Crónicas do Fidalgo

Experiências

Que levante o dedo quem acha que Rosé não é vinho!

Chegou a Primavera e com ela chegaram as manhãs frias e as tardes quentes. O Sol já se põe mais tarde e o calor que se sente antes de ele cair pede mais.

E mais pode ser apenas um copo de vinho antes de começar a preparar o jantar. Mas como já está quente para apetecer um tinto e ainda não está calor suficiente para pensar num branco geladinho, decide ficar pelo “meio”... e servir um rosé.

É então que alguém diz ou pensa... Mas rosé não é vinho, pois não? Este cliché já passou à história, mas não totalmente. Ainda se ouve proclamar aqui e ali, nem que seja por carolice. O rosé é vinho, sim! E se olharmos para a história do vinho, percebemos que qualquer tinto não era, em tempos, mais do que um rosé ou clarete.

Pelos anos 600 AC um grupo de comerciantes conhecido por Focenses provenientes da cidade grega de Foça na Ásia menor, viajou (levando vinho na bagagem!) pelo território que é hoje a Turquia em busca de novas rotas de comércio, até encontrarem uma linda baía mediterrânica onde se estabeleceram. Chamaram-lhe Massalia – hoje, a cidade de Marselha – e ali começaram a importar videiras e a produzir vinho.

A sua forma de produzir era básica, mas ainda hoje atual. Consistia em colher as uvas, esmagá-las para obter o sumo – ou mosto, em enologia - e deixá-lo fermentar. A chamada fermentação em bica aberta, sem qualquer curtimenta, isto é, as partes sólidas das uvas, não fermentavam com o seu sumo. Sabendo que a cor do vinho é extraída das películas das uvas facilmente se percebe que os vinhos não eram mais que claretes, vinhos com pouca cor. Quando os romanos conquistaram Massalia e lhe mudaram o nome para Massilia, em 121 BC, chamaram a estes vinhos “Vinum Clarum”, proveniente da primeira província romana, Provence.

Só no ano 1300 DC é que, na obra “O segredo dos segredos”, o Irlandês Jofroi Waterford dá o nome rosé a estes vinhos de cor clara. E só em 1680 é que o termo é incluído no dicionário francês de Pierre Richelet. Este estilo de vinho sempre esteve associado ao poder e à aristocracia. Tanto no tempo em que os Gregos dominavam, como quando o Papa Clemente V mudou o assento Papal para Avignon eram estes os vinhos na moda. Em 1682 é finalmente apresentado na corte de Luís XIV o primeiro vinho denominado Rosé proveniente de Argenteuil, Paris. Anos mais tarde, a região de Tavel torna-se a primeira DOC de Rosé. Mas hoje é a DOC Provence que ainda domina e lidera “a moda” dos vinhos rosé.

Nós por cá produzimos durante décadas o vinho mais vendido do mundo, que era rosé. Nestes últimos 5 anos temos feito uma revolução silenciosa no estilo de rosé produzido em Portugal e as vendas destes vinhos estão a crescer, em todo o mundo.

Depois desta viagem no tempo, ainda continua a achar que Rosé não é vinho?

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho

ID Hélder Cunha

Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).