Crónicas do Fidalgo

Experiências

Nem tudo o que é Espumante é Champanhe

No dia 8 de Março, “Dia da Mulher”, estive no programa da Cristina Ferreira na SIC para falar de vinho a mulheres. O convite surgiu da surpresa que fiz ao meu amigo José Fidalgo no mesmo programa, há umas semanas. Aceitei o desafio e selecionei uma série de vinhos para levar, para fazermos uma prova durante a conversa, na qual participaram também duas mulheres apreciadoras de vinho, a Bárbara Norton de Matos e a Isabel Saldanha. Durante a conversa, surgiu o tema do Champanhe. Eu tinha levado para a ocasião uma garrafa de espumante Monte Cascas Reserva Bruto Távora-Varosa 2013. E assim que viram a garrafa, veio à baila a palavra Champanhe. Aproveitei a ocasião para esclarecer que nem tudo o que é espumante é Champanhe. Só é Champanne o espumante que é produzido na região vinícola francesa com o mesmo nome.

Hoje a região de Champanhe é a “marca” de espumantes mais forte do mundo. Mas este reconhecimento não é novidade. Já em 1676 foi citado na obra de Sir George Etheredge, “The Man of Mode”, e rapidamente se tornou um sucesso, quer em Inglaterra, quer em França. A sua efervescência tornou-o um vinho extravagante que despertava os 5 sentidos e que, já na altura, era muito caro, tornando-se moda na aristocracia.

A produção de Champanhe sempre foi difícil, a princípio porque era descontrolada e os produtores não entendiam o mecanismo da segunda fermentação. Na altura, durante a vindima o vinho não terminava completamente a sua fermentação*. Quando na Primavera se engarrafava, o vinho acabava por fermentar os açúcares que faltavam dentro da garrafa. No Outono, as garrafas que aguentavam a pressão, causada pela libertação de gás carbónico da fermentação, sem verter ou rebentar, estavam efervescentes.

Foram precisos cerca de 100 anos para se entender a efervescência e conseguir transformá-la num processo controlado de espumantização. Este processo consiste em utilizar um vinho base com a primeira fermentação completa - isto é, sem quaisquer açúcares por fermentar - e colocá-lo dentro de garrafas especiais, com rolhas especiais, capazes de aguentar a pressão de uma segunda fermentação, que acontece “presa” na garrafa. Mas para se dar a fermentação em garrafa é preciso juntar ao vinho base as leveduras e açúcares suficientes para fermentar e fazer nascer a efervescência e a mousse que caracterizam um espumante. O processo não é simples, mas a excelência do produto final vale a pena.

Por cá, em Portugal, desde o início do século XX que as regiões de Távora-Varosa e da Bairrada utilizam o método desenvolvido em Champanhe, ao qual damos o nome de método tradicional. E já demos provas de que temos capacidade para nos afirmarmos no extravagante mundo dos espumantes. Pode não ser Champanhe. Mas é espumante... e do bom.

* a transformação dos açúcares presentes no mosto de uvas em álcool, com libertação de gás carbónico.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho

ID Hélder Cunha

Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).