Crónicas do Fidalgo

Experiências

Vamos agasalhar quem mais precisa?

Imagine um "Estendal solidário gigante", em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa. Um estendal cheio de casacos quentes pendurados, prontos a agasalhar quem mais precisa. Idosos, adultos e, sobretudo, crianças.

Trata-se de um projecto intitulado "Heat the Street" e que vai tomar a Avenida da Liberdade já amanhã, 15 de Dezembro, a partir das 14h e até à meia-noite. Neste horário pode doar ou levar casacos, junto ao Hard Rock Café.

A corda tem mais de uma centena de metros: vai desde os Restauradores até à rua das Pretas. E em edições anteriores tem sido ocupada e esvaziada umas três e quatro vezes, conta-nos Sílvia Lopes, uma das criadoras do projecto.

Seja um sem-abrigo ou uma família que não tem possibilidade de comprar roupa, os que mais precisam podem usufruir de um agasalho.

O Heat the Street, que aquece o corpo e o coração, vai assinalar este ano a sua quarta edição e terá, desta vez, mais oferta de casacos e sobretudos para crianças.

©Rodrigo Gatinho

Ao P3 Sílvia Lopes, que trabalha na área de comunicação e publicidade, explica: "Quem vem ao evento, ou vem por uma boa causa ou vem por uma boa razão. Queremos mesmo promover este espírito de recolha livre porque as coisas não estão na cara. A necessidade nem sempre está à vista e, de repente, de um dia para o outro, podemos ficar sem trabalho e precisar deste tipo de coisas."

Em situação de necessidade, as pessoas não têm possibilidade de escolha: ficam com que há. Com esta iniciativa, quem mais precisa pode circular quase que por uma "loja" ao ar livre: podem escolher as cores que mais lhes agradam, podem experimentar vários tamanhos, adianta a criadora.

Tal como num espaço comercial, a própria corda do estendal estará dividida por secções: Homem, Mulher, Criança e Acessórios, como luvas, gorros, cachecóis e mantas.

O evento tem crescido de ano para ano. Nesta edição, Sílvia acredita que a adesão será ainda maior, ou não tivesse o evento de Facebook mais de 4000 interessados ao fim de dois dias da sua criação!


A ideia surgiu em 2015. Sílvia Lopes tomou conhecimento, através das redes sociais, de uma senhora no Canadá que espalhou casacos pelas árvores e pelos postes. E o que começou com uma pequena página de Facebook, em que Sílvia convidou amigos e familiares a fazer o mesmo, tornou-se num evento com uma dimensão muito maior. A equipa do Heat the Street é composta por cinco pessoas, contando com voluntários no dia do evento.


Vamos agasalhar quem mais precisa?

©Rodrigo Gatinho

Mas quem melhor para falar do projecto do que quem o criou? Leiam as palavras da Sílvia:

Se tem a mais, venha doar! Se tem a menos, venha receber! – é a mensagem que o Heat the Street (HTS) tem difundido ao longo do último mês, procurando que o evento deste ano possa chegar a mais gente e que o momento de dar e receber se torne ainda mais quente.
Uma corda com uma zona exclusiva para crianças para dar resposta aos apelos de muitas famílias e constituída por mais três seções: Homem, Mulher e Acessórios, subirá avenida acima a partir das 14:00 de Sábado e terá sempre por perto o apoio de uma equipa de voluntários do Heat the Street, que ajudarão a etiquetar e a colocar as peças e distribuirão também sacos (oferta da Associação Mutualista Montepio) a quem vier recolher o que mais precisa.
Para aqueles que tiverem dificuldade em voltar a casa/ ao local onde habitam depois do evento pelos seus próprios meios, existirá, este ano - numa parceria inédita com Carris - a disponibilização de um número limitado de bilhetes.
E porque se prevê um dia frio, às portas do Inverno, a Tetley, juntamente com a 2East e a Activation vão oferecer, uma vez mais, chá quente a quem passar pela corda mais quente.

Heat the Street Júnior

Foi para dar resposta a múltiplos apelos que o movimento HTS recebeu de várias famílias que procuravam peças de roupa quente para os filhos que se cria, este ano, pela primeira vez, uma zona exclusivamente dedicada a crianças – O Heat the Street Júnior.

Esta nova vertente do Heat the Street iniciou-se já em meados de Novembro com a acção solidária nas lojas Zippy “Doar é receber” que, durante cerca de duas semanas, receberam mais de sete centenas de casacos e outros agasalhos, que serão colocados numa zona da corda destinada a esta faixa etária.


A corda mais quente, para toda a gente!

Quem vem ao evento, vem por uma boa causa ou por uma boa razão. Em edições anteriores, foi-se ganhando a perceção de que não são apenas as pessoas em situação de sem-abrigo ou em risco de pobreza extrema ou carência social que se dirigem ao local para recolher roupa quente, mas também muitas outras pessoas e famílias que não tem possibilidades de alocar parte do seu orçamento mensal em bens como roupa.

Para mais, quando as pessoas se dirigem a lojas sociais das suas zonas de residência, não têm, muitas vezes, a possibilidade de escolher as peças que levam, ficando com aquilo que está disponível. Na corda mais quente, não queremos que isso aconteça, queremos que quem aqui se desloca se sinta parte de um espírito de recolha livre e que tenha o devido acompanhamento dos voluntários.

©Rodrigo Gatinho

Após o evento

Tudo o que não for recolhido tem também um destino! Aliás, vários! Porque este ano teremos, para além dos nossos habituais parceiros, – a Associação de Intervenção Comunitária Crescer (em Alcântara) e as lojas sociais Boa Vizinhança – Dona Ajuda (que funcionam diariamente no mercado do Rato) que, no final do evento, vão igualmente ajudar-nos a colectar os agasalhos para que possam chegar a quem precisa. Aliás, na semana seguinte ao evento, quem precisar poderá dirigir-se lá para recolher a roupa que lhe for necessária.

Sílvia Lopes, uma das criadoras do evento.

Sílvia Lopes, uma das criadoras do evento.

ID
Sílvia Lopes

Pessoa do mundo, um espírito inquieto e curioso, ávido por aprender e viver em todo o seu potencial. O tempo agora exige pessoas capazes de enfrentar múltiplos desafios de diferentes naturezas e a Silvia é um concentrado de seres – muitos anos de experiência na área da comunicação, fotógrafa nas horas vagas ou nas horas tardias e absolutamente comprometida em contribuir para uma mudança positiva no mundo. Aventurou-se e trouxe de volta uma experiência internacional inspiradora - viveu na Austrália, no Camboja, onde foi coordenadora de negócios de uma ONG e em Londres, numa prestigiada agência de marca. Agora, de volta, feliz por chamar casa a casa e a fazer por ir fazendo, que é assim que algo se faz.