Crónicas do Fidalgo

Experiências

Homens colocam-se “Na Pele Dela”

Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, a depilar-se. Paulo Furtado, mais conhecido por Legendary Tigerman, a maquilhar-se. Carlão a fazer crochet. São apenas alguns exemplos, captados em fotografia, que vamos poder ver na exposição “Na Pele Dela”, que vai estar patente no Todos Playground, em Marvila (Lisboa), de 12 a 13 e de 19 a 22 de Setembro.

Mas que intuito têm estas imagens?

Já lá vamos.

O projecto, criado por Maria Lopes e Mário César, parte de 15 fotografias em que 16 protagonistas, figuras públicas masculinas, desempenham funções que têm sido sempre associadas às mulheres. A intenção da exposição é despertar-nos para os estereótipos, desconstruir visuais culturais com séculos e colocar a nu as expectativas que são colocadas no público feminino.

A depilação é apenas um exemplo.

O vocalista dos Capitão Fausto depilou a sua perna com uma lâmina, na banheira de época de casa dos pais. Esta é uma prática conhecida de muitas mulheres, desde os tempos em que as giletes apareceram a a mini-saia passou a ser moda. Mas Tomás Wallenstein não foi o único a depilar-se, apesar de ter tido mais sorte do que o cantor Paulo Pascoal, que retirou os pelos da axila… com cera. Cera essa que é familiar à maior parte das mulheres. A cera e a dor que o arranque doloroso e brusco provoca em várias zonas do corpo.

Mas vamos também poder ver Hélio Morais, dos Linda Martini e Paus, no papel de dona de casa que cuida dos filhos, o artista Julião Sarmento numa máquina de costura e o actor Albano Jerónimo de lábios pintados. São todas imagens que retratam as várias facetas, pressões e obrigações tipicamente associadas às mulheres, da estética à maternidade, ao contexto doméstico e às situações de época.

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Maria Lopes, uma das criadoras do projecto - e também programadora cultural do Anjos70 e DJ que já actuou na Soho House Barcelona, Paredes de Coura e Milhões de Festa - explicou à Magg que “o corpo da mulher é explorado e sempre usado de uma forma muito sexual nas fotografias, nas pinturas de época e, principalmente nos dias de hoje, nas redes sociais. A ideia começou com essa minha preocupação, por perceber que é um corpo muito explorado e que ao contrário, no masculino, não vemos isso”.

Não se quer, com “na Pele Dela”, sexualizar o corpo do homem mas, antes, promover a igualdade de género. Retratar os cenários impostos à mulher, em que ela é sempre a dominadora, mas “não devia ser”, adianta Maria Lopes.

O desempenho dos “deveres”, agora atribuído aos homens, começava antes de Mário César, fotógrafo, dar início à sua “magia”. Carlão teve, por exemplo, direito a um workshop de crochet com Joana Vasconcelos antes das fotografias, que aconteceram no atelier da artista.

Mas há muito mais peripécias curiosas e engraçadas, dignas de uma visita à exposição, onde se vai poder ver um vídeo que mostra o desenvolvimento do projecto, com depoimentos dos protagonistas que discutem o que sentiram e debatem a igualdade de género. A inauguração acontecerá a 12 de Setembro, a partir das 18h.

Saibam mais aqui.

E quando eu me despi de preconceitos?

A causa da desconstrução de estereótipos é-me próxima e procuro pô-la em prática todos os dias. Mas esta exposição acabou por me transportar para 2015 quando, também eu, me despi - literalmente - de preconceitos.

Subi para cima de uns arriscados stilettos número 46 criados por Luís Onofre em manifesto contra a desigualdade de género. Eu e mais 100 homens, entre actores, modelos, músicos, escritores, cientistas, atletas e chefs, ou não se chamasse o projecto "100 Homens Sem Preconceitos".

Aqui está o resultado!