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Experiências

"Digissexualidade": já ouviram falar?

Daily Mail

Que a tecnologia atingiu grandes níveis de desenvolvimento em todos os sectores nos últimos anos, não é novidade. Também não é novidade que a robótica e a inteligência artificial continuam a evoluir e que são produzidos, hoje, robôs capazes de agir quase totalmente como um ser humano. O que pode ser novidade para muitos é que a sexualidade não fica de lado nos progressos tecnológicos e hoje já é possível ter um robô para satisfazer fantasias sexuais. Ou até para um compromisso! A identidade sexual e a tecnologia expandem cada vez mais, e de modo cada vez mais convergente.

Heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade são as designações mais comuns. No entanto, a solossexualidade, a skoliossexualidade, a assexualidade, a grayssexualidade ou a demissexualidade, entre tantas outras definições, são novos termos para orientações sexuais que têm sido categorizadas, o que demonstra uma inclusão e evolução, assim como a complexidade das relações humanas. Hoje, foco-me numa identidade sexual que se encontra em emergência: a digissexualidade.

Actualmente, a ideia de que os humanos podem sentir atracção e manter relações emocionais com dispositivos digitais não está apenas limitada à ficção científica, ao cinema. Se não viram, vejam: "Her", de Spike Jonze, ou "Ex Machina", de Alex Garland, são apenas alguns dos filmes que tocam esta temática e nos deixam a pensar sobre o espectro das relações entre humanos e Inteligência Artificial.

O professor de filosofia Neil McArthur, da Universidade de Manitoba (Canadá), referiu ao Telegraph que as pessoas digissexuais são aquelas cujo apetite sexual é predominantemente satisfeito pelo mundo virtual. São, por isto, pessoas cuja identidade sexual primária decorre da utilização da tecnologia. McArthur acrescenta a esta ideia a de que as novas tecnologias servem, para muitas pessoas, como uma alternativa viável aos companheiros sexuais humanos. Esta noção pode ser alvo de grande estranheza, mas levanta questões.

Digissexuais são um grupo pequeno de pessoas que permanecerá sempre na sombra, ou a cultura da pornografia e a emergência de aplicações como o Tinder levarão a que esta identidade sexual se torne mais recorrente?

"É seguro dizer que a era do sexo virtual imersivo chegou”, referiu Neil McArthur em entrevista ao New York Times. Em conjunto com Markie Twist, professor de desenvolvimento humano e estudos de família na Universidade de Wisconsin-Stout, publicou um artigo denominado "The Rise of Digisexuality". Os autores definiram duas etapas da digissexualidade. A primeira, baseada na pornografia online, aplicações e brinquedos sexuais electrónicos, e onde a tecnologia serve como um sistema para realização sexual. Na segunda etapa existe um relacionamento mais profundo, através de tecnologias como a realidade virtual e a aumentada. Aqui incluem-se os robôs sexuais como substitutos aos parceiros humanos.

A segunda etapa da sexualidade leva-nos à emergência de robôs sexuais. Hoje, os avanços tecnológicos permitem que existam máquinas que falam e que mantêm - vejam bem - a temperatura humana. O objectivo é recriar uma companhia o mais realista possível. Jogos online e 3dx Chat, por exemplo, permitem a interacção sexual entre pessoas, recorrendo a avatares.

Os sexbots ou robôs sexuais são construídos à medida das necessidades humanas, para satisfazer os desejos dos seus utilizadores. Para Neil McArthur, “um número significativo de pessoas provavelmente usará sexbots como principal modo de experiência sexual”, referiu ao Telegraph.

Ao New York Times, McArthur acrescenta que sempre que existe um avanço na tecnologia, gera-se uma onda de alarmismo. Tal aconteceu com a pornografia, que se normalizou posteriormente.
O mercado dos robôs sexuais evoluiu de modo inacreditável. Existem empresas, como a Abyss Creations, que fabrica um robô sexual feminino com a possibilidade de troca de face, e equipado com sensores corporais, a “Harmony”. A boneca age como um ser humano, mantém conversas com o utilizador e responde ao toque. O valor destes robôs fixa-se acima dos dez mil euros. A filosofia por detrás da construção das máquinas é a de, para além de satisfazer as necessidades sexuais, fazerem companhia.

“Harmony”. A robô desenvolvida pela Abyss Creations

“Harmony”. A robô desenvolvida pela Abyss Creations

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Todos estes avanços geram questões e, claro, estranheza. Mas segundo um estudo publicado no Jornal Internacional de Saúde Sexual, o amor pelos robôs existe e a gratificação sexual possui várias formas. O estudo revelou que as experiências aparentemente não-sexuais podem produzir orgasmos, e que objectos inanimados geram prazer.
A verdade é que as opiniões se dividem e o The New York Times lançou uma notícia acerca de um grupo de activistas que iniciou uma campanha contra sexbots, com o argumento de que encorajam a objectificação das mulheres.

Por outro lado, existe quem defenda que a sexualidade digital permite inúmeras possibilidades, entre elas, o anonimato. Um exemplo dessa mesma opinião é Akihiko Kondo, de 35 anos, que se casou com um holograma. A sua família não aceitou bem a ideia, mas para Akiniko Kondo, não é justo não ter a liberdade para amar quem escolheu, e que todos os tipos de amor devem ser respeitados.

Um estudo apresentado pelo Telegraph concluiu que o impacto geral da digissexualidade pode ser positivo, ao permitir que as pessoas tenham mais prazer sexual, assim como novas experiências, especialmente para pessoas que lutam para encontrar parceiros humanos. Ainda assim, a maioria das pessoas ainda não está preparada para lidar com a emergência dos robôs.