição

Foi criada num barracão de manutenção de um campo de golfe no Nepal. Pratima Sherpa quer tornar-se na primeira jogadora de golfe profissional do seu país.

Com apenas 17 anos era a única mulher a competir num jogo de homens no Royal Nepal Golf Club. Uma pessoa cujo género - como se não bastasse a condição social - faz com que tenha de lutar ainda mais para provar que é merecedora de concretizar o seu sonho.

Ao fundo de um barracão de tecto metálico cheio de ancinhos e foices, carrinhos de mão e corta-relvas utilizados pelo staff para a manutenção da relva do clube, há uma outra divisão. Pequena. Não tão grande como algumas das casas de banho de maior dimensão nos EUA, como é descrito numa incrível reportagem da ESPN. Neste pequeno quarto há duas camas que se tocam, um fogão improvisado e uma mesa. Não há água canalizada. E na parede do fundo, ao lado de um armário, está uma pequena mesa cheia de recordações. Recordações essas que são muito semelhantes entre si. São troféus. E são todos de Pratima.

Numa manhã que aparentemente era como tantas outras, Pratima saiu do barracão e pisou o maior palco em que alguma vez já jogou. Tratava-se de um campeonato de golfe de qualificação profissional que estava a acontecer no Royal Nepal. O evento era composto por três rondas e três dias. Os cinco melhores conquistariam o estatuto profissional.

O sucesso traria consigo maiores probabilidades de conquistar uma carreira com remuneração e patrocínios. Esta é a competição que, para Pratima, tem o maior de todos os prémios a jogo: tornar-se jogadora profissional de golfe.


Enquanto respira fundo, segura o taco e dá um passo em frente, diz, sorrindo: “o Golfe é a minha paixão. O Golfe é o meu melhor amigo, por isso, não posso perder.”

Paula Bronstein para ESPN

Paula Bronstein para ESPN

Filha de pais com uma vida dura, esta menina tem “Sherpa”, como apelido. Os Sherpa são um povo que habita as encostas sudestes dos Himalaias e são conhecidos por serem os melhores montanhistas do mundo. Já o seu primeiro nome é Pratima que, numa tradução livre, pode ser entendido como “Ícone” ou “Ídolo”. O seu nome tornar-se-ia a sua missão.

Pratima cresceu no campo de golfe do Royal Nepal, no barracão de manutenção que fica entre os buracos três e quatro, que lhe foi cedido pela administração do clube para que ela e a família não ficassem desalojados. Pelo meio, tomariam conta de todos os equipamentos. E, aqui, mais uma prova de que a beleza - e aproveito para acrescentar, a oportunidade - está nos olhos de quem a vê: “O barracão é a minha casa da sorte. Porque, se não viver aqui, não posso jogar golfe”, conta Pratima.

Um pouco mais de contexto: O Royal Nepal Golf Club foi fundado em 1917 e tem as suas fronteiras bem definidas por arame farpado, num contraste absoluto com o caos de Katmandu. Aqui, os jogadores preferem bolas de golfe usadas, já que as mais novas e brilhantes tendem a ser confundidas com ovos que atraem a atenção dos macacos que costumam deambular pelo campo.

O Royal Nepal, entre alguns outros campos do Nepal, acabaram por atrair a atenção de Oliver Horovitz em 2016, que queria escrever um artigo para uma revista sobre o golfe no país. Uma vez lá chegado e em conversa com os orgulhosos membros do clube, Horovitz percebeu que os temas orbitavam sempre sobre um único nome. Não o de Tiger Woods. Não o de um campeão do clube. Mas sim no the Pratima Sherpa.
Dois membros do clube trataram das apresentações entre jornalista e promessa do golfe feminino. Horovitz prontificou-se a ser seu caddie durante um percurso de nove buracos e, quase instantaneamente, percebeu-lhe o afamado talento.

Depois de terminado o jogo e de uma visita ao barracão, onde Horovitz pôde constatar as condições em que ela e a família viviam, decidiu-se a ajudar Pratima a conquistar o seu sonho. De regresso a casa, Horovitz partilhou a história de Pratima num website destinado à angariação de fundos que procurava donativos que a ajudassem a tornar-se na primeira jogadora de golfe profissional no Nepal.

Também escreveu sobre ela na Golf Digest. As suas palavras acabariam por ser lidas por Tiger Woods, que enviou a Pratima uma carta de encorajamento, através do clube. Pratima nem queria acreditar quando recebeu a missiva e colocou-a junto aos seus troféus. É, hoje, o único objecto emoldurado no barracão. Mas Tiger Woods não foi o único a encorajar Pratima que, graças à ajuda de outras pessoas, acabou por conseguir rumar aos EUA para praticar golfe. Com pouco tempo para se adaptar e com um rígido calendário de campeonatos, Pratima entrou em cinco competições regionais para júniores na Califórnia. Dos cinco torneios em que participou ao longo da sua estadia de um mês, ficou em primeiro lugar num deles e empatou em terceiro lugar noutro. E entre experiências totalmente novas para Pratima, como provar gelado pela primeira vez, aprender a andar de bicicleta, nadar no mar e acordar no seu próprio quarto, esta menina nepalesa melhorou bastante a sua técnica nos EUA, conta Horovitz.

De volta a casa, ao seu barracão e à sua família, chegou a hora de competir no torneio da sua vida.

Cortesia da Família Sherpa - ESPN

Cortesia da Família Sherpa - ESPN

Entre 1/4 e 1/3 dos milhões de residentes de Katmandu vive abaixo da linha de pobreza. O rendimento médio dos nepaleses quase que duplicou na última década para $862/ano, adianta a ESPN. E não há segmento da população que enfrente mais dificuldades do que as mulheres nepalesas. Sujeitas a ordenados mais baixos, menos oportunidades de trabalho, menos direitos sobre a propriedade e menos acesso a educação superior, as mulheres são a sub-classe da economia da cidade. Foi por isso que, mesmo com um campo de golfe à porta - literalmente - a família Sherpa nunca pensou que Pratima fosse querer jogar. “No Nepal… muito poucas mulheres jogam golfe. É um jogo para os mais ricos, bem sucedidos. Não foi feito para nós”, conta Pasang, o pai de Pratima.

Mas tendo crescido rodeada por membros do clube, pouco tardou até que, aos 11 anos, Pratima partilhasse que também queria jogar. O pai podia ter pedido um taco emprestado ao clube mas, em vez disso, meteu-se pela selva para procurar um pedaço de madeira. E foi esse mesmo pedaço que esculpiu dedicadamente até que ganhasse a forma de um taco que desse resposta ao desejo da sua filha. Foi com esse taco que Pratima jogou e jogou, todos os dias e em todas as oportunidades que tinha. E desde cedo que Pratima soube que seria esse o seu destino. À medida que começou a partilhar rounds com adultos e membros do clube, tornou-se no tópico de conversa favorito. Todos se questionavam onde o seu swing a levaria. O pai bem lhe disse para parar de jogar e estudar. Ela ouviu e compreendeu. Mas não parou.

Aos 17 anos Pratima já tinha ganho 33 torneios.

Para a mãe de Pratima, Kalpana, de 61 anos, e para o pai, Passang, de 64, o futuro é incerto. Não sabem por quanto tempo continuarão a trabalhar no clube ou por quanto tempo poderão continuar a ocupar o barracão. Correm rumores de que será demolido. O salário combinado de $1.443 que receberam no ano passado não lhes permite mais do que a sobrevivência. Agora com 18 anos, Pratima já viu o suficiente do mundo para perceber o que falta aos pais.

É por isso que, às longas horas de treino nos campos de golfe, acrescentou um novo objectivo, uma forte determinação: tratar deles.

“Quero ser a primeira jogadora de golfe profissional do Nepal”, partilha com a ESPN, num sorriso que se desvanece por momentos. “Eu sei que é difícil, mas não é impossível.”

O evento mais importante da vida de Pratima, o campeonato de golfe de qualificação profissional, teve três rondas e três dias. Só os cinco melhores conquistaram o estatuto profissional. Pratima ficou em 9º lugar. A quatro posições de conquistar o tão desejado estatuto. A quatro posições de mudar a vida da sua família. A quatro posições de fazer história.

O próximo campeonato de qualificação do Nepal só acontece no próximo ano. Pratima regressa a casa. Duas horas depois, ouve-se no campo um som repetitivo, metálico, do taco contra a bola. Era Pratima, que não desistiu de jogar. De treinar. Trabalhar. Sonhar.

Esta história faz parte do documentário “A Mountain to Climb”, realizado pela produtora da ESPN Kristen Lappas. Tom Rinaldi foi o argumentista e Thom McCallum e Vin Guglielmina os cinematógrafos. São histórias como esta que nos alimentam a alma e que nos dão, a todos, uma lição gigantesca. Nem todos conseguem chegar ao topo da montanha. Mas os que desistem, não chegarão lá de certeza. E Pratima não desistiu. A história não vai ficar por aqui.

Saibam mais sobre Pratima aqui.