Crónicas do Fidalgo

Experiências

A região que se chama vinho

Na última crónica escrevi sobre a casta Sauvignon Blanc e apontei a forma como a região de Pouilly Fumé enaltece a sua complexidade e como a Nova Zelândia a transformou numa das castas incontornáveis do mundo do vinho.

Nós por cá temos um terroir capaz de fazer o que a Nova Zelândia fez pela Sauvignon Blanc e temos também castas capazes de surpreender o mundo pelas características que o terroir e os enólogos conseguem incutir.

A região de que vos quero falar é aquela que tem nome de vinho, a região dos vinhos verdes. Por mais estranho que seja o próprio estilo de vinhos ali produzido, é tão forte e marcante que deu nome à região. A história é simples. Embora se contem outras, a mais real, a meu ver, prende-se com a fraca viticultura que a região tinha há séculos atrás. Consequência da policultura, as videiras eram plantadas nas “bordaduras” dos terrenos, suportadas nas árvores que limitavam as propriedades, e ali ficavam enroladas a estas formando a chamada “vinha de enforcado”. Este estilo de cultivo é um bom exemplo que explica a falta de maturação que as uvas tinham ao serem vindimadas, resultando num vinho verde, isto é, um vinho de uvas pouco maduras. Consequentemente, à falta de maturação, estes vinhos estariam com concentrações altas de um dos ácidos presentes nas uvas, o ácido málico, que é o substrato ideal para a chamada segunda fermentação - a Malolactica – que, quando presa numa garrafa, deixa ficar aquela “agulha”. Não é nada mais, nada menos do que gás carbónico.

Ora um vinho tão único como este, que em mais nenhuma parte do mundo se fazia, só podia dar o nome a uma região. O bom problema agora é que a região tem uma viticultura muito diferente daquela que lhe deu a fama e é capaz de produzir vinhos de uma qualidade e longevidade incomuns no mundo do vinhos.

Só temos agora de mostrar e afirmar que a região é muito mais do que aquilo que o mundo conhece. Talvez parar de chamar-lhe região de vinho verde seja um começo. Eu gosto de um bom vinho verde, mas gosto muito mais de um bom vinho da região a que chamam vinho verde.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho.

ID Hélder Cunha
Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).