Crónicas do Fidalgo

Experiências

Central Park Five: condenados e inocentes

Chegou à Netflix, sob o título "Aos Olhos da Justiça", a história dos Central Park Five, um grupo de cinco adolescentes, quatro afro-americanos e um latino, com idades compreendidas entre os 14 e os 16 anos, que estava no sítio errado à hora errada. Korey Wise,
Antron McCray, Yusef Salaam, Kevin Richardson e Raymond Santana foram condenados pela agressão e violação de Patricia Meili.

Tudo começou quando a 19 de Abril de 1989 mais de 30 jovens entraram no Central Park e provocaram vários distúrbios. Nessa sequência, "Trisha" Meili foi violentamente agredida e violada.

Não se verificou a presença de ADN compatível com qualquer um dos cinco jovens acima mencionados. Não havia qualquer outra prova que pudesse incriminá-los. Ainda assim, foram condenados.

No final dos anos 80 viviam-se tempos de medo e tensão para as minorias. Em Nova Iorque vivia-se uma onda de violência, roubos, agressões e ataques sexuais a mulheres. De toxicodependência - estavamos na década em que o "Crack" apareceu -, de crime de proporções epidémicas. E de muito racismo, dificuldades económicas, sociais e sentido de falta de justiça, como relembra a magazine digital Magg.

Curiosamente, não era esta a perspectiva de Donald Trump - na altura, empresário do sector imobiliário bem conhecido em Nova Iorque. Trump, que era um crítico fervoroso do caso Central Park Five e chegou a pagar a peso de ouro nos jornais o regresso da pena de morte, recusou a ideia de racismo na avaliação deste caso. E, ao contrário do que se vivia nas ruas, Trump acreditava que o final dos anos 80 eram tempos entusiasmantes para as minorias.

“Se eu estivesse a começar hoje, eu adoraria ser um negro com formação, porque acho que eles têm uma vantagem actualmente”, chegou a afirmar. Não era, de todo, o caso.

Atenção: Spoilers!

"Aos Olhos da Justiça, de Ava DuVernay, não é uma série documental e apresenta, assim, alguma liberdade criativa. Mas tenta contar da forma mais fiel possível o que aconteceu naquela época.

A polícia contou a sua própria versão dos factos, numa fogueira atiçada por Linda Fairstein, procuradora do caso que queria vê-lo rapidamente resolvido.

Numa fase inicial os jovens acusados negaram o envolvimento no caso. Voltaram a negar. Uma e outra vez. No entanto, depois de horas de interrogatório, quatro dos cinco confessaram o crime ou, pelo menos, a existência de um crime. Isto porque nenhum deles disse ter sido o violador. Acusaram apenas, aleatoriamente - e sob cansaçom nervos e pressão - os nomes que lhes eram apontados.

Apesar da inexistência de provas que os pudessem incriminar, Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise foram condenados e cumpriram penas entre os seis e os 13 anos de prisão.

Até que, em 2002, houve um twist na história. Matias Reyes estava a cumprir pena de prisão pela violação de três mulheres perto do Central Park e pela violação e homicídio de uma mulher grávida. Nessa altura - e 12 anos depois dos distúrbios em Central Park - diz ter "encontrado Jesus atrás das grades". E decidiu assumir o crime pelo qual os Central Park Five foram condenados.

Tudo mudou quando em 2002 Matias Reyes admitiu ter sido o autor da violação e agressão a Patricia.

Tudo mudou quando em 2002 Matias Reyes admitiu ter sido o autor da violação e agressão a Patricia.

O grupo foi então ilibado de todas as acusações. Exonerados os crimes, Korey Wise, Antron McCray, Yusef Salaam, Kevin Richardson e Raymond Santana processaram o estado de Nova Iorque por condenação maliciosa, danos morais e discriminação racial. O caso foi resolvido em 2004 e o grupo recebeu 36 milhões de euros de indemnização.

Na noite de 19 de abril de 1989, mais de 30 adolescentes entraram no Central Park, em Nova Iorque. Foram cometidos vários crimes contra dez vítimas. O mais grave foi o ataque e violação de Patricia Meili.
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Na noite de 19 de abril de 1989, mais de 30 adolescentes entraram no Central Park, em Nova Iorque. Foram cometidos vários crimes contra dez vítimas. O mais grave foi o ataque e violação de Patricia Meili.

Quando foi atacada, Patricia Meili, também conhecida por Trisha, tinha 28 anos e trabalhava na banca. Esteve 12 dias em coma.
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Quando foi atacada, Patricia Meili, também conhecida por Trisha, tinha 28 anos e trabalhava na banca. Esteve 12 dias em coma.

Os médicos não acreditavam na recuperação de Patricia Meili. Quando foi encontrada, a jovem estava nua, amordaçada e coberta de lama e de sangue. Tinha perdido perto de 80% de sangue.
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Os médicos não acreditavam na recuperação de Patricia Meili. Quando foi encontrada, a jovem estava nua, amordaçada e coberta de lama e de sangue. Tinha perdido perto de 80% de sangue.

O crânio de Patricia Meili estava de tal forma fracturado que o olho esquerdo tinha saído da sua cavidade. Na imagem, a camisola branca que usava naquele dia, que ficou completamente coberta de sangue.
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O crânio de Patricia Meili estava de tal forma fracturado que o olho esquerdo tinha saído da sua cavidade. Na imagem, a camisola branca que usava naquele dia, que ficou completamente coberta de sangue.

Foi encontrada uma meia no local do crime. O kit de violação também recolheu indícios de esperma, de onde foi extraído ADN.
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Foi encontrada uma meia no local do crime. O kit de violação também recolheu indícios de esperma, de onde foi extraído ADN.

Os Cinco dos Central Park Five
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Os Cinco dos Central Park Five

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O que aconteceu a Trisha Meili?

Os médicos não acreditavam que fosse sobreviver ao ataque de 19 de Abril de 1989. Quando foi encontrada em pleno Central Park, Patricia estava nua, amordaçada, coberta de lama e sangue. Além de sofrer de hipotermia, apresentava danos cerebrais graves, tinha uma hemorragia interna e tinha perdido entre 75 a 80% do sangue. Caso sobrevivesse, iria ficar em estado vegetativo, disseram os médicos.

12 dias depois Patricia acordou do coma. Acordou sem qualquer memória do ataque - ainda hoje não se lembra de nada do que aconteceu nesse dia.

De acordo com o New York Times, Meili tem uma "pequena cicatriz sobre a sua sobrancelha esquerda e uma ligeira depressão debaixo do olho". Ela também já não é capaz de sentir cheiros, tem algumas dificuldades na fala e problemas de equilíbrio.

Mas Meili não se deixou limitar pelos acontecimentos. Três meses depois, juntou-se a um grupo de corredores com deficiência. Em 1995 correu a Maratona de Nova Iorque!

Apesar de não ter memória do ataque, Patricia reconhece que não voltou a ser a pessoa que era antes do incidente.
Mas fez da experiência uma arma de combate e é hoje palestrante motivacional, que trabalha com vítimas de ataques sexuais.

Patricia Meili actualmente.

Patricia Meili actualmente.

New York Daily News Archive - Getty Images