Crónicas do Fidalgo

Experiências

Goodfellas - Parte 3 (a última)

Eram umas 10 da manhã quando a rapaziada acordou. Nada de ressacas, tudo bem disposto e com vontade de comer (Oeste rules).

Banhos tomados, calções vestidos e fomos à vila tomar o pequeno-almoço Já sentados delineámos a estratégia para este último dia. Sabia o que lhes queria mostrar e a volta que queria dar.

Acabei por, sem querer, ser o anfitrião deste lugar e não me importei nada com isso, deixou-me contente, na realidade. O trajeto seria: pegar nas motas, sair de Sagres, passar por Vila do Bispo, ir até à Bordeira e fazer o caminho de terra junto ao mar até ao Amado... e assim foi. Arrancámos pela nacional, passámos Vila do Bispo e, do nosso lado direito, à medida que vamos andando, encontramos um grande parque eólico. Faz-nos sentir tão pequeninos com as suas enormes pás a rodar lentamente! Tivemos sorte, o vento estava fraco e ainda bem para nós!

Primeiro pit stop: Bordeira. É uma praia com um areal extenso, costa Este, há dias com muito vento por ser uma praia aberta, mas os dias bons, são realmente bons...

Se seguirmos uma trilha junto ao mar, é possível fazer alguns kms de terra batida até à praia do Amado. É um caminho fantástico, com vários passadiços e locais construídos para vermos as paisagens em segurança. O terreno é algo sinuoso, diria que há motas melhores para fazer estes kms, e todos nós tínhamos 5 com a mesma cilindrada, o mesmo modelo, a mesma marca, mas tinham ficado em casa, com muita pena nossa. As
scramblers são motas que se encaixam perfeitamente em qualquer situação, mesmo fora do asfalto. Têm um centro de gravidade baixo, é fácil chegar com os pés ao chão (pelo menos, nas nossas), têm uma boa brecagem, não se negam a nada… Talvez o peso seja o único ponto negativo... e as que tinham ficado em casa, “jaaaaaaaaasus”, eram perfeiiiiiitas neste terreno! Provavelmente um de nós teria ido parar à agua com uma
delas… Felizmente, não aconteceu!

Praia do Amado à vista! Considerada por muitos a meca do surf no barlavento Algarvio, com alguma consistência durante o Verão, é passagem obrigatória para quem levar prancha. Sem mais demora disse-lhes: “Malta, temos de ir à Cordoama e explorar uns caminhos que conheço, vão adorar!” Acenaram com a cabeça e lá fomos... Na realidade, não me recordo se no Nuno acenou de forma afirmativa, creio que não...

Parámos no princípio do caminho que dá para a Cordoama, mesmo antes de começar a descer, já parados e a contemplar a vista, passa por nós um senhor aí com uns 80 anos, buzina a motocicleta dele, e diz: “Bora!!!” Olhámos todos para ele e só vos digo: era uma Yamaha DT 125, ferrugenta, plásticos azuis já gastos pelo sol e com aquele trabalhar de dois tempos, com o fumo do óleo a sair pelo escape... melhor, o senhor levava óculos escuros, um cigarro na boca, cabelo lambido por uma vaca, uma barriga de que se orgulhava, e não tinha capacete!!! Gostava tanto de lhe ter tirado uma fotografia, mas não tive tempo! Ele disse “BORA!!!” e o que vos vou explicar a seguir, só estando lá é que se percebe realmente o feito...

Então, quando ele diz “BORA!”, coloca a roda num precipício, com uma estrada de terra e pedras, e desaparece em segundos, nós nem tínhamos visto a estrada, aquilo era tão íngreme que a pé era perigoso, levámos todos as mãos à cabeça, obviamente... e passados 2/3 minutos ouvimos a mota ao longe, já tinha descido, e estava a subir outra montanha de inclinação muito acentuada... Em primeira mudança e lá ia ele... devagar, devagarinho, e subiu... Na realidade, ficámos todos com a sensação que o “BORA” era igual a: “Podem ter as motas, mas eu tenho os TO#”##”S!” tenho a certeza que o “BORA”, era isto!!! Verdade... Faltaram-nos mesmo!

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O Luís neste dia tinha uma camisola com uma mensagem muito fixe... E nós tínhamos de pegar nisto, fosse como provocação ou mesmo uma auto-crítica, e soube-nos bem. O mundo do Instagram está inundado com fotografias de pessoas a posar. Eu e o Nuno fazemos muito este género de fotografia com a saudade1979 (e, por isso, quem melhor que nós para aparecer nesta imagem). Ainda hoje, quando olho para ela dá-me vontade de rir! Luís, és o MAIOR! Alguma coisa tem de mudar, tens razão...

Fotografia feita e descemos a estrada de alcatrão que nos levava à Cordoama, todos caladinhos e com o rabiosque entre as pernas da lição de humildade (ou não) que nos tinham dado. Como seguia na frente, virei para um caminho de terra que já conhecia e disse: “Malta, desligar o controlo de tração e siga…!”

“Desligar o quê??” disse o Hugo... Upssss, é verdade, em 1982 não havia nada disto... “Tu não precisas” - disse eu - “vai com ele ligado!!!” É um caminho fantástico, com um piso algo irregular, mas devagar faz-se muito bem e as vistas compensam qualquer obstáculo que possamos passar.

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Estava uma tarde fantástica e acho que todos estávamos a aproveitar o momento para respirar e sentir o que aquela paisagem nos podia oferecer. Os olhos têm sempre aquela memória fotográfica que levamos connosco sem precisar de máquinas ou telefones.
Queria levar a rapaziada a tomar um banho de mar, restabelecer as energias gastas nos dias anteriores e o caminho por onde íamos leva-nos a uma praia pequena, escondida, entre um vale... Quem for adepto do naturismo, esta é a praia indicada.

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Como podem ver, neste grupo não há adeptos... boooom, é discutível, até porque só aparecem 4 na fotografia! Duas horas passadas e é momento de voltar. Teríamos que fazer o mesmo caminho para regressar, terra e pedras, eram o “alcatrão” da altura.

“Siga, malta?”... “Sigaaaaa” Ainda queria que eles vissem um último lugar. A Cordoama, de cima, é uma vista fantástica e fico sempre com a sensação que estou fora de Portugal. É tão bom viver num país que nos surpreende em cada paisagem, curva, ou lugar...

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Parámos alguns momentos para contemplar a vista e agradecer... Acho que não me vou alongar a falar do regresso. Regressar é sempre voltar à rotina, ao que já conhecemos, aos horários, ao trabalho, às pessoas... Gostava de terminar esta
crónica de outra forma. Gostava que, por algum momento, nestas palavras, tivessem sentido connosco, rido das peripécias e saboreado os lugares. Esta foi uma viagem de amigos que têm paixões comuns mas que diferem muito na personalidade e é esta diferença que faz tudo acontecer, que nos provoca, que nos retira da zona de conforto, que nos desafia e que nos ultrapassa...

Prometemos não ficar por aqui...
Este foi só o início...
Até já...
Num outro lugar,
O mesmo amanhecer...

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