Crónicas do Fidalgo

Experiências

Goodfellas! - Parte 1

“É marcar a data!”! Foi esta a frase que deu início a esta pequena aventura. Conversa entre amigos e cervejas, entre música e risadas, alguém disse: “E se fossemos fazer uns kms todos juntos?” Olhámos uns para os outros em silêncio, e a resposta foi perentória: “Bora!”, “Siga!”, “Hoje?”. A partir desse momento, o tema da noite foi só esse, um passeio de mota, sem pressas, sem horários, sem lugares marcados... Lá fora, ouvia-se a chuva cair e o frio de Inverno não nos demovia o pensamento desta pequena viagem...

“Marcamos para 1 de Maio?” Já deve estar calor nessa altura, pensámos nós... e assim foi. A data chegou finalmente e o destino era para SUL. Sagres seria o fim da linha mas, até lá, tínhamos uma “longa” estrada para percorrer.

Dois dias antes da data marcada andávamos a fazer listinhas do que teríamos que levar ou não. Obviamente que quem anda de mota sabe que o espaço é limitado e a frase “ter o essencial” é mesmo para ser cumprida. Não há o: “vou levar mais uma coisinha”! Não há porque não cabe, se levares também tens que trazer e se for demasiado para lá, será para o regresso também! E o entusiasmo no regresso já é diferente, não é?

Decidimos que as tendas tinham que ir (um de nós queria muito viver essa experiência com amigos, longe de hotéis, de barulho, de poluição e mais perto da natureza, da praia e do som do mar. Neste caso era eu, mas isso não interessa nada!) Todos concordaram! Por isso, e como éramos 5, no mínimo teriam de ser 3 tendas, com espaço para duas pessoas em cada, sacos de cama, lanternas para a noite, mudas de roupa, e pouco mais, kit de furos e algumas ferramentas (como se fossemos para o deserto e ficássemos a milhares de kms de casa, e nada se resolvesse com uma chamada ao seguro de assistência em viagem, enfim...) Ah! e como dois de nós têm como paixão e profissão a fotografia, ainda tínhamos de levar o equipamento para registar alguns momentos da
viagem! E assim foi. No dia, tudo preparado, local e hora combinada, amanhã, partimos...

1 de Maio de 2019

Santa Cruz (local onde todos residimos), 9h30, café Parque (nome do café mais conhecido da zona)! Todos são naturais do oeste, tirando eu que nasci na cidade de Lisboa, mas com a qual me identifico pouco. Por esse motivo, as raízes estão todas nesta pequena vila. Era ainda criança e os meus pais tiveram a feliz ideia de comprar uma casa de férias, os verões e fins-de-semana eram sempre naquela praia, acabei por me enraizar com a terra, com as pessoas, com o lugar...

Primeiro a chegar - é uma característica minha - sentei-me na esplanada e esperei pelos restantes. Foram aparecendo a conta-gotas até o grupo estar todo reunido. As motas estavam prontas, carregadas - umas mais que outras - mas quando as olhava tinha a ideia de que um mês seria pouco para estarmos fora. E, afinal, eram só 3 dias.

Decidimos tirar uma fotografia juntos para assinalar o começo. Apostámos tudo num senhor de 85 anos que se mostrou muito proativo e como não havia mais ninguém por perto, ele seria a melhor e única escolha. “É só apontar e tirar, temos é de estar todos, pode ser?”

Obrigado Sr. Francisco, ficou perfeita!

Agora sim, fizemo-nos à estrada e decidimos ir até Lisboa pela nacional, até porque não temos horários a cumprir e as viagens por nacionais são sempre muito melhores! A velocidade é reduzida, as paisagens são sentidas de maneira diferente e as pessoas por quem passamos parece que nos conhecem há anos! Acho que sentem falta de um tempo em que o país era ligado apenas por estes caminhos, sem desvios de autoestrada ou pressas de chegar. Acenam-nos, nós sorrimos e retribuímos! Chegados a Lisboa fomos diretos à ponte 25 de Abril. A travessia de mota é um misto de voar nas alturas com sermos formiguinhas a atravessar o deserto, pelo menos é assim que sinto.... Veículos pesados, automóveis familiares e, lá no meio, a formiguinha, de mota e cabelos ao vento! Sorrio de tão bom que é!! Antes de sairmos tínhamos decidido fazer a serra da Arrábida, uma das mais emblemáticas e bonitas reservas naturais e protegidas de Portugal, com bom asfalto, curvas quanto baste e paisagens de cortar a respiração. Sempre que por ali passo tenho vontade de parar em cada curva e espreitar o que dela conseguimos ver, no seu cume. Há lugares onde podemos parar, foram “projetados” para isso, dando-nos assim alguma segurança. Deles, conseguimos ver as águas cristalinas que banham o Portinho da Arrábida e a costa de Tróia, de um azul incrível que se perde de vista.

Contempladas as vistas, dois dedos de conversa e a fome começava a apertar. E se Setúbal era já ali na frente, ficou decidido que choco seria o nosso almoço. Escolher um restaurante em Setúbal para comer choco frito é uma tarefa fácil, afinal todos o servem! O que não é fácil é chegar, sentar, comer e ir embora... Bom, a parte do sentar não é fácil, são filas em todos os restaurantes, do mesmo género de situação que vivemos há umas semanas atrás com a falta de combustível, sabem? Neste caso parecia que ia faltar choco durante umas semanas, ou meses, ou anos, e todos queriam comer esta iguaria. Foi esta a sensação que tive na altura e que partilho agora convosco. Motas estacionadas, restaurante escolhido, entrei e dei o nome. Dei, não... que não há tempo para o sr. Empregado escrever. Escrevi o nome numa lista de 16 pessoas à minha frente e lá esperámos.... Almoçámos muito bem, com água a acompanhar - e uma cerveja, vá, para alguns... Saímos do restaurante e eu e o Nuno, fomos contemplados com um presente dos restantes membros! Até ficámos comovidos, confesso! Só que não!

Esperem lá, vamos fazer aqui uma pausa para apresentar os membros do grupo:

Eu – João – Fotógrafo de profissão, apaixonado por veículos de duas rodas desde miúdo, culpa do meu pai que sempre adorou motas e as levou lá para casa. Ofereceu-me uma Yamaha DT 50 quando tinha 15 anos (ainda a temos). Eu e o Nuno (outro membro do gang) criámos uma marca há um ano que se chama saudade1979. Se ainda não viram, gostam de motas, fotografia e surf, passem por lá, tenho a certeza que vão gostar. Nesta viagem vou acompanhado com uma BMW Scrambler cinzenta.

Nuno – Fotógrafo de profissão, é um criativo. Tem sempre boas ideias mas às vezes fica só pelas ideias e precisa de alguém que seja mais ativo para concretizá-las. Estamos juntos no projeto saudade1979 e na profissão. Trabalhamos muitas vezes juntos e esta proximidade reflete-se também no resultado final. Adora motas, mas é um picuinhas do pior (adoro ser eu a escrever isto e ter a liberdade para dizer o que quiser). Para ele as motas não podem apanhar pó e os cadeados são feitos para serem usados, mesmo que seja só para ver a paisagem da Arrábida. Levar a mota dele para a areia nem pensar, nem em sonhos! Bem se tramou, como poderão constatar mais à frente. Nesta viagem vai acompanhado com uma BMW Scrambler verde.

Mike – Engenheiro de profissão, é o homem dos cálculos. Se o vento for mal calculado, tenham a certeza que se disser que dá chatice, vai dar mesmo, não trabalhasse ele com parques eólicos. Amante de motas, monta e desmonta tudo, gosta de perceber as metodologias feitas pelos engenheiros da marca. Com ele ao lado, tenho a certeza de que, se houver dúvidas que poderão ser resolvidas por cálculos, ele irá resolver. Nesta viagem vai acompanhado de uma Triumph Scrambler.

Hugo – Designer de profissão – o mais criativo de todos. Faz com que uma lata de cerveja pareça um copo de cristal. Dono do atelierventura, se gostam de design, vão gostar do rapaz. O Hugo é o mais descontraído, resolve tudo às 3 pancadas e põe tudo direito num instante. Disse-lhe que a mota dele não ia voltar para casa, e ele disse-me: “só se a roubarem”! Fez todos os kms e mais alguns, voltou sem problemas e tive que lhe dizer, no fim, que a mota dele surpreendeu mais do que qualquer outra! Nesta viagem vai acompanhado de uma Honda Bol’dor de 1982.

Luís – Empresário de profissão – nunca ninguém sabe ao certo o que faz um empresário, mas isso não interessa nada. Ele tem tanta piada que às vezes até me ria sozinho dentro do capacete. Para ele está sempre tudo bem, é só dizer horas e local e ele está lá. Gosta de passar os ensinamentos do pai e avô. Caro Luís, vou levá-los para a vida! É excêntrico na maneira como se veste (epá, estou a adorar estar neste papel de escritor!), mas é autêntico na maneira como fala e isso vale tudo. Nesta viagem vai acompanhado de uma BMW URBAN GS.

Continuando...

Saímos todos do restaurante, e eu e o Nuno fomos contemplados com um presente dos restantes membros! Até ficámos comovidos, confesso. Só que nãããão! Há uns tempos atrás fizemos umas fotografias com uma enxada. Calhou estarmos a fazer uma sessão fotográfica, haver este objeto peculiar de seu nome enxada e lá foram os criativos: "E se usássemos isto nas fotografias?" Claro que a resposta foi logo: SIGA! Estes nossos companheiros acharam muita piada à situação e resolveram dar-nos um ancinho para usarmos na viagem. Podem ter a certeza que foi bastante útil no primeiro sítio onde ficámos! Óbvio que rimos que nem uns perdidos da situação, foi um belo presente.

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Saídos do restaurante, fomos diretamente ao cais de Setúbal para apanhar o ferry para Tróia. Quem nunca fez esta travessia, é uma experiência a colocar na lista. São apenas 20 minutos, se tanto, mas a travessia faz-se entre conversas, mar e a península de Tróia ao longe. É uma viagem curta mas muito agradável.

O desembarque é super rápido e em 5 minutos está tudo fora do ferry e pronto para fazer mais uns kms de estrada. Antes de sairmos tínhamos decidido parar na Comporta para fazer algumas compras (o jantar), já que o lugar onde íamos pernoitar era longe de qualquer civilização. Compras feitas e ainda houve tempo para uma coca-cola, uma cerveja e dois dedos de conversa. Onde vamos ficar? É longe? Vamos chegar de noite? (Pareciam umas crianças). Eu sei onde vamos ficar, não se preocupem! Fica entre Tróia e Sines e é um lugar encantado (estas últimas palavras, não disse). Todas as compras nas motas, estes seriam os nossos mantimentos para a uma noite. E siga a viagem! Continuámos por nacional até fazer um desvio pelo meio de um pinhal, o sol já baixo entrava pelos ramos das árvores, tinha aquela cor dourada de final de tarde. Respira-se ar puro neste lugar e o silêncio, esse, só é interrompido pelo barulho dos motores das nossas motas. Todos me seguiam com a expectativa em alta. Não sou líder nenhum, admito, não tenho vocação para tal, mas quando ando de mota, sinto-me bem à frente, sempre com a preocupação de estar de olho na restante comitiva, sempre a impor o ritmo em que todos se sintam confortáveis. E assim foi até chegarmos ao lugar. A opinião foi unânime: Que sitio incrível!! Chegámos ao fim do caminho de areia, com as motas a passar os testes com distinção e com o Nuno, sem dar parte fraca (devia estar a rogar pragas, caladinho). Muito bem, Nuno! Não se ouvia nem via ninguém, a praia era “só nossa” e aquela luz de final do dia até arrepiava os pelos dos braços. Há lugares assim, não há? Em que quando lá estamos parece que o tempo para? Não parece? Assim sentimos naquele dia... Restava uma hora, se tanto, para o sol desaparecer, retirar tudo das motas e escolher o lugar perfeito para montar os T0, limpar o terreno com o presente que nos tinham oferecido e tudo pronto para o cair da noite. Não sem antes de tirar uma fotografia com a vista (um à parte, aparecem sempre 4 pessoas nas fotografias, mas eu juro que também fui, ok?) de um pôr-do-sol magnifico, parecia Verão...

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A noite caiu rapidamente e a luz que outrora era do sol, deu lugar a um céu negro e cintilante. É um facto que quando nos afastamos dos grandes centros urbanos e da luz artificial da rua ou da poluição gerada por automóveis e olhamos para o céu, parece que tudo se torna mais nítido, parece que nasceram o triplo das estrelas e que nós ficámos mais perto delas. Mesmo sendo só sensação, vale muito a pena ter esta experiência. O universo mostra-se na sua plenitude e ele, às vezes, diz tanta coisa... A boa disposição reinava no grupo, a fome apertava. Ah!! Ainda não vos disse, mas a rapaziada do oeste come imenso! Ou estávamos a andar de mota, ou a comer, juro! A mim chamavam-me pisco, mas eu tenho a ideia que como para viver, não para hibernar como um urso no Inverno, certo? Tínhamos levado umas mantas todas XPTO’s que orgulhosamente exibíamos nas motas, faziam cenário com o mood da viagem, mas que tinham também uma utilidade: servir de mesa de refeição. E assim foi, candeeiros acesos, mesa montada e demos início ao nosso manjar. Entre conversas sérias e outras nem tanto, percebi que estes momentos também servem para nos conhecermos melhor e para nos unirmos ainda mais. Aprendemos muito uns com os outros. Pelo menos, tentámos... Já nos conhecíamos há algum tempo é certo, mas privar assim desta maneira, 24 horas por 24 horas, foi a primeira vez em grupo e saímo-nos bem. Há sempre estórias para contar e ficámos umas duas horas a partilhá-las, até que o mais calado do grupo (eu) disse, “bora” dormir? Estávamos cansados, não por andar muito - na realidade tínhamos feito apenas uns 160 kms, se tanto - mas parámos muitas vezes, monta, desmonta, filas no restaurante, ferry, Comporta, montar acampamento, contemplar as estrelas (esta parte não custou nada), mesmo! Às vezes penso (e acho que a maioria das pessoas que conheço partilha da mesma opinião), a logística da mota é bem diferente da do carro. Aqui o esforço é todo dirigido para o nosso corpo, mochilas, peso da mota, vento contra, capacete na cabeça, rabiosque no banco, há um sem fim de fatores que nos fazem chegar ao destino com uma energia diferente, não mental, mas física, e há viagens que devem ser uma superação. Não foi o nosso caso! Tudo para dentro das tendas, disse eu! E assim foi, noite descansada a ouvir as ondas a rolar na praia, e todos os outros barulhos de uma vida animal que vivia lá fora. Neste silêncio o som é aumentado umas 40 vezes e tudo parece que está mesmo ali, do outro lado do tecido da tenda...

Reparem bem no cadeado da mota do Nuno! Diga-se ainda que tinha também o alarme ligado e que nós estávamos, deixem cá pensar... A 3 metros das motas? Se o alarme disparasse aqui, ouvia-se em Sagres de certeza! E eu teria um ataque cardíaco, mas ele não quer saber disso! Noite descansada...