Crónicas do Fidalgo

Experiências

A viagem ao Pêra-Manca

Eu, João Teixeira da Adega Cartuxa e Hélder Cunha

Eu, João Teixeira da Adega Cartuxa e Hélder Cunha

Um simples convite para um lançamento de uma “pomada nova”, o Pêra-Manca Tinto 2014, da Adega da Cartuxa da Fundação Eugénio de Almeida, tornou-se numa experiência que me fez recuar no tempo e voltar a sentir-me fora da caixa. Uma caixa onde as sensações são primordiais para as emoções tomarem conta de nós. No fundo, o que preciso enquanto actor. E todos nós, enquanto humanos. E estes seres enólogos vivem esse mundo. Falarem sobre vinho, a produção do mesmo, o tempo de espera, a expectativa que se cria para quando finalmente, estiver à nossa frente, pronto para ser apreciado, nos deixar completamente indefesos. Os aromas que nos fazem recordar outros aromas, que nos transportam para lugares onde nos deixam sem defesas.

Afinal, o Homem cria o vinho para depois, ele próprio tomar conta de nós. Quem cria sabe o que precisa para ter um vinho de excelência, o terroir certo, as castas apropriadas, as barricas, a decisão de vindima no momento ideal e o acompanhamento ao longo dos anos que o vinho assim obriga.

Ontem, foi isto que me aconteceu. Não sou enólogo nem um pouco entendido em provas, não tenho a experiência para chegar a este patamar, mas sou um homem apaixonado pela vida e apaixonado por uma mulher e ontem percebi que por mais que nós criemos a nossa mulher ideal e ela até possa aparecer, irá sempre deixar-nos completamente frágeis porque não esperávamos que viesse com carácter, personalidade, angústia, sofrimento, alegria pelo que já viveu, defesas que já tem.

E em vez de deixarmos que isso mesmo nos cative, nos envolva, nos emocione, aceitando de braços abertos o desconhecido, defendemo-nos, rejeitando tudo o que nos causa insegurança. Ao fim ao cabo, também nós somos o vinho de alguém.

Ontem, fez-se luz. A luz do vinho. A luz sedutora do tinto indomável que me deixou sem chão e que me trouxe a felicidade. É assim que eu vejo “esta gente”, do mundo vinícola. Uns eternos românticos, sedutores, amantes do amor que lhes traz vida. O prazer de saborear um Pêra Manca 2011, e nunca mais encontrar um amor igual, como dizia um amigo que conheci naquela mesa recheada de românticos e românticas. “O vinho mais equilibrado que provei e até hoje tenho na minha mente”. Para este Pêra-Manca 2014 a minha aventura consistia em deixar que este vinho me invadisse com os seus aromas que não sabia descrever, mas que me fizeram viajar. No momento em que o deixo entrar em mim, pela minha boca, onde os meus lábios são os privilegiados pois são os primeiros, e começa a vaguear por toda a minha carne, as lágrimas apareceram, a relação acontece.

Deixo-me levar pelo seu entusiasmo ao conectar-se comigo e ele próprio desfrutar desta aventura. Sou acordado pelo Hélder, a perguntar como me sentia, se consegui dar nome aos aromas. Eu respondi: “Sinto amor”. Ele riu-se e lá me disse o que poderia sentir, mas sempre com a noção que cada um sente como sente. O que acontece, é uma experiência de vida que nos irá aprimorar a cada prova. Tu és este vinho que entraste na minha vida, me devoraste e me deixaste sem defesas. Lutei contra ti, mas sei que quero descobrir que os dois nos vamos devorar, amar, sofrer, apoiar e aprender um com o outro a arte de nos saborearmos e sentirmos, a pureza desse sentimento que nos deixa sem chão. Porque ele não existe. Entretanto, a hora chegou de regressar a Lisboa e agradecer a cada pessoa presente neste jantar a oportunidade de absorver a sua experiência, sabedoria e o seu amor pelo vinho. E a ti, Hélder, meu amigo, obrigado por apareceres na minha vida há cinco anos. E contigo, a Ana e os teus miúdos. Quanto a ti…