Crónicas do Fidalgo

Experiências

O Sol em garrafa

É realmente impressionante o nosso domínio no mundo, em relação aos vinhos generosos, também chamados de vinhos tratados, fortificados, beneficiados ou vinhos finos. Somos, sem qualquer dúvida, os líderes em qualidade e quantidade neste vinhos que o enólogo deixa ficarem doces e aos quais se adiciona aguardente vínica.

Numa destas crónicas, já falei deles. Mas sabe como se fazem os vinhos generosos?

Esta semana estive por terras sadinas, onde reina o Moscatel de Setúbal. É um vinho feito a partir da casta homónima, Moscatel Graúdo, mas que, a certa altura da fermentação, o enólogo decide fortificar. Sim, fortificar, dar mais força, isto é, adicionar aguardente e fazer subir abruptamente a graduação alcoólica.

Ora vejamos, a fermentação é um processo natural de transformação do açúcar que existe nas uvas em álcool. E são as leveduras, ou fermento, que o faz, libertando gás carbónico durante o processo. Quando a meio da fermentação adicionamos aguardente - na maior parte dos casos com uma força de 77% de álcool - acontece que as leveduras morrem e deixam para trás açúcares que ficam por degradar e por transformar em álcool, resultando num vinho de maior grau alcoólico e ao mesmo tempo doce.

Faz-se um pouco por todo o país. Como resultado, temos vinhos como os abafados de Almeirim, o vinho do Porto ou até o vinho da Madeira. Mas ali em Setúbal resulta como “o sol em garrafa”. Esta expressão é da autoria de Léon Douarche, que na primeira metade do séc. XX foi Diretor do OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho). Na altura, Douarche referia-se à tonalidade dourada destes vinhos.

Os vinhos generosos desta região são diferentes porque, além de terem origem numa das castas mais aromáticas do mundo, são também produzidos recorrendo a curtimentas prolongadas após a sua fortificação. São vinhos de um carácter único e que podem envelhecer centenas de anos.

Se ficou curioso, procure saber o que são os vinhos da “Roda” ou os “Torna Viagem”. E se os conseguir provar, vai sentir o que é uma das melhores relíquias que somos capazes de produzir.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho

ID Hélder Cunha
Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).