Crónicas do Fidalgo

Motores

A Pantah 350cc: Mais do que uma mota, uma lição de vida

Esta é a história de como tudo começou. Eu trabalhava num gabinete de arquitetura, minha área de formação académica, e sonhava em ter a minha Café Racer. Nessa altura, para além de sonhar em ter a minha própria mota, fazia muitos desenhos e, a partir destes, testava alguns métodos de desenho digital. E, na verdade, foi assim que aprendi a fazer o que faço hoje, experimentando, testando e aperfeiçoando os meus conhecimentos de desenho digital e de renderização.
Nessa altura pertencia a um fórum sobre café racers, intitulado ‘351’, onde publicava alguns dos meus desenhos. A aceitação foi muito boa, facto que me deu mais ânimo para continuar a experimentar. Fazia, durante o dia, arquitetura e, depois, nos tempos livres, voltava às motas e ao 351. E foi no Fórum que conheci o meu amigo Pedro Novais, que se tornaria o meu primeiro “cliente”, ao lançar-me o desafio de dar um novo look a uma Cagiva Alazzurra 350cc, a qual ele adquirira em resultado de um ‘Barnfind’. O Pedro queria ter algo incrível. Lembro-me perfeitamente do desenho que fiz. A mota era vermelha, com o quadro a condizer. Desenhei uma carenagem completa, usando o material que ele já havia comprado. O resultado desse desenho foi uma mota mais ao estilo “retro racer” do que propriamente uma Café Racer. Publiquei-o, uma vez mais, no ‘351’, obtendo boa aceitação dos membros e principalmente do Pedro. Adorou e estava empolgadíssimo quanto a construir a mota, tendo por base a minha proposta.

Primeiro desenho da Cagiva feito para o Pedro Novais

Primeiro desenho da Cagiva feito para o Pedro Novais

A minha ‘aventura’, que começara desta forma, cresceu. Não só surgiram novos pedidos de novos clientes para desenhos, mas também, passado alguns anos, para a construção de motos.
Um dia tive uma infeliz notícia. A notícia que todos nós, que andamos de mota, não gostamos de ouvir: o Pedro tinha tido um acidente grave e estava hospitalizado. Lembro-me de falar com alguns membros do fórum. E recordo a visita que lhe fiz, ao hospital, no Porto. O acidente deixou-o sem as duas pernas. Mas, para meu desconcerto, o Pedro aparentava estar bem com a situação. Recordo-me ainda perfeitamente de comentar isso com o Luís, um outro amigo do fórum, que me acompanhou nessa visita.
Estive com o Pedro pouco tempo depois, num almoço de Natal. E foi a última vez que o vi.
Passaram-se anos – dois, se não falha a memória – quando decidi que, para além de desenhá-las, iria construir as minhas motas. E, nesse sentido, comecei a procurar motas na internet. Lembro-me perfeitamente que estávamos perto do Natal. Estava a olhar para um anúncio de uma Yamaha e um outro de uma Cagiva Alazzurra. Contactei o proprietário da Yamaha. Discuti preços.

E olhava para o email e número e não me eram nada estranhos, de seguida, contactei o proprietário da Cagiva. Olhava para o e-mail. Olhava para o número de telefone. E quando vi as fotos da mota reconhecia-a. As mesmas que o Pedro havia publicado uns anos antes no fórum. Finalmente percebi que o contacto dele era o mesmo do anúncio. Tinha estado a falar com o meu amigo Pedro, sem que nenhum de nós se apercebesse do outro. Havia, como disse, dois anos que não falávamos. O Pedro estava mais em baixo. Percebia-se na voz. Queria vender as motas, pois não podia andar em nenhuma. Estava farto de as ver.
De as olhar na oficina … principalmente a menina dos seus olhos, a Cagiva, que não havia sido acabada… Decidi, nesse momento, comprá-la com a promessa de a terminar.

Segundo desenho da Cagiva

Segundo desenho da Cagiva

Na verdade, não viria a ser a moto inicialmente idealizada. O conceito manter-se-ia, mas adequada ao meu gosto pessoal. Um gosto ou visão que durante esses anos havia mudado. E assim foi! Na altura, o Pedro estava na fase de habituação às próteses. Ainda assim, prontificou-se a montar a mota na sua oficina de modo a pô-la a funcionar. Estava em baixo, mas o projeto fez reavivar o bichinho. E o mexer em motas despertou a vontade de criar. Na fase final, a mota veio para o Porto, sendo concluída por cá. Lembro-me, aquando do Arte e Mota, onde o projeto esteve, pela primeira vez, patente ao público, o Pedro viajou de Fafe a Lisboa, com a famÍlia só para a ver. Era perceptível no olhar, nas expressões, o prazer que sentia: a mota acabada diante dos seus olhos. A reação do Pedro foi, para mim, uma satisfação enorme.

A mota foi um grande sucesso, com grande divulgação e aceitação nas redes sociais e revistas especializadas de todo o mundo. Mas o que desejo evidenciar nesta crónica, é que, por vezes, uma simples mota é um turbilhão de experiências e de sentimentos. Histórias de vida, como a do Pedro que, depois de tanta adversidade, voltou a viver pelas e no meio das motas. Um forte abraço ao meu amigo Pedro Novais, que aposto que terá mais histórias a acrescentar a esta mota.

Texto de Nuno Capêlo

Resultado final: "The Pantah 350"

Resultado final: "The Pantah 350"

ID Nuno Capêlo

Desde que me lembro que sempre fui movido pelo desenho e pela possibilidade de criar coisas. Portanto, construir e desenhar são algo que aparece quase que naturalmente. Segui a escola de artes seguido pelo curso de Arquitetura, uma disciplina pela qual sou apaixonado. Em plano de fundo sempre estiveram as motas e maioritariamente desenhá-las. Com o passar do tempo e, na altura, com o reduzir do trabalho de arquitetura devido à economia, comecei a dedicar mais tempo à minha outra paixão e o mundo das motas começou a ocupar mais do meu tempo, chegando ao ponto de hoje em dia ocupar quase maioritariamente todo o meu tempo.