Crónicas do Fidalgo

Experiências

Quando a ficção profetiza a realidade

Cena de "The Day After Tomorrow"

O frio extremo atingiu os Estados Unidos, com ventos gelados que chegam aos -51ºC, mas calma. A imagem de cima não é real. É um dos cenários catastróficos de “The Day After Tomorrow”, um filme de ficção científica de 2004, realizado por Roland Emmerich e protagonizado por Dennis Quaid e Jake Gyllenhaal.

Dei por mim a pensar: é assustador quando a ficção profetiza a realidade.

O filme baseia-se num futuro imaginado em que o aquecimento global se encontra em elevado processo de aceleração e foi um sucesso de bilheteiras. Arrecadou mais de 550 milhões de dólares em todo o mundo. Mas rapidamente os climatologistas puseram em causa o valor científico do argumento.

Patrick Michaels, um céptico em relação ao aquecimento global, escreveu no USA Today, a propósito do lançamento do filme: “Como cientista, arrepio-me quando mentiras camufladas como “ciência” são usadas para influenciar o discurso político… Qualquer um destes fenómenos [retratados no filme] é fisicamente impossível.”

A Yahoo! incluiu o “The Day After Tomorrow” numa lista dos 10 filmes cientificamente mais imprecisos. William Hyde, paleoclimatologista na Duke University afirmou que “este filme está para a ciência climática como o Frankenstein está para as cirurgias de transplante de coração”.

Bem, facto é que as notícias dos últimos dias têm sido assustadoras. Cerca de 220 milhões de norte-americanos (75% da população continental) estão a ser afectados pela vaga de frio. Pelo menos doze pessoas já morreram. E enquanto que Chicago deve registar uns históricos -30ºC de mínima, a sensação térmica pode chegar aos -51ºC, avança a CNN. Há 25 anos que os termómetros não atingiam valores tão baixos.

O Lago Michigan (em Chicago) completamente congelado

O Lago Michigan (em Chicago) completamente congelado

Reuters

A vaga de frio deve-se a uma massa de ar gelada que deveria estar acima do Pólo Norte e que se encontra, anormalmente, em latitudes mais baixas. Desta forma, o clima do Ártico atinge os EUA. Já foram activados planos de emergência, como noticia o Observador, e várias escolas e universidades estão fechadas. Em Upper Midwest e Great Lakes as mínimas podem mesmo oscilar entre os -28ºC e os -40ºC.

Nos primeiros três dias desta semana já tinham sido cancelados 3.400 voos no país à conta das temperaturas atípicas, avança a CNN.
Em tempos como estes, já há planos de apoio em curso. O Mayor de Chicago anunciou na sua conta de Twitter que várias instalações da cidade foram transformadas em centros de acolhimento para aqueles que não tenham acesso a calor suficiente. Estamos a falar de esquadras da polícia, bibliotecas, parques, entre outros, prontos a acolher os que mais precisam. E não é caso único.

A vaga de frio deve-se a uma massa de ar gelada que deveria estar acima do Pólo Norte.

A vaga de frio deve-se a uma massa de ar gelada que deveria estar acima do Pólo Norte.

Getty Images

De acordo com o New York Times, estes fenómenos climáticos têm sido cada vez mais frequentes nos últimos anos. Os cientistas ainda não encontraram uma explicação plausível para o evento.

Esta tendência para que se verifiquem temperaturas baixas extremas - como as retratadas em “The Day After Tomorrow” - podem dever-se ao colapso da circulação termoalina meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), um sistema de circulação da água do oceano Atlântico Norte que modera as temperaturas a norte do equador.

Um estudo da Universidade de Southampton, publicado na revista científica Nature Scientific Reports, indica que fomos ingénuos ao pensar que estaríamos livres das realidades que inspiraram “The Day After Tomorrow”. “O cenário básico do AMOC como resultado do aquecimento global não surge “do nada” ou não é impensável”, afirma o autor do estudo, Sybren Drijfhout. Num artigo que já tem alguns anos, publicado pelo South Asia Morning Post, este professor de oceanografia e de física climática explica que “os actuais padrões de aquecimento indicam não só que o colapso da AMOC é possível, como também que as consequências resultados se assemelhariam ao “The Day After Tomorrow”, ainda que de forma menos extrema”.

E quem fala deste filme de Roland Emmerich também pode falar de “2012”, do mesmo realizador, de “Geostorm - Ameaça Global”, de Dean Devlin, ou de “Into the Storm”, de Steven Quale.

No que toca a fenómenos climáticos extremos, resta-nos esperar - e agir - para que a profecia ficcional não se aproxime, cada vez mais, da realidade.