Crónicas do Fidalgo

Experiências

Viagem a San Diego

Resolvi não fazer um diário de bordo porque esta viagem tem mais a ver com as sensações que fui tendo ao logo desta aventura do que propriamente o que fui fazendo.

Os indivíduos

Pedro Madeira

Pedro Madeira

Pedro Madeira
Já lá vão 20 anos que nos conhecemos e desde essa altura que falávamos em fazer um viagem assim. Havia sempre qualquer coisa que acabava por se intrometer e lá era adiada. Por Portugal - e, mais concretamente, pela costa sul - já fizemos umas quantas e sempre o tive como um bom companheiro para viagens do género. Empresário no ramo da construcção, deixou um negócio que construiu de raíz há bem pouco tempo (uma surf school e um hostel ) para se dedicar à compra e venda de terrenos para construcção, o que o leva a viajar pelo mundo.

Cláudio Chan

Cláudio Chan

Claudio Chan
Um bom amigo que conheci pouco tempo depois, através do Pedro Madeira.
É comissário de bordo há doze anos com muitos países no seu curriculum. Um homem preparado para esta tarefa de nos perdermos. [Risos]

A RV ou Auto-caravana
Já há alguns anos que queria viajar numa Auto-caravana mas não pensei que viesse a realizar este sonho pela costa californiana. Chegar ao aeroporto de San Diego e ter uma RV de quase 10 metros de comprimento e 4 de altura, que ofuscava qualquer outro veículo que se quisesse sobressair, foi como se estivesse a viver um filme… Óbvio que o entusiasmo nos fez parecer uns putos. Eles a aparecerem na zona das chegadas a apitar e a rirem-se numa besta daquelas e eu com cara de parvo a correr em direcção à RV - quase a entrar em andamento - no meio dos carros com uma mala grande às costas.

Aquele dia, para terminar em bom, precisaria de um local que tivesse que ver com a atitude que tínhamos e PUMBA!!!! Um restaurante com música ao vivo. Rockabilly puro e duro com pessoal a dançar. Tudo a preceito. Inesquecível.

Claro que uma questão que se colocava seria o local onde parar para dormir, uma vez que tínhamos conhecimento de que não podíamos estacionar em qualquer lado e muito menos para dormir.

Tudo superado pelos ares da boa sorte e energias lusas que nos acompanharam, que trouxeram aquela maneira bem portuguesa do desenrasca. Acabámos por nunca ter um problema de estacionamento nem de falta de locais para dormir. Sempre parámos onde queríamos e dormimos onde havia um beach break mesmo em frente. Mas atenção! Não tentem a mesma sorte. Ou tentem. Mas depois arquem com as consequências como nós estávamos prontos para as assumir, se tivesse de ser.

Éramos três e uma cama de casal para ser disputada com mais duas de solteiro.
Depois de discutido, ficou acertado que a distribuição seria feita à vez mas rapidamente, nessa noite, a vontade de dormir na cama de casal desapareceu. Isto porque ela ficava por cima da cabine do condutor. Tudo muito engraçado, subir por uma escadinha e ver o pessoal lá em baixo, mas a meio da noite para ir à casa de banho, era uma aventura para não nos espetarmos ao comprido no chão. Nada prático.

E imaginem a quem calhou a primeira noite? A MIM! E tive que lá ficar até ao fim da viagem. Graças a Deus que não me esbardalhei nas minhas idas ao “rest room” da “RV”. [Risos]

Tirando estes pormenores técnicos, como as baterias, o gerador, a água quente, os resíduos que tinham que se deitar fora sempre que o tanque se enchia, etc., viver uma auto-caravana é algo muito prático.

Não há nada como acordar em frente ao ambiente que se quer, tomar um bom pequeno-almoço com um grande café e uma música para despertar os sentidos da forma mais feliz que se pode. Para nós? Em frente a um beach break e ficar a contemplá-lo ate ao momento de curtir aquela onda.

As ondas


Um clima e um estilo de ondas muito parecido com o nosso mas na sua dimensão, claro.
Tal como em Portugal, nesta época do ano as ondas emigram e não há muita escolha mas as que existem, são de classe mundial. E aqui entra o point break de que vos quero falar. Birdrock.

Já surfo há alguns anos mas nunca consegui atingir o nível de que gostava. A vida levou-me por outros caminhos mas nunca deixei de apanhar as minhas ondas. Por mais que viaje, venho sempre parar onde tudo começou: a praia do Dragão. Local onde moro e de onde muito dificilmente sairei. A costa não é uma costa onde as ondas sejam constantes, perfeitas. Por ser um beach break, ou seja, fundo de areia e por estar sempre sujeito às condições do mar e às tempestades que, volta e meia, mudam os fundos. E aí tudo muda.

Por causa dessa inconstância é sempre mais difícil evoluíres ou aprimorares a tua linha de surf.

Lembro-me que cada vez que ia para Ribeira D’Ilhas e surfava aquela onda vários dias seguidos, a minha linha de surf evoluía da noite para o dia. Porquê?

O tipo de onda é reef break que, tal como uma onda tipo point break - por ser composta com um fundo de pedra ou lage (point break) ou reef ou coral (reef break) - torna-se mais constante quanto à sua formação e localização. Sempre perfeita e a bater no mesmo sitio. Claro que as condições climatéricas ajudam a torná-las melhores mas, regra geral, se houver ondulação, há ondas.

E aqui entra uma das melhores ondas que apanhei. “The Goddamn Bird Rock sun of a gun point break”.

Foram vários dias a desfrutar de metro a dois metros, sempre perfeitos. O tempo nem sempre era o mais convidativo para curtir uma praia mas devido à inexistência de areia (só pedra e das grandes), o surf era o único propósito.

Um bairro dentro da comunidade de La Jolla, em San Diego, Califórnia, é daqueles locais onde dá vontade de viver. Mas claro que não é para todas as carteiras e para a minha também não. O valor de uma casa nas três ou quatro primeiras linhas daquela costa, variam entre os 7 e os 14 milhões de dólares. E o que importa destacar com esta informação não é o valor das casas mas sim a hospitalidade de quem lá vivia.

De facto, o surf é um estilo de vida sem paralelo. Este desporto une pessoas de todas as camadas sociais e devia ser assim no mundo inteiro.

Mais anotações:
Não podemos esconder que este pais está cheio de contradições, mas acredito que devo salientar o que de bom vi para, assim, se poder anular o que de mau há. Acredito que quanto mais se falar no que há de bom em nós e no mundo, mais o mau e o mal que existe se vai aniquilando. Isto visto de uma perspectiva muito lata mas credível, claro.

Os condutores pararem para passarmos, mesmo não sendo numa passadeira, revela civismo e bom senso.

A velocidade média é bem menor que a nossa. E aqui sentimos a diferença quando regressamos a Portugal. A velocidade a que os carros passam por nós dentro das localidades é assustadora! Ou, pelo menos, foi um choque para mim, já que na terra da gasolina e V8, V10, etc. e estradas larguíssimas, isso poderia acontecer com mais frequência. Claro que tenho telhados de vidro mas passei a ter mais em atenção a isso.

O culto do físico não é novidade nenhuma em terras do tio Sam mas termos ginásios abertos “24/7” e com bastante movimento, mesmo às 4 da manhã, foi algo que me surpreendeu. Não é o facto de estar aberto 24 horas mas a afluência a altas horas. Para quem tem insónias ou qualquer outro problema que o impeça de dormir, para além das profissões que têm um horário nocturno, é a solução.

A legalização da cannabis. Aqui está um tema que tem pano para mangas mas vou resumir o mais que posso.

A razão da sua legalização tem a ver com o controlo da sua venda e para que assim também seja tributada, permitindo o seu controlo. Até aqui tudo bem, mas para quem não fuma, ter que levar com aquele aroma não é fácil. Onde nos deparámos mais com esse problema foi em Venice Beach. Aqui está esta uma questão que dá que pensar.

E dito isto, já esta programada outra viagem para aquelas bandas, mas com mais dias e mais destinos.
Viajar é o melhor remédio. [Risos]