Crónicas do Fidalgo

Experiências

A carne de sempre... feita com plantas (e em laboratório)

Para os que são vegetarianos por questões éticas, de saúde, por preocupações com o ambiente... Para os que o são por princípio mas sentem saudades do sabor suculento da carne, há boas notícias. Há, na verdade, "Alimentos Impossíveis".

É que a start-up americana Impossible Foods, de Oakland (Califórnia) comprometeu-se a desenvolver carne e lacticínios feitos à base de plantas, com aspecto e sabor semelhantes ao original. No Verão do ano passado já produziam 226 toneladas de carne por mês, para dar resposta à procura de 3 mil restaurantes. Tudo isto, como indica a brasileira Época Negócios, sem ferir uma única vaca.

Impossible Foods

"Comemos carne deste o tempo em que vivíamos em cavernas. E hoje em dia, alguns dos nossos momentos mais mágicos, em grupo, acontecem em torno da carne: os churrascos de fim-de-semana. Aqueles apetites nocturnos por fast food. As Terças-feiras de Tacos. Os cachorros quentes no estádio. Esses momentos são especiais e não queremos que acabem", afirma a empresa na sua missão. E continuam: "Usar animais para obter carne é uma tecnologia pré-histórica e destrutiva. A agricultura animal ocupa quase metade do território no planeta terra, consome um quarto da nossa água e destrói os nossos ecossistemas. Por isso, estamos a fazer algo em relação a isso: descobrimos uma forma de fazer carne através de plantas, para que nunca mais tenhamos de utilizar animais. Assim, podemos todos comer a carne que queremos, durante o tempo que quisermos.E salvar o melhor planeta do universo que conhecemos."

O target da marca são todos aqueles que, habitualmente, comem carne (piscando um olho a quem não come, uma vez que os ingredientes que utilizam são totalmente adequados a esta fatia da população).

A carne é feita à base de proteína de trigo e de batata, que dão ao produto a textura da carne e os componentes nutricionais necessários. E tantos os sabores como as cores e texturas se assemelham às da carne! É por isso que podemos ver os produtos da Impossible Foods declinarem-se em, não só hambúrgueres, mas também pizzas, tacos, baos, almôndegas... Bem, a aplicação é, também ela, exactamente a mesma que damos à carne dita "tradicional", a que estamos habituados.

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"Afinal a chave para o tão desejado sabor é a mesma molécula que faz com que a carne seja uma excelente fonte de ferro: "heme", explica a marca. Mas o que é isso?

"É uma molécula que é parte essencial de todas as plantas e animais no planeta. Encontra-se numa concentração excepcionalmente elevada na carne de animais. É essa elevada concentração que faz com que a carne tenha o sabor único da carne. Temos comido e desejado heme desde o nascimento da humanidade. Na Impossible Foods descobrimos como fazer muito heme sem animais. Para saber mais, é só clicar aqui.

Impossible Foods

Nos EUA há outra start-up que se dedica à produção de carne com impacto ambiental reduzido e livre de sofrimento animal. "Carne celular", podemos chamar-lhe, feita em laboratório. E tem mão portuguesa, ou não trabalhasse lá o engenheiro biomédico Vítor Espírito Santo, natural de Braga, que coordena o departamento de agricultura celular dedicado ao projecto "clean meat".

Estamos a falar, como explica o Diário de Notícias, de uma "pasta celular" com aspecto idêntico ao da carne picada e que pode ser usada na confecção de nuggets, hambúrgueres ou tacos. No fundo, esta carne é produzida a partir de uma amostra de células de músculo do frango, extraídas sem sofrimento e produzidas de forma sustentável.

Não podemos falar em "carne artificial" porque, na verdade, como explica Vitor Espírito Santo ao Público, o que a Just desenvolve não é uma reprodução ou falsificação da proteína animal. "É real meat", conta. Talvez em português a melhor designação seja "carne celular", ou "carne de laboratório" - ainda que esta última possa ter uma conotação negativa.

Na Just, como noutras empresas que se dedicam à criação de carne de forma artificial, usam-se "processos de cultura celular já descritos para várias áreas de investigação, como a farmacêutica e a médica”.

Tudo começou com células extraídas da raíz de penas de Ian, uma galinha branca, bem constituída, recrutada numa fazendo. De referir que este processo não implicou qualquer tipo de sofrimento para o animal. Saibam mais aqui.

Têm sido financeiros os obstáculos à comercialização deste tipo de carne, feita em laboratório. É que, como recorda o Público, o primeiro "hambúrguer-proveta" do mundo foi criado por uma equipa de cientistas holandeses com células estaminais de vaca. Os primeiros 140 gramas produzidos foram apresentados em 2013 e custavam algo como 250 mil euros!!!

Por isso é que, para reduzir custos, a Just decidiu substituir os componentes de origem animal do meio de cultura por proteínas e extractos de origem vegetal. E a empresa já criou e comercializa produtos como maionese e outros molhos, massa de bolacha e ovos. Sem ovos! Só com proteínas vegetais.

A Just tem o desenvolvimento de novos produtos na calha. Este é um exemplo.

A Just tem o desenvolvimento de novos produtos na calha. Este é um exemplo.

Just

A Just pretende, acima de tudo, criar um produto que possa funcionar como "alternativa à produção industrializada de carne". A população global está a crescer e, com ela, a produção de carne que terá custos ambientais progressivamente mais pesados, pelo consumo de energia, de água e pela emissão de gases com efeito de estufa. E há questões de saúde envolvidas! Como garantir Vítor Espírito Santo, citando análises nutritivas já feitas aos produtos da Just, a carne celular "é mais saudável", quando comparada com a carne industrializada.

À Impossible Foods e à Just juntam-se nomes como a Ripple, que fabrica produtos lácteos à base de ervilhas, e a Beyond Meat, que fabrica produtos alternativos à carne, salsicha e frango.

E não pensem que, com este tipo de produção em laboratório, se está a condenar a agricultura tradicional: ela vai continuar a existir, até porque este mercado da carne celular será sempre um nicho.

Será esta uma janela aberta para o futuro da alimentação?