Crónicas do Fidalgo

Experiências

Goodfellas! - Parte 2

O amanhecer...

Este lugar também tem um amanhecer especial, tem luz própria. O sol aparece lentamente por trás da montanha e desperta-nos para outro dia. Saí da tenda apressado e fui o primeiro a por o pé na rua. Sou nitidamente um homem das manhãs, a minha energia é sempre reposta durante a noite e gasta-se lentamente até ao cair da noite. Vesti uns calções, agarrei na máquina e fui direto à praia! E que praia... a areia ainda estava fria da noite, a água gelada, mas neste lugar, sinto que tudo é puro, o ar, os cheiros, os sons... serão lembranças que levarei para sempre comigo.

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Voltei lentamente ao acampamento depois de alguns minutos naquela paz. Surpreendi-me com os restantes membros já levantados, alguns com melhor aspeto que outros. Apesar de termos limpo o terreno na tarde anterior, há irregularidades na terra que se podem manifestar só na manhã seguinte, e assim foi. Algumas mazelas nas costas que se traduzem em estórias para contar mais tarde, ficou tudo bem.

Fazer a higiene diária, sim, sim, tem de ser... os feios, porcos e maus, ficam nos filmes de vilões, ok? Desmontar acampamento, arrumar tudo e rumar mais a sul.

Não sem antes ter que levar as motas areia cima até à estrada de terra batida que nos levava ao alcatrão. Conheço as potencialidades das motas, conheço os condutores das mesmas e disse logo: “Vou em primeiro, paro lá em cima e tiro-vos umas fotografias, pode ser? Mas tem de haver areia no ar, ok?” O Nuno tremeu por dentro, de certeza!

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Prova superada! Todos de parabéns! Chegados ao alcatrão, decidimos ir tomar o pequeno-almoço a Melides, numa panificadora que o Mike conhecia, e assim foi. Fizemos um pequeno-almoço de uma horinha, sem pressa alguma, falámos de assuntos importantes naquela mesa. Foi talvez o momento mais sério da viagem, trocámos ideias sobre a saudade1979, sobre as redes sociais de um modo geral e do Instagram em particular, do caminho que eu e o Nuno queríamos para nós, e concluímos que alguma coisa teria de mudar... Quem sabe a mudança não iria ocorrer nesta viagem.

Ainda houve tempo para uma fotografia com as motas alinhadinhas, com os guiadores para o mesmo lado, etc... porque se há coisa em que um fotografo é chato, é nestas coisas... na estética! Mandei dois berros no princípio da viagem, teve mesmo que ser, mal parávamos as motas e parecia a feira, cada um para seu lado... impossível conviver assim! Só vos digo, resultou mesmo, foram uns queridos até ao fim... Gostei, malta!

Neste segundo dia não havia um destino traçado, ao longo do dia íamos pensando onde ficaríamos. A nacional que liga esta parte da costa do país é maravilhosa, havia muito tempo para pensar e o nosso objetivo seguinte seria outro: dar um mergulho no mar. O sol já convidava e passados pouco kms chegámos a Sines (são Torpes), que vive do mito do esquentador na água, com uma central termoelétrica (isto é logo sugestivo, não é?) atrás da praia e que faz descargas através de uns tubos gigantes que estão por baixo da areia. E olha: nem é tarde, nem é cedo! Parar a mota, vestir o calção de banho e.... vamos lá ver se o mito não é mentira. Eu, o Hugo e o Mike fomos os verdadeiros Michael Phelps de São Torpes.

O Nuno e o Luís ficaram perto das motas, afinal dava muito trabalho, despir, vestir, secar, despir, e vestir tudo outra vez... aaaah o mito! Pois claro! Dizem que perto do pontão é que é, fica mesmo do lado direito de quem está virado para a praia, até delinearam a zona com aquelas bóias que marcam as pistas das piscinas, só para te levarem a pensar: “Se isto está limitado, é porque deve haver uma separação da água fria com a água quente... de certeza!!!” Fomos um bocadinho a medo confesso, eu fui! E para não me enganarem, pus o dedinho grande do pé, na parte divisória do lado esquerdo que seria a fria, e puuuut””##” que a p “#$%uuuu, estava gelaaaaaada, pensei!


Ainda bem que daquele lado das bóias há um esquentador por baixo da areia que fará este lugar parecer a Polinésia Francesa num dia de Verão! Só vos digo: o mito revelou-se FALSO! Estava igualmente gelada, o Hugo foi primeiro, e eu pensei: “Estes meninos do Oeste sim senhor, são rijos!” Não querendo dar parte fraca, lá fui eu... só sei que tudo latejava e diminuía de volume em mim... Mas fui corajoso e o Mike também... Foi um mergulho para lavar a alma…e lavou!

Como já tínhamos feito imensos kms desde que saímos do nosso primeiro acampamento - aí uns 45 - e a hora do almoço estava a chegar, o melhor seria mesmo parar novamente para encher o “bandulho”, e desta feita, Porto Covo era o lugar indicado para tal. Sentámo-nos à mesa, comemos e trocámos mais umas ideias e possibilidades para ficarmos nessa noite. Tudo indicava que ficaríamos em Aljezur, desta vez ou em parque de campismo ou em hotel/apartamento. Não tomar banho mais um dia é que nem pensar, pensaram alguns, aí uns 4 dos 5...

Como a “minha” vontade tinha sido feita no dia anterior, achei que viver em comunidade seria isto, ceder algumas vezes em troca de cedências do outro lado também... Aljezur, aqui vamos nós! Mas sugeri irmos a Odeceixe primeiro e todos acenaram positivamente. A praia de Odeceixe é exatamente a linha divisória do Alentejo com o Algarve. Aliás, há uma lagoa que faz esta divisão e, se souberes nadar, podes tirar fotografias no Alentejo e 3 minutos depois no Algarve, não é fixe?

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Conversa puxa conversa e Aljezur esperava por nós. Hora de ir embora e arrancámos de Odeceixe nessa direção. Já vos disse o quão boas são estas nacionais? São mesmo...

Antes de entrarmos em Aljezur decidimos ir ver a disponibilidade do parque de campismo para nos receber e havia muita disponibilidade, por um valor realmente baixo, e o banho era certinho! É engraçado como não sou adepto deste género de campismo, não me identifico, mas se for ali no meio do nada, longe de tudo, já acho espetacular! Vamos lá perceber uma coisa destas... Creio que nos pediam 80 euros com tudo, parque para as motas, espaço para as tendas, com o banho e tudo, que neste caso teria de ser dado por nós, a nós próprios, cada um a si obviamente! Está tudo bem, é o nosso dia-a-dia... E naquele momento alguém perguntou qual seria distância para o centro. 4kms, disse a senhora, são uns 45 minutos a andar! Ui, ui, ui... olhem, e irmos ver ao centro se existe alguma coisa por lá? Com 80 euros talvez consigamos! Assim foi, pegar nas motas, sair do parque de campismo e centro de Aljezur com eles. Numa era em que está tudo à distância de um clique, foi só procurar no telefone o que havia num raio de 500 metros e, para nosso espanto, não havia nada com disponibilidade!

Eram 17h30! E lembrei-me naquele momento... e se fossemos dormir já a Sagres? Estamos a 45 minutos deste paraíso, não custa nada e temos onde ficar, de certeza absoluta! E assim foi... Sagres, aqui vamos nós! Entrámos no ultimo percurso de estrada, o meu favorito. Há qualquer coisa de mágico nestes últimos kms, quem já fez este percurso sabe do que vou falar. A partir de uma certa zona, antes de chegar à bordeira, começa-se a sentir um cheiro particular de uma planta, algo doce diria, é um aroma que só sinto ali. E em Sagres podia ir de olhos fechados que sabia exatamente onde estava! Os nossos sentidos são incríveis, não são? Fizemos o caminho sem parar uma única vez e no último troço, já a entrar na vila, sinto um nervoso cá dentro. Sinto sempre, há uma mística de conquistador naquele lugar, talvez por ser banhado pelas duas costas e por ter o mítico Farol no Cabo de são Vicente... João o Conquistador!! Só que não!!

Fomos diretamente aos apartamentos que tínhamos visto no telefone. Eram 18h30 quando estacionámos as motas, fazer check-in, retirar as malas e não perder muito tempo, tínhamos duas horas de luz e eu queria que eles vissem o pôr-do-sol no farol. Eu e o Hugo éramos os únicos que conhecíamos aquele lugar. O Hugo já não ia lá há algum tempo, eu tenho ido todos os anos e continuarei a ir... Estava em pulgas para lhes mostrar aquele lugar e tudo à sua volta. O Nuno, o Mike e o Luís não conheciam, há muitas pessoas que não conhecem e espero sinceramente que se mantenha assim. Aquilo é mesmo mau, não vale a pena irem... Pegámos novamente nas motas, e como ainda havia algum tempo de luz, decidi levá-los ao caminho de Ponta Ruiva, sabia que o sol já estava baixo e que podíamos fazer algumas fotografias engraçadas. Desafiei-os a levar as motas para dentro de um campo de areia e o objetivo seria levantar areia, pó e o que houvesse no caminho, eu tratava do resto... O Nuno ficou ao meu lado como assistente de produção a dar indicações aos malandros e teve um papel ativo numa parte da sessão... É engraçado ver o entusiasmo com que eles olharam para as fotografias no final, acho que se sentiram importantes. Importantes no bom sentido, claro! Estão muito habituados a estar connosco, mas não a participar nas sessões, normalmente não são os protagonistas. Desta vez foram e soube-me bem proporcionar isso, deixou-me agradavelmente feliz.

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Fotografias tiradas, sorriso no rosto e chegava a altura de seguirmos até ao farol do Cabo de São Vicente. É ali que aos finais do dia as pessoas se reúnem, há um momento de contemplação do sol em que nos despedimos dele, em que o olhamos uma última vez naquele dia e isso é motivo para aplaudir. Todos batem palmas neste momento, nós e as restantes pessoas ali reunidas. É um momento único que se repete, dia após dia...

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“Chega de motas por hoje!”,alguém disse, e todos concordámos. Como os nossos apartamentos eram no centro de Sagres, dali, podíamos fazer tudo a pé, e assim foi. Tomar o esperado banho de água quente, vestir uma roupinha lavada, calções, ténis (ou sapatilhas, para quem ler isto no Norte), borrifar a roupa com perfume e lá fomos nós a caminho do restaurante, uma pizzaria bem boa mesmo no centro... Sagres tem algum movimento à noite, mais no Verão - nesta altura do ano nem tanto - e há dois ou três bares sempre abertos para quem quiser descontrair. Passámos por eles a caminho da pizzaria. Erro meu, pois claro, “já sabemos onde vamos depois de jantar!”... Ui, ui, ui...

“Joni, tu também vens!!!” Ui, ui, ui... e concordei. Se estamos juntos numa viagem, cedências eram necessárias... “Certo, depois de jantar passamos cá!”. Entrada no restaurante, todos pedimos e ouvi uma voz a dizer: “E para beber?”

Uiiiii... não bebo álcool, não gosto, não me dá prazer nenhum e, além disso, não bebo há anos!!! “Joni.... Sangria?” Como é que eu fujo disto, pensei... “Branca ou Tinta?”... Pronto, vai dar m””#”a!!! Ok, só bebo um copo e fica tudo bem, “Branca!!!”

Veio um c**rão de um jarro de 2 litros para a mesa, cheio de rococós, de florzinhas e moranguinhos e tinha mesmo bom aspeto!!! Mesmo, mesmo!! E estava geladinha também, escorregava que nem ginjas... No primeiro copo (sim, vão haver mais) o estômago estava vazio, bolas! E eu, parvo, sabia... e penalti com a malta! E ouve-se alguém dizer: “é mais um jarro, por favor!”. Pensei, “já foram 2 litros??????? E a pizza ainda nem chegou? Vai dar chaticeeeee de certeza...!” Lá chegaram as pizzas e eu ainda sabia perfeitamente qual tinha sido o meu pedido, o que quereria dizer que ainda estava bem, não era? A pizza era mesmo boa, mas o segundo jarro devia ter um furo! “Era mais um, por favor!” Esperem lá, nós somos cinco e já vieram 6 litros para a mesa? Vamos sair daqui a cantar o fado, pensei eu! E sabem quando uma pessoa se começa a rir sem vontade aparente? E rir-se mais do que o normal? Pois.... tenho a certeza que a mim me bateu mais que aos outros, mas estava bem-disposto, estávamos todos...

Obviamente que fomos os últimos a sair do restaurante, pedimos a conta, pagámos e lá para fora com eles apanhar ar fresco... Do restaurante até ao Água Salgada são uns 10 minutos talvez. Demorámos uns 40, tínhamos muito para falar uns com os outros de certeza... Entrámos no bar, música ambiente e umas 10 pessoas lá dentro a fazer a festa! Nenhum português, obviamente. Nós somos mais comedidos! Bom, com sangria no buxo talvez não... Olhámos para uma mesa de matraquilhos que lá estava e foi a noite quase toda ali!

Surpreendi-me a mim mesmo e fiquei surpreendido com todos, estávamos só bem dispostos... o bar nunca encheu e passado uma hora fomos todos embora, cansados, com sono e expectantes para o dia seguinte...