Crónicas do Fidalgo

Experiências

As meninas não jogam futebol

Ou melhor, até jogam. Mas num dia específico, distinto do dos rapazes. Isto aconteceu aqui, no nosso cantinho à beira mal plantado. Mais concretamente, numa escola em Salvaterra de Magos.


O pai de um aluno reparou no horário que distribui o campo de jogos pelos alunos da escola. "Segunda-feira, 1.º ano; Terça-feira, 2.º ano; Quarta-feira, 3.º ano; Quinta-feira, 4.º ano; Sexta-feira, meninas. Este último a cor-de-rosa." destaca o artigo do Público.

A iniciativa parecia ter a melhor intenção mas resultou numa queixa à Comissão para a Igualdade de Género. Este pai, conhecido na terra por ser uma voz activa, não conteve a sua indignação.
A resposta apresentada foi que «o que lá jogam é futebol e que os meninos não deixam as meninas jogar com eles. Se não deixam, têm de ser ensinados a deixar!» Porém, um membro da presidência do agrupamento de escolas veio rematar e «garantiu que as alunas podiam jogar em qualquer dia.» Ao Público Ana Arrais, adjunta da directora do agrupamento, explicou que a medida se trata de discriminação positiva, motivada pelo facto "realista", adianta, de os rapazes habitualmente jogarem mais à bola do que as meninas.

Contudo, este não é um caso único. O mesmo encarregado de educação acabou por ter conhecimento de que esta prática se estende a outra escola.
Ensinar através da segregação de género será a melhor maneira? Estaremos a educar para a partilha, para a necessidade de valorizar o outro e pela importância futura que esta educação pode causar? Este caso leva-nos a refletir sobre outro assunto. Estarão as educadoras do ensino primário alertadas para este novo paradigma? Estará o ensino superior a alertar as futuras educadoras para este tema que cada vez se torna mais indispensável?

O caminho para a igualdade está, neste momento, a ser feito a passos largos mas o trajecto ainda é longo e os trilhos difíceis de ultrapassar. É urgente questionar e combater ideais enraizados. Os pais atentos aos pequenos detalhes são um bom augúrio na formação futuros adultos que entendam que os géneros não são muros intransponíveis e que não há actividades ou traços que devem ser exclusivas de rapazes ou de raparigas.

Mas esta questão é muito controversa e no domínio da educação para a Igualdade de Género as opiniões dividem-se. A Suécia, por exemplo, aposta na neutralidade. Ellie Mulcahy, ex-professora e investigadora no Think Tank de educação LKMco, defende que “separar rapazes e raparigas não faz nada para enfrentar a desigualdade estrutural subjacente na sociedade” e que, pelo contrário, “reforça estereótipos de género prejudiciais“, como afirma num artigo de opinião no The Guardian. É por isso que o sistema educativo sueco aposta na abordagem de género neutra. Por exemplo, os professores são incentivados a colocarem de parte as diferenças entre géneros, chamando as crianças por "amigos" ou pelos seus nomes, em vez de utilizarem as palavras "meninos e meninas". Em 2012 foi mesmo criado o pronome de género "hen", que hoje em dia é comum no dia-a-dia dos suecos. Defende-se também que os professores devem contrariar os papéis de género tradicionais e na hora do recreio deve evitar-se a separação entre rapazes e raparigas.

Já na Islândia, país conhecido pelas políticas consistentes de Igualdade de Género, há uma escola que promove a separação de meninos e meninas que tem sido elogiada. Trata-se da "Escola Hjalli", um jardim de infância na capital, Reiquiavique, onde os alunos são separados por género de forma a desenvolverem com cada grupo traços que são, tradicionalmente, atribuídos ao outro sexo. Desta forma, as meninas são motivadas a serem independentes e corajosas. Já os meninos são incentivados a serem mais carinhosos e a colaborarem mais em grupo.

Num trabalho da The Economist, Margret Pala Olafs, fundadora da escola, explica que a ideia é promover o afastamento das "qualidades extremas" de cada um dos géneros.

Se os rapazes forem “sempre fortes, sempre decididos, sempre a comandarem, eles vão acabar por fazerem bullying, lutarem, quebrarem as regras”, adianta Margret. Já as raparigas, se forem
"sempre prestáveis, cuidadosas, a pensar nos outros, sempre a olharem para um amigo à espera de aceitação, vão acabar por se esquecer de si próprias”, afirma.

Um estudo citado pela mesma publicação revela que os estudantes desta escola apresentam “um melhor entendimento da Igualdade de Género” mais tarde nas suas vidas, quando comparadas com crianças de outras escolas.

Dá que pensar!