Crónicas do Fidalgo

Motores

Quando uma viagem de mota te transforma no que ela bem entende

Gosto de me fazer à estrada. Já o fiz várias vezes, sozinho ou acompanhado, Europa fora. E um dos motivos pelos quais criei esta plataforma foi, precisamente, para poder relatar essas aventuras com outros amantes das duas rodas, da estrada, da poeira, da sinfonia dos motores.

Não é, portanto, de estranhar que goste de acompanhar as aventuras de outros riders pelo mundo fora. Uma das minhas "viagens" virtuais levou-me à Namíbia. E que viagem que foi, meus amigos!

Na plataforma Motorcycle Diaries descobri um relato incrível dos autores do Around Gaia, Ivana e Manu. Um casal de viajantes, bloggers e apaixonados por fotografia que já percorrem o mundo há 10 anos. Os últimos 5, de mota.

Depois de anos a viajar de mota por vários países, chegaram à Namíbia. E, contam, atravessar a Namíbia foi quase que uma terapia onde acabaram por aprender mais sobre eles do que sobre o próprio país.

"A Namíbia é como aquele amigo que não vias há muito tempo, que tem a capacidade incrível de chegar sem avisar, no momento certo, e que te diz directamente no que te vais tornar, quer tu gostes quer não!", confessam.

"A primeira coisa que a Namíbia faz quando atravessamos a fronteira é fazer-nos sentir inúteis porque, a partir daí, não somos nós que controlamos a velocidade a que viajamos. Esqueçam andar com velocidade. Vão atravessar os caminhos arenosos em câmara lenta".

Desde o início, " [a Namíbia] faz com que esgotes todas as tuas energias, intimida-te com a intenção de te causar vertigens, quer ver quão verdadeiramente especial tu és. Provavelmente até vens de muito longe, mas dificilmente de um lugar como este. Em apenas uma semana a Namíbia transformou-nos no que queria, viajantes solitários, exaustos e vulneráveis no meio do deserto, prestes a entrar no forno. É tempo de atravessar o deserto debaixo de 40ºC e deixar que a sua magia nos cozinhe".

Mais a Norte eles encontraram membros do povo Himba, que têm sobrevivido há vários séculos, sempre com um sorriso na cara, "que nos transmite talvez que o deserto não é um rei impiedoso mas mais um juíz bondoso".

Este povo, contam-nos Ivana e Manu, anda praticamente nu sobre o terreno duro, descalço para que se sintam em conexão com a terra e deixam que a areia vermelha lhes tome conta dos corpos, lhes cubra a pele e os proteja do sol e das picadas dos mosquitos, chegando até aos cabelos, para dar às mulheres a personalidade que é tão característica dos Himba.

Mas entre tantas outras tiradas marcantes - e contagiantes, porque neste momento só me apetece fazer-me à estrada - este casal tocou num ponto que me parece fundamental: a ligação com o que nos rodeia.

"Quem é que consegue ouvir a voz do planeta quando estamos tão ocupados a tirar as fotografias que as empresas que nos patrocinam pedem, a editar vídeos que mostram os seus produtos ou a tentar conquistar mais seguidores, para convencê-los sobre a importância de viajar com o melhor equipamento? Sempre que dormimos menos debaixo de céus estrelados para, em troca, dormir em hotéis luxuosos, que nos oferecem as suas camas em troca de recomendações nas nossas redes sociais, fomos enganados pelo conforto e pelas facilidades e entrámos num mundo de sorrisos falsos publicados no Facebook."

Parece contraditório escrever estas palavras numa plataforma que é, provavelmente, sustentada pelos ditos patrocinadores a quem este casal tem de agradar. Mas este casal fala por muitos de nós. É um abanão para acordarmos.

Olhemos mais para o que nos rodeia e menos para os ecrãs para experienciarmos a vida. Pura e dura, como ela deve ser vivida.

Convido-vos a ler aqui o relato maravilhoso desta viagem e a contemplar fotografias como estas. Cheias de silêncio e com tanto para dizer.

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