Crónicas do Fidalgo

Experiências

“Mid90’s” ou “Tempo, podes voltar para trás?”

Jonah Hill estreia-se na realização em Mid90’s. O filme passa-se em Los Angeles, por volta de 1995, e centra-se em Stevie (interpretado por Sunny Suljic), um rapaz de 12 anos que vive infeliz no seio de uma família desequilibrada, composta pela sua mãe solteira, Dabney (Katherine Waterston) e o seu irmão mais velho, Ian (Lucas Hedges), que o espanca frequentemente de forma tão agressiva que, do lado de cá do ecrã, quase que podemos sentir a dor.

Um Verão, Stevie entra numa loja de skate e dá de caras com um grupo de jovens skaters, descontraídos, do tipo “pesadelo para as mães”: Ruben (Gio Galicia), Fuckshit (Olan Prenatt), Ray (Na-kel Smith) e Fourth Grade (Ryder McLaughlin). Talvez Hill se identifique mais com Stevie. Ou talvez se identifique mais com Fourth Grade, que filma permanentemente os seus amigos com a sua câmara e se sente envergonhado quando fala sobre o sonho de ser realizador, optando antes por afirmar que talvez acabe simplesmente por seguir os passos do pai na DMV (Department of Motor Vehicles).

Filmado numa Super 16mm, Hill presta no filme extrema atenção ao detalhe e é muito preciso nas referências à década de 90. Uma t-shirt do Street Fighter II, as míticas cassetes de música… Mid90’s é uma espécie de ode à infância e adolescência de muitos nós, em todos os tons e tonalidades com que se desenharam.

Ninguém me tira as memórias das tardes sem fim a andar de skate com os amigos, uma cicatriz aqui e ali, os cheiros de fim-de-tarde no Verão em que não havia lugar para o cansaço… Objectivo: superarmo-nos mais e mais, divertirmo-nos, vivermos…

Os skaters acabam por se tornar na família alternativa de Stevie. E começa aqui uma viagem de aceitação de descoberta, de refúgio, de crescimento.

Mas desengane-se quem pensa que é um filme “leve”: tem rasgos de dura realidade. Esporadicamente podemos ver Stevie em momentos de auto-mutilação, o que sugere que o tom que Jonah Hill procurou dar ao filme é mais sério do que ligeiro.

O Mid90’s é, no fundo, muito como andar de skate: da mesma forma que tentamos sempre disfarçar a dor depois de uma queda aparatosa, também no filme a dor aparece camuflada por uma estética exímia. Mas está lá.

Está lá e deixa-se embalar por uma banda sonora também ela plena de nostalgia. “We’ll Let You Know”, de Morrissey, é apenas um exemplo.

Tobin Yelland

Sunny Suljic e Na-kel Smith

Sunny Suljic e Na-kel Smith

A retórica de Mid90’s vai beber um pouco ao Kids, de Lary Clark, escrito por Harmony Korine, mas também a Paranoid Park e Elephant, de Gus Van Sant.

Recomendo. Saudades do tempo em que não havia tempo, horas, limites, para as “skatadas” infinitas.