Crónicas do Fidalgo

Experiências

E se a água acabasse?

Foi nesta eminência que a Cidade do Cabo, na África do Sul, viveu grande parte do ano passado. Durante meses, o relógio do painel da água estava numa ameaçadora contagem decrescente para o Dia Zero. Nada mais, nada menos do que o dia em que a cidade já fustigada pela seca iria ficar, eventualmente, sem água. O dia foi sendo adiado - graças às restrições entretanto implementadas e a alguma chuva - e a última contagem que foi feita não tem ainda uma data certa. Sabe-se apenas que o Dia Zero poderá acontecer em 2019. A confirmar-se, esta será a primeira metrópole mundial a ficar sem água. Para perceberem um pouco melhor: as torneiras podem ficar sem água.

Painel da água da Cidade do Cabo. A situação já esteve em indicadores bem mais vermelhos.

Painel da água da Cidade do Cabo. A situação já esteve em indicadores bem mais vermelhos.

Desde 1 de Dezembro de 2018, os habitantes da Cidade do Cabo estão sob restrições de consumo de água de nível 3, o que requer que sejam utilizados 105 litros por dia - ou menos - por pessoa. Mas a situação já foi mais assustadora.
O especialista em alterações climáticas, Filipe Duarte Santos, comenta num artigo do Público que “a Cidade do Cabo era considerada uma das cidades exemplares em termos de implementação de medidas de adaptação no sector da água, portanto uma cidade com grandes preocupações nesse aspecto”. E em 2014 as barragens que abasteciam a capital sul-africana (e que dependem da precipitação) estavam cheias! Entretanto, chegaram a estar a menos de 25% da sua capacidade.

Como é que isto aconteceu? O problema, refere Filipe Duarte Santos, foi não terem sido planeadas “opções alternativas”. É o caso da exploração de aquíferos ou de centrais de dessalinização que começaram a ser, entretanto, “construídas à pressa”.

Esta crise de água, com contornos catastróficos, não aconteceu de um dia para o outro. Foi fruto de uma seca de três anos - os mais secos de que há memória no país - que esvaziou as barragens da África do Sul. O território foi um dos mais afectados pelo fenómeno climático El Niño, caracterizado pela subida da temperatura dos oceanos. Os baixos níveis de precipitação são outro problema. Já em período de seca, em 2015, caíram 315 milímetros de chuva na Cidade do Cabo. Em 2017 foram registados apenas 157 milímetros.
São quase exclusivamente seis as barragens que fornecem água aos cerca de quatro milhões de habitantes da Cidade do Cabo. Ao todo, em Fevereiro de 2018, as barragens estavam apenas a 24,1% da sua capacidade. A maior delas, a de Theewaterskloof - que serva quase metade da população daquela capital - chegou aos 11%. Abaixo dos 10% é quase impossível tirar água.

Restos mortais de um peixe no solo seco da barragem de Theewaterskloof, perto da Cidade do Cabo. A barragem, responsável pelo fornecimento da maior parte da águ potável da cidade, atingiu níveis de capacidade perigosamente baixos. Chegou aos 11%. Abaixo dos 10% é quase impossível retirar água. REUTERS/Mike Hutchings

Restos mortais de um peixe no solo seco da barragem de Theewaterskloof, perto da Cidade do Cabo. A barragem, responsável pelo fornecimento da maior parte da águ potável da cidade, atingiu níveis de capacidade perigosamente baixos. Chegou aos 11%. Abaixo dos 10% é quase impossível retirar água. REUTERS/Mike Hutchings

O Dia Zero vai acontecer quando a capacidade total das seis barragens estiver a 13,5%. Este dia fatídico vai sendo “empurrado” para a frente com maiores restrições no consumo de água, com a precipitação…
Quando esse dia chegar e a cidade ficar sem água, os moradores terão de fazer fila num dos 200 postos espalhados pela cidade para conseguirem os seus 25 litros de água por dia. Sabem qual é o consumo médio, por pessoa, em Portugal? 200 litros. “Não há nenhuma cidade moderna no mundo que tenha conseguido aguentar-se com 25 litros de água diários por pessoa”, confessou Benoit Le Roy, director da organização Water Shortage South Africa, ao jornal El País.
Imaginem ter de pensar muito bem antes de usar água: para gastar apenas 50 litros por dia, por exemplo, só se pode lavar a louça uma vez por dia. A máquina de lavar a roupa só pode funcionar uma vez por semana, como recomenda o município. O autoclismo, que dispensa nove litros de cada vez, só pode ser puxado uma vez por dia. É por isso que é recomendado que se use a chamada “grey water”, como a escassa água da chuva ou a água de lavar o chão para fazer a descarga da sanita.
As restrições afectam o comércio e o turismo. Há quem tenha de levar as próprias toalhas e água para o cabeleireiro. A relva e a vegetação dos jardins morre.

Chegou a ser criado um website onde os habitantes podem verificar qual tem sido o seu consumo de água - e o dos seus vizinhos. Desta forma, conseguem perceber melhor se estão a ser bem sucedidos na sua poupança de água.
As alterações climáticas estão a fazer com que as probabilidades de secas mais frequentes e intensas sejam maiores. É por isso que o planeamento do abastecimento futuro de água nas cidades é fundamental, com soluções de longo prazo e una menor dependência dos combustíveis fósseis, por exemplo. Porque hoje é a Cidade do Cabo que está a braços com este problema. No futuro, a catástrofe pode replicar-se noutros pontos do globo.