Crónicas do Fidalgo

Motores

Toad e a sua colecção de motas que ninguém queria

Os aficcionados de motas clássicas sonham com os chamados "achados de celeiro" (em inglês, "barn finds"), que são nada mais, nada menos do que motas antigas originais, cobertas por pó e teias de aranha, empurradas para as traseiras de um barracão e deixadas lá ao abandono durante décadas.

Há um coleccionador na parte Ocidental da Austrália que tem vindo a acumular motas antigas e a "empurrá-las" para as traseiras do seu barracão há perto de 50 anos. "Toad" (Sapo, em português), é como lhe chamam, e a sua colecção já ascende a mais de 400 motas. A revista Bike Shed Times foi espreitar os tesouros que por lá se encontram, e meus amigos... Que sonho!!! E que testemunho!!!

Já ouviram falar em "negociações inversas"? É uma estratégia de negociação antiga, por vezes mencionada e utilizada por consultores de investimento.

Baseia-se na noção de que, quando quase toda a gente está entusiasticamente a adquirir acções de um determinado bem, o valor real desse bem já atingiu um pico. E quando quase toda a gente está a vender um certo bem, o seu valor real já chegou ao seu nível mais baixo.

Os "negociadores inversos" são investidores que compram quando a maior parte das pessoas está a vender e que vendem quando a maior parte das pessoas está a comprar. Se acertarem nos timings, compram barato, vendem caro e lucram simpaticamente. Bem, pelo menos na teoria.

Mas a maior parte das pessoas não tem coragem, personalidade ou paciência para fazer negociações inversas. Se um determinado stock ou bem está "na berra", todos querem uma fatia do bolo. Se passou "de moda", ninguém quer. Os carneiros seguem os carneiros. Os carneiros que se adiantam aos outros, lucram. Os do meio, atingem o break even (ou seja, cobrem o investimento que fizeram). Os últimos... acabam "tosquiados".

Muitos motociclistas são um pouco como negociadores de acções. Movem-se consoante as modas. Aqueles que gostam de novas motas, compram novas motas e trocam-nas assim que um novo modelo ultrapasse o seu antecessor.

Quem gosta de motas clássicas, igual. Mas diferente. A "moda" continua a ditar regras. Grande parte dos aficcionados de motas clássicas apostam em modelos que estavam na moda quando eram mais novos.

Hoje em dia paga-se uma "nota preta" por uma Kawasaki Z1 ou uma Honda Four, uma BSA Gold Star ou uma Ducati round-case. Mas esquecemo-nos de que, nos anos que separam uma mota "da moda" e clássicos cheio de estilo, essas motas estiveram uma data de anos a ser nada mais do que usadas, antigas.

Será justo descrever o coleccionador de motas desta história como um "coleccionador ao contrário". Ele reuniu aquela que é quase certamente a maior colecção de motas antigas, originais, da Austrália Ocidental e uma das maiores do país. E fê-lo, maioritariamente, acumulando motas indesejadas e fora de moda. E não o fez durante um ano ou dois. Fê-lo durante décadas!

Chama-se Tom mas todos o tratam por Toad. As suas motas estão guardadas dentro de vários barracões numa propriedade rural no sul da Austrália Ocidental.

Na galeria em baixo, criada pela Bike Shed Times, podemos ver algumas das motas empilhadas, espalhadas e - pelo menos, no caso de uma - pendurada numa árvore na propriedade de Toad. Ele diz que tem por lá 450 motas. Ninguém se deu ao trabalho de contá-las, mas parece que o número está correcto...

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"Comecei a andar de mota porque não podia pilotar aviões", conta Toad ao The Bike Shed Times. "As lições de voo eram muito caras para mim, por isso fui em direcção à próxima coisa que encontrei: andar de mota."

Continua. "O meu tio tinha um amigo que tinha uma Harley WLA, que usava para reunir carneiros nos anos 60, em Wongan Hills. Nessa altura não havia dirt bikes. Todos andavam de Harley ou British singles. Eram baratas, fáceis de arranjar e cumpriam a função. Aprendi a conduzir na WLA e adorei."

E foi assim que, aos 16 anos, Toad se viu num leilão em Perth, em 1968, em que o exército australiano estava a vender uma das suas últimas fornadas de Harley Davidsons WLA. Indesejadas, fora de moda, mas duras e fiáveis Harley Davidsons WLA. O tio de Toad também lá estava, a ponderar uma Harley para si. Mas Toad tinha planos maiores dos que os do seu tio.


Toad juntou todo o dinheiro que tinha no mundo - pouco mais de 200 dólares - e investiu-o no lote de Harley Davidsons. "Comprei seis motas. Eram todas WLA e todas tinham o mesmo preço: 35 dólares cada. Mas quando as motas foram atribuídas aos compradores, duas das minhas eram novas em folha. Ainda nas caixas transportadores. E as caixas nunca tinham sido abertas."

As duas motas novas, vendeu-as quase imediatamente, recuperando o dinheiro que tinha gasto para comprar as seis e dando a Toad um pouco mais de poder financeiro para dar seguimento à sua paixão por coleccionar.

E assim começou a sua colecção, com quatro Harleys - uma das quais ainda está num dos seus barracões, coberta por décadas de pó e com um aspecto muito semelhante ao que devia ter tido naquele dia do leilão do exército, em 1968.

"Ainda nem tinha a carta de condução e, obviamente, não tinha uma casa minha, mas o meu tio disse-me que podia guardar as motas no barracão das tosquias." Foi o que fez.

"As pessoas não acreditam em mim, mas em 1969 podíamos comprar uma BSA Gold Flash, legalizada e a funcionar, nos classificados do Sunday Times por $1, e uma Norton Dominator por $4. É verdade. Ninguém as queria. As motas eram simplesmente um método de transporte barato, nessa altura, e as motas japonesas estavam no auge da sua popularidade."

Eventualmente, a grande procura por motas japonesas acabou por levar aos mínimos os valores das motas britânicas.

"As pessoas levavam as suas motas inglesas para o Osborne Park Tip, tiravam-lhes as matrículas, deixavam lá as motas e iam de boleia para casa. Isto é absolutamente verdade. Passei dois anos no Osborne Park, aos fins-de-semana, só a recolher motas que ninguém queria. Conseguia encaixar cinco motas no meu atrelado e, em muitos Domingos, ia para casa com cinco motas, todas completas e a funcionar. Em dois anos coleccionei 200 motas inglesas. Os donos das motas ficavam agradecidos porque eu dava-lhes boleia para casa. E eu ficava com as motas deles de graça!", lembra.

Claro que chegaria o dia em que as motas de Toad - as motas que ninguém queria - iriam tornar a ser moda, um dia.

"Aconteceu alguns anos depois", adianta.

"Assim que as novas motas japonesas acumularam alguns quilómetros, tornaram-se menos populares. Algumas pessoas gostavam de ainda ter as suas motas inglesas antigas. Lembro-me de ter trocado uma das minhas velhas BSA por três Honda 305 Dream.

E assim a colecção foi crescendo. E crescendo.

"O meu sonho de vida é ter a minha colecção aberta ao público", confessa. "O barracão principal que estou a usar ia ser um museu, para que as pessoas pudessem apreciar as minhas motas em toda a sua originalidade." Mas os prémios dos seguros fizeram com que o plano do museu fosse ficando para trás.

"Estava a todo o gás, no final dos anos 90 e princípio dos 2000, a trabalhar na abertura do museu. Depois, em 2001, aconteceu o ataque terrorista às Torres Gémeas, nos EUA. Literalmente, da noite para o dia, o seguro de responsabilidade civil do meu planeado museu passou de $4,000/ano para $20,000/ano.E isto não era para segurar as motas, era para segurar as pessoas que iriam visitar o museu. Depois o Furacão Katrina atingiu Nova Orleães, em 2005, e as companhias de seguros tinham mais novidades. Já não me iria custar $20,000 ao ano, passaria a $35,000."

Foi tudo demasiado. E como se não bastasse que as companhias de seguros e os seus valores tivessem inviabilizado o projecto, também os vizinhos de Toad se opuseram à criação do museu. Mas Toad continuou a coleccionar motas.

Coleccionar é mesmo a palavra porque, ao passear pela propriedade de Toad, rapidamente percebemos que não é um restaurador ou mecânico. Assim como nos anos 70, as motas de Toad estão intocadas. Algumas estão a funcionar e em bom estado, outras precisam de algum trabalho e outros, ainda, parecem ter saído do lixo - e saíram, de facto. São também, na sua maioria, motas de dia-a-dia.

"Sei que há por aí algumas motas exóticas, mas a maior parte são motas que pessoas normais conduziam.

Motas brilhantes, intocadas, completamente restauradas, caras ou quase novas nunca foram o target de Toad. A sua paixão está na originalidade das máquinas.

"Porque é que uma mota tem de ser brilhante? Não tem. Para mim, o valor das motas da minha colecção está no facto de serem originais. Completamente originais. Tenho uma pequena MV Augusta no barracão que algumas pessoas querem comprar e atacar com lixa. Querem remover a pátina original, restaurá-la. Mas assim que se tocar numa mota antiga com lixa, ela deixa de ser original. E é esse o atractivo. Pelo menos, para mim. Uma mota que está partida e enferrujada, que já não funciona, é uma peça de maquinaria original. Assim que a restauramos, perdemos a originalidade", defende.

Esta abordagem de "deixa-as-como-estão" está longe de ser universalmente popular e já mereceu várias críticas.

"Não está correcto. Ele devia deixar as motas avançarem. Se não quer restaurá-las, devia deixar que alguém o faça.", dizia à Bike Shed Magazine uma das pessoas que visitou o barracão de Toad.

Mas parece que para cada crítico há um fã. Há quem acredite que Toad "salvou" todas estas motas, que teriam ido parar a um qualquer aterro há muito tempo.

E o que reserva o futuro para esta colecção incrível?

Toad continua a coleccionar motas e muito raramente vende alguma, por isso podemos apostar que a colecção vai continuar a aumentar. Mas e... depois?

"Quando eu partir, o lote todo vai ser leiloado", diz Toad. "Eu e a Rosie não temos filhos, por isso o dinheiro irá para algo útil. Provavelmente para o Royal Flying Doctor Service [um serviço de ambulância aérea, destinado aqueles que vivem em áreas terrestres remotas da Austrália].

"Toad" e a esposa, Rosie.

"Toad" e a esposa, Rosie.

Até lá, as centenas de motas de Toad vão continuar a acumular pó sobre si. Algo que, de acordo com este coleccionador controverso, tem mais valor do que qualquer outra cobertura.