Crónicas do Fidalgo

Experiências

PELA TERRA DOS BAIRROS

Há poucas regiões de vinho em Portugal a que se possa chamar “País Vinhateiro”, como afirmou, em 1867, António Augusto Aguiar, reconhecido professor, político, cientista e autor de várias bibliografias de Química e Enologia, referindo-se à mancha de vinha na Bairrada.

A história recente de “illos Barrios”, ou melhor, da Bairrada, onde em cada esquina há um lugar com o nome bairro, está intimamente ligada aos espumantes que ali se fazem. Mas eu quero falar-vos dos tintos que sempre se fizeram nessa região, muito antes das caves ali se instalarem e da intenção de vir a produzir o “Champanhe Português”.

Na semana passada fui ver como estavam os nossos vinhos a envelhecer, nas barricas e tonéis que para lá temos. Ali mesmo perto, em Aguim, onde tinham fama os tintos, reza a história que se faziam vinhos elegantes, equilibrados e de um pH que raras vezes ultrapassava os 3,4. Se pensarmos que os vinhos tintos do Baixo Alentejo nascem com um pH perto do 4, dá para perceber do que estou a falar.

A Bairrada faz ainda hoje tintos com uma frescura única, capazes de envelhecer décadas, melhorando com o passar do tempo, e que não são para qualquer “bico”. Esta frescura vem não só da influência Atlântica que ali se faz sentir, mas também dos solos calcários e do pH alto, que ajudam a reforçar o caráter da casta rainha ali plantada.

Esta região onde os tintos passaram um mau bocado - pois deixaram de ser amados - está agora rejuvenescida, com vinhos de origem na casta Baga, que se assemelham cada vez mais aqueles que deram a fama à região há centenas de anos atrás. São vinhos que não precisam de muita intervenção do enólogo, já que as suas características naturais permitem a quem o faz pouco ter de fazer.

Há poucas regiões no mundo que consigam produzir vinhos destas características e as que conseguem têm uma diferença grande em relação aos da Bairrada. É que, pela mesma qualidade, pagamos bem menos de metade do que, por exemplo, por um bom Barbaresco Italiano.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho

ID Hélder Cunha
Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).