Crónicas do Fidalgo

Experiências

Paredes feitas a partir de beatas? É possível!

Paulo Pimenta

Na fotografia de cima está um tijolo. Parece um tijolo normal, certo? Mas não é. Trata-se de um protótipo - e não de um produto industrial - e num dos seus cantos pode ler-se 5%. É a quantidade de pontas de cigarro incluídas na sua composição. Mais precisamente, 350 beatas de cigarros. O que significa que, com algo como 300 mil pontas de cigarro, seria possível construir uma parede de quatro por três metros.

Quem segura o tijolo da imagem é Nuno Silva, investigador do Laboratório da Paisagem - uma das três entidades envolvidas no desenvolvimento deste produto - que garante em entrevista ao Público: "Encontrámos o melhor destino para este resíduo."

O Laboratório da Paisagem - uma unidade de investigação e educação ambiental, partilhada pela Câmara Municipal de Guimarães e pela Universidade do Minho - juntamente com o Centro de Valorização de Resíduos, da mesma instituição de ensino superior, tinham vindo a procurar já há quase quatro anos a melhor forma de dar valor às pontas de cigarros.

Foi por essa altura que foi lançado o Eco Pontas, um cinzeiro de grandes dimensões colocado em vários pontos de Guimarães que, pela interacção com os fumadores - através de perguntas feitas mensalmente, a que se responde através da colocação da ponta do cigarro no local da resposta que se pretende dar - procurava recolher as beatas de cigarro.

O projecto venceu, entretanto, o concurso MaisTec, lançado pelo ISQ (Instituto da Soldadura e Qualidade) - um grupo de consultoria e investigação em Engenharia - e ganhou eco em investigações que o Laboratório da Paisagem e o CVR tinham realizado anteriormente. Foi também vencedor de um Green Project Award, da Sociedade Ponto Verde, em 2016, e foi vendido a 15 entidades por todo o país, entre municípios e privados. Actualmente, existem 100 Eco Pontas no país.

Mas a questão permanecia: o que fazer com as beatas recolhidas? É que, só em Guimarães - como noticia o mesmo artigo do Público - são recolhidas cerca de 8000 por mês!

O CVR e o Laboratório da Paisagem levaram a cabo vários testes, que passaram desde a utilização agrícola à valorização energética. Nenhuma se revelou viável. Isto porque as beatas têm uma grande carga poluente e há muitos custos associados à limpeza e separação deste resíduo, como explica Nuno Silva.A resposta estava na introdução em materiais cerâmicos.

Por enquanto existem apenas protótipos de tijolos feitos com beatas e cada um tem uma percentagem diferente de pontas de cigarro no seu interior. Isto porque o CVR está a terminar um estudo para perceber qual a quantidade ideal que pode ser usada sem colocar em causa os requisitos estruturais de cada bloco. No fundo, é importante garantir que os tijolos são suficientemente robustos para serem utilizados em construção.

Paulo Pimenta

Além do reaproveitamento

Murial Iten, investigadora do ISQ - que desenvolveu os protótipos - garante que a intenção é "colocar o máximo de beatas possível" dentro do tijolo. Mas a introdução de pontas de cigarros na criação de tijolos pode ter mais vantagens, além do reaproveitamento deste resíduo altamente poluente e com escasso potencial de valorização.

Os cientistas do CVR e do ISQ acreditam que esta componente pode permitir poupanças no consumo de energia da cozedura dos tijolos. Os filtros dos cigarros são feitos de acetato de celulose, e é este material que criará energia por si, reduzindo a temperatura que os fornos industriais devem atingir (1000 graus Celsius, actualmente). De acordo com Muriel Iten, isto acaba por ser interessante para a indústria da cerâmica, que tem na factura energética o seu principal custo.

E próximos passos?

Além dos estudos, que comprovarão cientificamente as teorias que se encontram em cima da mesa, deverá ser criada uma metodologia para a construção dos tijolos, de forma a que possa ser passada à indústria. Os investigadores acreditam que estes materiais possam chegar ao mercado dentro de dois anos.