Crónicas do Fidalgo

Experiências

Vinhos biológicos... amigos do planeta

Estive recentemente em França, um país que é uma referência mundial em matéria de vinhos e, nomeadamente, de vinhos de produção biológica. Se em Portugal o orgânico está na “moda”, em França é hoje uma realidade, com os vinhos biológicos a atingirem uma quota de 3,7%, sendo que as previsões apontam para uma quota de 7,7% em 2022.

Mas, afinal, o que é o modo de produção biológica?
Basicamente é uma forma certificada de produção, onde se seguem regras restritas e é proibida a utilização de produtos químicos e/ou sintetizados em pesticidas ou fertilizantes. Simplificando, é produzir sem deixar resíduos externos naquilo que comemos ou bebemos.

E que impacto tem isto na enologia?
Até 2012 não havia regras estabelecidas a cumprir pelo enólogo na adega. As uvas eram certificadas, mas não havia qualquer controlo sobre a produção dos vinhos. A partir do momento em que a União Europeia finalmente integrou a viticultura biológica com a enologia, começámos a ter vinhos rotulados como “vinho biológico”, e não apenas como “vinho de uvas de produção biológica”.

Para que um vinho seja biológico, o enólogo tem de cumprir na adega com a rastreabilidade necessária e obrigatória, tem de utilizar, sempre que existam, produtos enológicos também esses provenientes de produção biológica e cumprir os limites mais apertados no uso de sulfuroso. No final, tanto as uvas como o vinho são certificados por entidades que controlam as práticas e os registos deste modo de produção.

É verdade que todas estas regras são ‘amigas’ do planeta, mas o risco para o produtor é imenso. Há poucos locais no país onde produzir uvas em regime biológico é um risco moderado, como por exemplo na região da Beira Interior. No entanto, mesmo nesta zona do país, o viticultor pode perder toda a sua produção, como aconteceu na última vindima. Em anos em que o míldio (uma doença que pode atingir a videira) ataca de uma forma tão agressiva, não há como travar a sua força avassaladora, no regime biológico. Como em tudo, há sempre vantagens e desvantagens.

Os vinhos biológicos são pelo respeito e pela sustentabilidade da Terra. Para o consumidor fica a tranquilidade de saber que o ambiente foi respeitado e um sabor que, em princípio, será mais puro ou mais “terra a terra”. Cabe ao enólogo garantir a qualidade, mesmo com o esforço e risco que este modo de produção implica, para que o seu vinho biológico sobressaia e não fique atrás dos restantes vinhos do mercado.

Hélder Cunha
A minha vida é o vinho.

ID Hélder Cunha

Tenho 42 anos, sou de Cascais, estou bem casado e tenho quatro filhos lindos (3 rapazes e uma menina, que é a caçula). Licenciado em Engenharia Agro-Industrial e enólogo de profissão, fiz a minha primeira vindima em Napa Valley, Califórnia e a minha tese em Geisenheim, Alemanha. Depois de aperfeiçoar a minha enologia noutras empresas fundei a Casca Wines em 2008. Pelo caminho fiz a série de televisão Rotas do Vinho onde, com o José Fidalgo, partilhei o meu Portugal vinícola. Hoje faço vinhos em 12 regiões do país, e nos 60.000 Km/ano levo comigo o Cacau (um cão Labrador Chocolate).