Crónicas do Fidalgo

Experiências

Viagem a Arraiolos e a Yamaha Super Ténéré 1200

Estava eu preparado para um trabalho em Arraiolos quando, por razões logísticas, cancelaram um dia antes de partirmos.
Graças à minha amiga Teresa Godinho, do Turismo do Alentejo, tinha planeado passar por lá no fim‑de‑semana, uma vez que o trabalho só iria acontecer durante o dia de Sexta-feira.

Na noite em que o meu Benfica “espeta três papos-secos" ao Dinamo Zagreb, recebo a tal notícia do cancelamento. Achei por bem não cancelar a minha viagem e por duas razões: para fugir de Lisboa e para me fazer à estrada na Yamaha Super Ténéré 1200, que tenho para andar até me apetecer devolvê-la… [Risos]

A viagem não é grande mas o bom tempo que vinha para o fim‑de‑semana transformava qualquer percurso numa boa viagem.

Sexta-feira, lá estava eu a planear a viagem e a não conseguir dormir, parecendo um menino, mas lá acabei por ser vencido pelo cansaço.
Nove da manhã, ja estava a acordar com a luz do sol a entrar pela janela que me tinha esquecido de fechar e com várias mensagens de um grupo de amigos que tenho, a incentivar-me a apanhar umas ondas. Lá tive que ceder, pois também não tinha pressa em chegar.

Praia do Castelo. Meio metro coca-cola, durante uma hora e na melhor companhia, os meus irmãos Helder, Miguel e Diogo. Ainda deu tempo para um caldo verde antes de pegar na Super Ténéré.

A Super Ténéré

A Super Ténéré

Falando desta menina. Como já é sabido, não é o meu estilo de mota mas desde que fiz as Rotas dos Vinhos e andei com uma BMW GS 1200R, fiquei com vontade de voltar a experimentar uma mota semelhante. Quis o destino que tivesse nas mãos um ícone deste segmento!

Uma posição de condução perfeita e uma manobrabilidade excelente no trânsito de Lisboa. Em auto-estrada é super segura a velocidades acima do permitido.

Aqui vão algumas especificações:


. Robustas jantes em alumínio com raios e pneus sem câmaras-de-ar;

. Painel de instrumentos LCD com indicador de posição da velocidade engrenada;

. Altura do banco regulável entre 845 mm e 870 mm;

. Depósito de combustível de 23 litros e banco duplo sem costuras;

. Malas laterais, vidro alto, chapa de protecção, faróis de nevoeiro;

. Motor de 2 cilindros em linha e 1199 cc, com refrigeração líquida;

. Veio com amortecedores de choques de transmissão em borracha;

. Prática suspensão electronicamente ajustável;

. Controlo de tracção, controlo da velocidade de cruzeiro e Yamaha D-MODE;

. Sistema YCC-T com sistema de controlo de tracção (TCS) de 3 níveis;

. Componentes robustos e elevada durabilidade;

. Inteligente sistema de travagem unificado.


A experiência que tenho não é a suficiente para vos falar dela fora de estrada, mas não tenho dúvidas que não desilude nem irá deixar qualquer motard experiente desiludido.

Em baixo fica o vídeo oficial onde podem ouvir um dos motards mais experientes da actualidade. Podem saber mais aqui.

Uma só paragem para contemplar o dia e beber uma águinha fresca, pois os 23 litros de autonomia são mais que suficientes. Confesso que parei por instinto, pensando que estava na hora de abastecer. É que o depósito da minha menina Sportster é de quase 10 litros... [Risos]

Cheguei quase uma hora antes do pôr-do-sol, de propósito para vê-lo no ponto mais alto de Arraiolos: o Castelo. Este castelo que só tem a muralha e que se destaca por ser um dos raros exemplares de planta circular.


Qualquer pôr-do-sol se torna mágico pelo momento em que estamos, pelo seu contexto, e este fez-me recordar as longas viagens que já fiz na companhia deste sol com o céu avermelhado.

A porta do castelo que está apontada para Santarém

A porta do castelo que está apontada para Santarém

Esperava-me um bom quarto na Pousada do Convento de Arraiolos, onde fui muito bem recebido.
Um local com muita história e bastante acolhedor, com várias salas de convívio que se espalham pelo convento. Todas elas em volta de um espaço central onde as laranjeiras fazem a delícia dos passarinhos que encantam com o seu chilrear, ecoando de forma nostálgica, para mim.
Há qualquer coisa nesta imagem e neste som que me remonta para um outro lugar de estado de espírito, parecendo uma sensação nostálgica. Deixa-me em paz.

Depois do pôr-do-sol deu para apreciar a varanda que o meu quarto oferecia. Os sons habituais foram substituídos pelos do campo, o que me fez pegar no livro que ando a ler - e que já devia ter acabado de ler. Acreditem, já passou muito tempo.

Chegou a hora da fome avisar e lá fui ao restaurante típico de Arraiolos, o Alpendre. Um espaço com uma estética bem local e muito acolhedora. Bem atendido e bem servido com uns cogumelos de vinagrete e uns ovos escalfados com molho de tomate para entrada e uma sopa de esparguete com gambas como prato principal.


A escolha do vinho teve a ajuda do meu amigo Hélder Cunha - podem conhecer melhor os seus projectos no website e no Instagram - porque a garrafeira dos tintos nem vem no menu. Imaginem a diversidade que estes senhores apresentam. Levei uns bons 5 minutos até que vem ter comigo o proprietário do restaurante juntar-se á “ mesa redonda” na decisão do vinho. Lá se escolheu uma “pomada”, tinto reserva de 2007, Altas Quintas.

Levei o meu tempo a apreciar este jantar e a tratar-me bem. Um vinho destes só para um homem tem que ser apreciado com tranquilidade. Após uma hora e meia, lá veio a boa mousse de chocolate e um café muito bem tirado. Depois disto, estava pronto para o descanso do guerreiro.

Devem imaginar o bem que sabia ter a minha Kapten para me levar até ao convento!

Mas lá tive que levar a minha Super… à mão! Claro...

O castelo pela noite dentro

O castelo pela noite dentro

Sábado

Dia bom para ficar a curtir o calor que sentia com o sol a bater na enorme janela com vista para o campo. Um belo quadro. Abro a porta envidraçada e lá tinha a companhia dos meus amigos dos campo, aves, ovelhas e a brisa que se ouve. É tão tranquilizante. Não há melhor acordar que este.

A minha janela para o campo

A minha janela para o campo

Tudo a tempo de ainda apanhar o pequeno-almoço. Bem apetrechado e completo para começar o dia. Precisava de escrever e de ler o meu livro. Ainda pensei em procurar um lugar para fazê-lo, mas tinha a varanda do meu quarto. Dito e feito.
O livro que estou a ler - e que já devia ter acabado - chama-se "A Minha Luta - Livro 1: A Morte do Pai de Karl Ove Knausgård". Falaremos dele depois.

Depois da leitura, fui descansar na piscina para aproveitar os 25 graus que se faziam sentir. Quando me dei conta, já eram quatro da tarde. Ainda queria ir visitar o Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos. Ir a Arraiolos e não ir ao museu seria o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. De uma forma bastante simples e sucinta se explica a origem desta arte e as suas transformações até aos dias de hoje.

Em baixo, imagens do Centro Interpretativo de Arraiolos onde, além dos tapetes da região, estão sempre patentes exposições de artistas locais.

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Aproveitei para dar uma volta para apreciar as redondezas e voltar à Vila para para um lanche. A conselho da menina do Centro Interpretativo fui ter a um café bem simpático e acolhedor onde fui muito bem recebido pela D. Teresa Alves, que me pôs a par da agenda cultural da Vila enquanto comia a minha bela torrada acompanhada por um café. Impressão minha ou em Arraiolos tiram-se bons cafés?

O café da D. Teresa Alves

O café da D. Teresa Alves

Chegava a hora de um novo pôr-do-sol e depois de uma bela prosa com a Sra. Teresa Alves, voltei para o “local do crime”, o Castelo, para o ver pousar. O sol. Todos nós já vimos vários, mas para mim este vai ser especial. A localização do castelo, a sua disposição circular em perfeita harmonia com o monte, o céu avermelhado, tal como ontem, e a pequena brisa, tornaram este dia especial. Claro que existem mais factores mas esses, guardo-os para mim.

Assim que cheguei ao convento, ainda pensei em procurar outro lugar para jantar mas afinal - e apesar de estar a escrever esta crónica - o propósito desta viagem foi mais introspectivo que turístico. Também se junta o convite que tive para jantar no restaurante do convento.


E a ementa foi: para entrada uns deliciosos ovos com farinheira; para prato principal, uma típica empada de galinha com tomate. O vinho é que ficou de fora mas a sobremesa não: um belo gelado de menta e chocolate. Rematado com um café daqueles a que esta vila já me habituou e uma contemplação sobre o que me rodeava na noite. A lua, os sons, pensamentos e o convento.

Domingo

Dia de arrumar malas, dia de regresso, dia de pensar na semana seguinte, dia pensar como foi a semana que passou, etc. Mas antes de partir ainda quis passar pelo café da Sra. Teresa Alves, que desta vez não estava.
Como eu gostava de a ter encontrado! Tinha muita gente e não deu para aquela prosa antes de me fazer à estrada. Mas a torrada e o bom café, esses, não dispensei! Também fui agraciado com uma prenda, um conjunto de preciosidades caseiras feitas pela Sra. Teresa. Uns biscoitos e uma compota.

Quatro da tarde e um sol mesmo convidativo para uma boa viagem de regresso. Senti-me nostálgico e resolvi vir sempre na Nacional 4 até Azeitão, onde bebi um bom café com um amigo que conheci nestas viagens. O Carlos Pereira, o homem das "Quartas em Azeitão" e da marca Gazoline.

Foi uma viagem em que deu para pensar em quem eu amo, de quem tenho saudades, com quem quero ou gostava de partilhar estes momentos. Gostava de, um dia, partir para uma viagem com os meus filhos… de mota!

E, contigo, gostava de partilhar a viagem da minha vida. Irei encontrar-te numa estrada tranquila, a estrada que nos irá unir para sempre.