Crónicas do Fidalgo

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Viagem ao Egipto (parte 2)

Um jantar a convite de um outro guia, Ali Porto de seu nome, no centro da cidade com o objectivo de conhecermos a realidade da cidade. Aqui, o objectivo é testemunharmos a segurança que se vive nesta cidade e a harmonia que existe entre o estrangeiro e o local. E ela existe mesmo. Vimos muitas mulheres sozinhas ou com os seus filhos, umas mais cobertas que outras, e constatámos que as crenças não eram motivo de separação. Cristãos e muçulmanos completamente misturados.

Fomos a um restaurante típico da cidade, Starfish, fora da zona turística. Digamos que fui ao Ramiros lá do sítio! Para quem não sabe, o Ramiros é uma das melhores marisqueiras de Lisboa.

Deu vontade de passear pelas ruas e avenidas da cidade que, apesar de ser bastante diferente da nossa e do nosso conceito de cidade limpa e organizada, tem o seu encanto.

Agora sim!, o dia terminou de barriga e cabeça cheias de boas sensações e comida excepcional.

E aqui vamos nós para o segundo dia. O dia da alvorada para Luxor.

Aqui, o nascer do Sol é às 04:30 e o pôr-do-sol às 19:00. Por este motivo, temos que aproveitar bem o dia, por isso, 04:15 na recepção do hotel para 3 horas de viagem até à cidade de Luxor.

Primeira paragem, Templo de Carnaque.

Aqui tive o nosso primeiro guia, guia, mesmo guia. Hassan (nome muito popular, tal como José em Portugal), disse algo que até à data nunca tinha ouvido falar. Resumiu templos como este a um espaço de propaganda política. Tal como uma estação de televisão ou de rádio, onde o objetivo seria comunicar com o povo e convencê-lo ao que fosse mais conveniente para os interesses de quem queria obter e controlar o poder.

Claro que esta definição utilizada é bastante redutora face à gigantesca construção e complicada engenharia arquitetónica que os egípcios desenvolveram de forma única.

Criar um templo desta dimensão, especificidade em que cada figura é única, onde os hieróglifos têm uma estrutura muito própria e variada, muito complicada de se perceber - requer um conhecimento profundo ou um poder de imaginação inigualável. Não me vou alongar sobre esta matéria para não cometer algum erro que, até porque a internet bem consultada, leva a esclarecer uma parte significativa do que já se sabe sobre estas construções e o que levou à sua existência. A mim, o que mais me impressiona, é a sua magnitude e complexidade.

Como já esperado, a visita seguinte foi a uma loja de dedicada ao papiro, a flor que dá ordem ao primeiro papel. Uma flor que dá para tudo, desde sapatos, chinelos, cordas, dos materiais mais resistentes aos mais sensíveis como uma folha para escrever ou desenhar. Não é rejeitado, tudo é utilizado. O seu líquido para fragrâncias, etc.

Depois de contada a história do papiro, lá se ia ao que interessava, gastar dinheiro, comparando as telas onde se representa a história deste milenar. Para todos os tamanhos e preços, raramente se sai de mãos a abanar mas, bem negociado, lá se consegue um número considerável de recuerdos a um preço discutido com entusiasmo da minha parte.

Se valeu a pena comprar? Acredito que sim mas também acredito que é simplesmente para nos recordarmos deste momento e materializarmos esta experiência numa parede, estante, cómoda ou secretária. Ou onde quisermos. Haver um termo entre o que achamos essencial e o exagerado. Não por uma questão financeira mas por uma questão de racionalidade emotiva. Não quer dizer que seja rico, mas se fosse tentaria pensar da mesma maneira, ou seja, o que é realmente importante na nossa vida e o que nos satisfaz verdadeiramente. Um porta-chaves com a cara de Ramses que nos vai servir para as chaves de casa ou do carro ou uma tela gigante para enfeitar a parede lá de casa? Não julgo, fica ao vosso critério.

Compras feitas e conhecimento adquirido sobre os papiros e já estava na hora de comer. Uma simples travessia pelo rio Nilo, onde tínhamos a escolha de, por mais 5 euros (quase 100 libras egípcias), tínhamos direito a uma passeio extra de meia hora pelo rio Nilo. Aqui passámos a vez porque a volta não nos pareceu assim tão atractiva e porque a barriga já dava sinais de fome.

Este almoço já esta incluído no pacote dia e, mais uma vez, deslumbrante, inolvidável, para vida e todo o sempre. (Risos). Um fila gigante de várias excursões com quem este restaurante tinha vários acordos. Mais uma vez, abstraímo-nos do que nos rodeia, retirámos o essencial que, para mim, é observar o comportamento humano (ilações que ficam só para mim porque não quero ser mal interpretado) e toca a comer.

De barriga satisfeita, lá fomos nós para o “Vale dos Reis”, onde, no meio das montanhas, se construíram templos tão profundos que percorriam centenas de metros como se caminhássemos até ao centro da terra. Nestes espaços descansavam eternamente figurantes hierarquicamente importantes na época como grande parte da dinastia Ramses. Na hora da morte, tudo tinha de estar devidamente compartimentado para a viagem que a alma iria ter. Acreditavam que depois de morrermos, a alma iria começar outra viagem e tinha que estar com todo o tipo de mantimentos disponíveis para a sua jornada, desde comida, roupa, armamento, livros, tudo o que seria utilizado por nós humanos e que também serviria para o espírito. O curioso é que quanto mais trabalhado fosse esse templo mais significava que a quem pertencia não era uma pessoa muito ocupada. Os grandes guerreiros, como não tinham tempo para supervisionar os seus templos, pois estavam ocupados a combater, e daí serem os mais simples e, por essa ordem, menos interessantes de visitar. Isto, de acordo como o guia, claro.

Mais uma voltinha, mais uma viagem e lá vamos nós a caminho do “Templo de Al-Deir Al-bahari”.

Um Templo destruído na sua grande parte pelo filho da Rainha Hatexepsute acreditar que sua mãe estava a querer apoderar-se da posição que hereditariamente lhe pertencia, embora devido à sua tenra idade, seria impossível tomar conta dos destinos do seu povo e daí o papel fundamental de sua mãe que teve a brilhante mas fatal ideia de o mandar para uma escolar militar para se formar com todas as ferramentas que um faraó precisaria para reinar. Quando regressou, e munido de todas a ferramentas (achou ele), para se tornar num Rei soberano, expulsou a própria mãe que acabaria por morrer com um cancro.

Esta foi um pequena história contada pelo guia que o fez de forma exemplar, puxando pelas emoções de quem ouvia. Pelo menos, emocionou-me a mim e à minha irmã.

O fim do dia já se ia aproximando e ainda tínhamos 3 horas de viagem para frente de regresso até ao Resort. Foi um dia bastante enriquecedor e que, mais uma vez, deu para me transportar para outras épocas e lidar com outras formas de comportamento social.

Acredito e experienceei a hospitalidade deste povo e, por isso, não podemos nem devemos confundir com os vendedores que existem em toda a esquina e que possuem métodos para perssuadir o potencial cliente. Não nos podemos esquecer que a maioria da população é pobre e não há classe média. Há, sim, vários estratos de pobreza. Desde os que não têm nada até aos que possuem o mínimo para sobreviver. Mas independentemente das discrepâncias sociais e do regime em o que o país é governado, que para uns trouxe uma abertura para o mercado externo, nomeadamente, o turismo e para outros uma democracia que serve de máscara a um regime opressivo. Não podemos deixar de conhecer o mundo em que vivemos e o Egipto é “O PAÍS” a conhecer.

O dia seguinte foi bem mais descontraído mas que levaríamos, no final do dia, mais umas lições. Dia de safari no deserto do Sahara.

Começámos com uma ida à terra do Beduínos mas com uma viagem cheia de emoção até lá. Dentro de um jipe com mais seis pessoas a atravessarmos o deserto como se estivéssemos no Paris-Dakar com o Carlos Sainz, egípcio, ao volante, um operador de câmera que daria umas lições a qualquer operador de câmera em Portugal. (Risos!!!) Foi a loucura!!!

Assim que chegámos, fomos apresentados a este povo. Conhecemos um pouco a sua forma de estar como sobrevivem no deserto nos dias de hoje. É claro que tudo estava preparado para o turista ver, mas não deixamos de ter uma ideia do seu estilo de vida.

Umas voltas de camelo, a cavalo ou num burro, fizeram as delicias do pessoal. A mim calharam-me o camelo e o burro. E no burro, senti-me o Sancho Pança do deserto, depois de se ter chateado das manias do D.Quixote e de ter seguido o seu caminho. (Risos.)

Seguiu-se uma volta de moto quatro mas a passo de caracol. Não deixou de ser bom porque a viagem foi no deserto. Porque à velocidade a que viajámos, se fosse noutro local, eu dispensaria.

Saltámos das moto quatro para os Kart de quatro rodas e foi mais do mesmo, mas como ia com a minha irmã, deu para curtirmos os dois em modo Mad Max!

O dia terminou com um jantar bem organizado para os vários grupos que se juntavam naquela tenda no meio do deserto e com um espetáculo no fim do jantar, onde brilharam bailarinas e bailarinos com a dança do ventre e com os cospe fogo ou, em inglês para dar uma outra imagem, os breathing fire.

Como vos disse, foi um dia tranquilo. O que nos espera dentro de umas horas (duas da manhã) era uma viagem de seis horas numa camioneta ate à capital do Egipto: Cairo.

Só tivemos tempo de chegar o Resort, tomar um bom banho, jantar como deve de ser, desfrutar da temperatura à noite e estar pronto para a fatídica viagem. Tal como já referi, seis horas de viagem até ao Cairo que valem a pena fazer.

O primeiro lugar a visitar foi dos mais esperados da viagem. O museu Egípcio.

Mais uma vez, imagino-me num filme onde percorro, por entre sarcófagos, múmias e estátuas gigantes como se fosse um explorador em busca de um tesouro perdido.

Ainda fui a tempo de ver este museu, uma vez que dentro de um a dois anos irá ser inaugurado um dos maiores museus do mundo que irá substituir o actual e, assim, tornar a experiência muito interativa de acordo com os parâmetros actuais da tecnologia moderna com o objectivo de tornar esta experiência ainda mais emocionante. Não conseguindo visitar todo o museu, ainda demorámos quase duas horas para reter o que o guia achou essencial.

O rio Nilo é o principal motor económico do pais e o maior testemunho activo da historia milenar do Egipto. Valerá a pena fazer, para uma outra altura, um cruzeiro por ele durante três, quatro dias, mas já tivemos direito a meia hora de passeio para abrir o apetite. Neste pequeno percurso do restaurante até às pirâmides, deu para perceber e testemunhar o caos que se vive no trânsito desta cidade. Ninguém respeita qualquer regra básica para a harmonia a que nós, europeus, estamos habituados, embora não sejamos exemplo para ninguém. Mesmo assim, tanto nós como eles (e por incrível que se pareça) lá nos entendemos.

E eis o momento mais esperado: as pirâmides!

Apesar da pequena desilusão em relação à aproximação in-extremis destes colossos monumentos à cidade, não deixamos de nos transportar para uma época em que o cinema retrata de uma forma bem fascinante. Desde “Cleopatra”, com Elizabeth Taylor e Richard Burton aos “Dez Mandamentos” com Charlton Heston até aos mais recentes como a “Múmia”.

Algo que vale a pena ter em atenção os vendedores de rua. Na realidade, são chatos e, por vezes, muito incomodativos ou até mesmo abusivos. Avalie o seu guia, entre muitas coisas, atenção aos conselhos sobre este tipo de vendedores. Não aceitar nada de borla, porque não é; não segurar em nada para ver, mesmo sendo eles a incentivaram, muito menos eles. Uma vez na mão, é seu e terá que comprar. Por isso, cuidado.

A visita continuou ate à esfinge. Mais uma estrutura gigantesca que se conservou durante milhares de anos.

Os egípcios também são conhecidos pela produção dos seus perfumes . As essências egípcias típicas fazem o Cairo ser conhecido como “a terra das essências”. Inclusive o perfume, de facto, nasceu no Egipto a princípio como oferenda espiritual, mas em pouco tempo deixou de ser privilégio apenas dos deuses.

A crença egípcia fala que a fórmula dos perfumes, foram reveladas aos sacerdotes pelo deus Toth. A princípio eram através da flor de lótus e a do papiro que os antigos egípcios extraiam óleos de onde faziam as essências que serviriam para perfumar os templos.

Os antigos egípcios associavam as fragrâncias com os deuses e acreditavam no seu efeito positivo sobre a saúde e bem estar.

E como não podia deixar de ser, esperava-nos uma vista a um espaço de fragrâncias. Aqui, decidi gastar uma pequena parte do orçamento por achar que vale a pena, uma vez que eles são mesmo bons neste campo. Perfume de papiro e lótus foram os mais requisitados, bem como outros cujas propriedades eram afrodisíacas. Aliás, o Viagra mais natural do mundo, era vendido ali.

Compras feitas, para a fama e para os amigos, e lá nos esperavam seis horas de regresso ao hotel. Mais uma vez, não me canso de elogiar as estradas. Eu e minha menina estaríamos nas sete quintas.

O final desta aventura aproximava-se e já a nostalgia começava a fazer efeito.

Tão curioso, este sentimento que se traduz na palavra Nostalgia. Nesta viagem, a minha noção de felicidade amadureceu mais um pouco. O facto de viver o “aqui” e “agora”, torna-nos mais felizes. Procuro não ser muito nostálgico, não pensar no que foi o passado e deixar que ele me influencie ou me retire do momento presente, porque esse é o que realmente importa. Por isso mesmo, toca a desfrutar desta viagem de seis horas, contemplando o que vejo pela janela com a música nos meus headphones a acompanhar. Esta sensação que sinto é tão boa. Sabem o que é? Chama-se felicidade.

O último dia serviu para curtir outra praia o resto do dia.

Um dia bastante produtivo, onde tive uma longa conversa como a minha irmã sobre a vida e o momento que ambos vivemos. Não havia melhor sítio para se proporcionar este momento. A despedida do nosso resort foi ao som e ritmo da música e dança latina.

O regresso à nossa realidade estava a seis horas de distância e na bagagem, levamos o quê? Roupa suja, recuerdos e baterias carregadas para enfrentarmos o dia-a-dia da mesma maneira que vivemos no Egipto.

Até à próxima.