Crónicas do Fidalgo

Experiências

O lado mais obscuro das redes sociais

"Apagar... ignorar... Apagar... Ignorar..."

Sabia que há pessoas cuja profissão é censurar e seleccionar os conteúdos que surgem nos feeds das suas redes sociais?

São as decisões destas pessoas que moldam, em grande parte, o entendimento que temos do mundo.

Em 2013, o vídeo de uma violação de uma criança esteve online durante 16 horas. No Facebook, teve 60.000 partilhas. Foi este o gatilho para que Moritz Riesewieck e Hans Block criassem o documentário “The Cleaners”, que se debruça sobre uma questão que passa, muitas vezes, pela sombra: como é que este tipo de situação acontece? Quem ou como são moderados os conteúdos partilhados nas redes sociais?

Estas questões levaram os autores até às Filipinas. Foi aí que foi estabelecida uma base de controlo onde trabalham milhares de pessoas com uma função: limpar as redes sociais dos conteúdos mais negros que possamos imaginar. São estes milhares de trabalhadores filipinos (o número exacto, não se sabe), que decidem o que podemos ver ou não pode sequer estar online. Trabalhadores esses que são, diariamente, sujeitos ao visionamento daquilo que de mais macabro a humanidade é capaz: violações, agressões, assassinatos, suicídios, espancamentos…

Não é um trabalho leve nem é qualquer pessoa que é talhada para a função. Estes filipinos vêm-se a braços com transtorno de stress pós-traumático, tal como acontece com militares que estiveram expostos a traumas de guerra. Depressões, ansiedade… É longa a lista de transtornos psicológicos que esta profissão provoca. E como se o grau de dificuldade das tarefas de “limpeza” não bastasse, as condições em que trabalham são muito precárias. O salário mínimo nas Filipinas é de 242,06€. São contratados por gigantes de Silicon Valley, como o Facebook e a Google, para fazer esta "higienização digital". Navegam e eliminam conteúdos que consideram inapropriados, acabando por influenciar o que as pessoas vêem e pensam no mundo inteiro.

As redes sociais aproximam-nos dos que estão longe, informam-nos, divertem-nos, mas também têm um lado muito obscuro. “The Cleaners” revela-nos este lado, onde pessoas executam, com muito poucas condições, um trabalho que é essencial: assegurar que estas plataformas digitais mantêm as portas bem fechadas ao horror da humanidade.

Estas empresas trabalham sob o máximo sigilo. Estas funções são secretas. No documentário é também revelado que as equipas de “limpeza” recebem ordens no sentido de apagar certas publicações, a pedido de governos e decisores públicos. O intuito? Influenciar determinados grupos de pessoais.

Perante acontecimentos recentes, como o conceito de Fake News, o caso Cambridge Analytica, etc, este documentário leva-nos a reflectir a fundo nas premissas de liberdade de expressão e partilha - argumentos, afinal, fundamentais para que a importância das redes sociais seja legitimada. Como está a saúde das redes sociais? Para onde caminham?

O documentário “The Cleaners” tem corrido os maiores festivais de cinema. Ainda não estreou em Portugal, mas esperemos que esteja para breve!