Crónicas do Fidalgo

Experiências

Tiananmen: O “Homem do Tanque” e a Quinta Dimensão

Catherine Henriette - AFP Getty Images

A história serve, em parte, para nos dar raízes, contexto. Para nos ensinar e conduzir. Para nos provar que há um antes que até pode deixar adivinhar o que virá depois de nós. E para nos mostrar que há símbolos, protestos maiores do que nós.

É o caso do “Homem do Tanque, que estava em Pequim em Junho de 1989, na praça de Tiananmen. Por essa altura, na noite de 3 para 4 de Junho, o Estado chinês levou a cabo um massacre a centenas dos milhares de cidadãos (estudantes e operários) que se manifestavam. Uns porque acreditavam que o governo do partido Comunista era demasiado corrupto e repressivo. Outros, defendiam reformas económicas no país, movidos pelo peso da inflacção e do desemprego.

Nessa noite, milhares de manifestantes foram expulsos com tanques e outros tantos mortos a tiro, um pouco por toda a cidade.

Mas em pleno cenário de terror e repressão, um homem sozinho colocou-se à frente de um tanque, como se a força da sua determinação e nobreza de causa fosse capaz de o travar.

Jeff Widener - Associated Press

Como conta o Observador, pelo menos quatro fotógrafos profissionais (Jeff Widener da Associated Press, Stuart Franklin da Magnum, Arthur Tsang da Reuters e Charlie Cole da Newsweek) imortalizaram o momento.

Neste vídeo podemos ter uma noção ainda mais real do que se passou.

Um homem de camisa branca e dois sacos de plástico na mão põe-se à frente de tanques, em plena Avenida Changan (ou Avenida da Paz Eterna). O tanque pára e ele faz um gesto com a mão, como que a pedir-lhes para saírem dali.

O primeiro tanque tenta contorná-lo mas o homem move-se para o lado, como que a bloqueá-lo. Até que, após alguns segundos que pareceram eternos, o homem avança e sobe para cima do primeiro tanque, para falar com o condutor.

Os jornais da altura avançam com possíveis frases que o homem terá dirigido aos militares - se bem que, como indica o Observador - a veracidade destes factos é muito frágil. Uns dizem que o homem poderá ter dito "Voltem para trás, parem de matar o meu povo”. Outros avançam com um possível “Vocês só criaram problemas, a minha cidade está um caos por vossa causa”.

O momento de tensão só terminou quando três pessoas decidiram agarrar o homem e tirá-lo do meio da estada. Mas quem era o homem que sentiu uma coragem maior do que os tanques que tentou travar?

O anónimo - que seria demasiado velho para ser um estudante - ficou conhecido como o Tank Man ("Homem do Tanque" e até inspirou um documentário com o mesmo nome.

Depois de muita tinta e especulação, a identidade do Homem do Tanque continua na penumbra do mistério. E o que lhe aconteceu, também.

Jan Wong, correspondente do jornal canadiano Globe & Mail, estava na varanda do seu hotel quando as três pessoas atravessaram a estrada e incitaram o homem do tanque a sair dali. "Para quem já viu agentes de segurança a agarrarem cidadãos chineses, sabe que eles são brutais. Torcem o braço, fazem a pessoa dobrar-se, dão alguns murros, pontapés… Por isso, para mim, acho que ele foi ajudado por quem estava à beira da estrada. Não estava a ser detido”,conta, citada no mesmo artigo do Observador.

10 anos depois do incidente, em entrevista à jornalista norte-americana Barbara Walters, o então presidente chinês Jian Zemin afirmou, em mandarim: "Não posso confirmar se foi preso ou não”. Terminou, já em inglês: “Mas acho que… nunca morto”.

Facto é que, se o Homem do Tanque tiver sido identificado pelas autoridades chinesas, não terá tido uma experiência feliz. São bem conhecidas as histórias de repressão do regime, que levaram cidadãos inocentes à prisão por falarem com jornalistas estrangeiros, por exemplo. Não é difícil imaginar o que poderá ter acontecido a um homem que decide obstruir militares.

Um dos fotógrafos que registou o momento do Homem do Tanque, Jeff Widener - e que, graças a ele, acabou por ser nomeado para um Pulitzer - interrogou-se à BBC: “Questiono-me sobre o que lhe aconteceu, como toda a gente. Mas a grande questão para mim é, depois de um quarto de século passado, não só não sabemos quem ele é, como não sabemos onde estão os familiares dele. E o que aconteceu aos soldados do tanque? O que aconteceu ao condutor? Desapareceram da face da terra. Aqueles tipos tinham vidas, tinham famílias… Onde estão? Onde está toda a gente? Parece a Quinta Dimensão, desapareceram todos.”

30 anos depois aquela fotografia preserva o seu forte simbolismo.
30 anos depois, ainda não se sabe ao certo quantos morreram na noite de 3 para 4 de Junho de 1989 em Tiananmen. As autoridades chinesas confirmaram 241 mortos, incluindo 23 soldados. A Cruz Vermelha deu uma estimativa inicial de mais de dois mil, que depois retirou. Um memorando diplomático do embaixador britânico chegou a apontar para 10 mil mortos.

Mas quantas pessoas precisam de morrer para que se possa chamar "Massacre" ao que aconteceu? Para Al Pessin,antigo correspondente da Voice of America em Pequim durante Tiananmen, isso não importa. "Se tropas de um governo disparam contra civis, não tenho problemas em chamar a isso um massacre. E quem não quer chamar a isso Tiananmen, porque tecnicamente não foi na Praça, está a higienizar a História. É como chamar ‘eventos’ ao 11 de Setembro. É uma palavra algo fraca para o que aconteceu.”

Mas é precisamente isso que as autoridades chinesas fazem actualmente, quando falam do que aconteceu em Tiananmen, das poucas vezes que o fazem. Usam o termo "o incidente de 4 de Junho".
Semanas após a repressão, o silêncio começou a impor-se na China. Al Pessin recorda ao Observador: “As pessoas compreenderam a mensagem e passou a haver muito medo em Pequim, nessa altura. Até mesmo quando se falava com algumas das pessoas que tinham estado envolvidas, elas começavam a repetir a propaganda do regime. Era como se tivessem corrigido o tom, porque estavam cheias de medo.”

Ainda hoje impera o silêncio no que toca ao "incidente de 4 de Junho". Parece até haver uma amnésia colectiva em relação ao que se passou. A prová-lo está uma experiência que a jornalista Louisa Lim fez para o seu livro,
"People’s Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited" (ou República Popular da Amnésia: Tiananmen Revisitada). A jornalista levou a várias universidades a imagem do Homem do Tanque e pediu aos estudantes para lhe expicarem que momento a fotografia retratava. Num universo de 100 inquiridos, apenas 15 acertaram.

O mundo recorda Tianamen e o seu Homem do Tanque. A China continua a apagá-los da memória.

A 14 de Maio de 1989, um dos manifestantes em Tiananmen motiva os colegas.

A 14 de Maio de 1989, um dos manifestantes em Tiananmen motiva os colegas.

Catherine Henriette - AFP Getty Images