Crónicas do Fidalgo

Experiências

Vinha Velha ou Vinha Nova

É uma história controversa, que traz sempre celeuma. Quem só tem vinha nova consegue provar e argumentar, com razão, que os vinhos com origem em vinhas novas não ficam atrás de vinhos com origem nas vinhas mais velhinhas.

Antes de avançar, entendam que não consigo andar à “caça” de uvas sem piscar o olho àquelas videiras retorcidas, feias e mal amanhadas que muitas das vezes nem uvas têm penduradas. Ainda na semana passada fiz mais uma daquelas incursões ao campo, em busca de uma casta específica que quero produzir em modo extreme. Claro está que, enquanto percorria os hectares de vinhas novas e jovens daquele produtor orgulhoso, não resisti em olhar para algumas das vinhas vizinhas, velhas, velhas, velhas…

Para mim, uma vinha velha conta a partir dos seus 80 aninhos. Antes disso, gosto de as apelidar de vinhas maduras, ali entre os 40 e 60 anos. Já entre os 20 e os 40 anos, para mim, são vinhas jovens. E para trás dos 20, são novas.

E o que é que as diferencia e torna este assunto numa discussão constante? As vinhas novas e grande parte das jovens andam em busca do que precisam... mas não tendo “experiência de vida”, são constantemente surpreendidas pelas adversidades do clima. Enquanto isso, as vinhas maduras conseguem dar o bom dos dois mundos, além de serem economicamente viáveis e de terem uma qualidade muito consistente ano após ano, pois já acumularam a “experiência” de algumas décadas. Já as vinhas velhas não conseguem ser economicamente viáveis, mas a sua consistência de qualidade e o carácter que conseguem impor aos vinhos é único. Por este motivo (abro um parêntesis para lembrar que naturalmente, e como em tudo na vida, há excepções à regra) é que os vinhos de vinhas velhas, com as suas raízes bem implantadas no solo, habituadas aos anos secos ou aos húmidos ou outros quaisquer anos que já passaram por elas, conseguem o que parece impossível, potenciar as características do seu terroir e - através de vinhos bem conduzidos - perpetuar a experiência única daquelas videiras que até então a tudo resistiram.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho

ID Hélder Cunha
Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).